quarta-feira, março 15, 2017

UM PORTUGUÊS NA HOLANDA QUE APOIA O PARTIDO DA LIBERDADE HOLANDÊS

José Rentes de Carvalho, o escritor português que vive na Holanda há mais de 60 anos, já decidiu em quem vai votar esta quarta-feira, dia 15: no candidato populista Geert Wilders. Numa publicação no seu blogue, Tempo Contado, revelava a sua opção. O escritor afirmava partilhar algumas ideias do candidato de Extrema-Direita: a de “deportar os marroquinos que, na Holanda, encabeçam as estatísticas da criminalidade”; a de que a Holanda teria vantagem “em se separar da UE (o que não acontecerá)”; e a de que “deveriam ter fechado as fronteiras (o que está provado ser impossível )”.
Ao mesmo tempo, Rentes de Carvalho escreveu que discorda de Wilders “pela irrealidade das suas intenções, pelo seu autoritarismo, pela nada democrática prática de ter um partido em que se pode votar, mas não aceita filiados”. Ainda assim, assume que vai votar nele: “Dando-lhe o meu voto — o meu protesto — espero contribuir para que, alcançando um bom resultado eleitoral, ele tenha em mãos a possibilidade de fazer uma oposição construtiva”. Por email, José Rentes de Carvalho respondeu às perguntas do Observador sobre o porquê deste voto.

Escreveu no seu blogue que vai votar em Geert Wilders. Pedia-lhe que explicasse porquê, apesar de já ter dado algumas pistas no texto que publicou.
O motivo deste meu voto necessitaria de uma explicação demasiado longa e complexa, pois decorre de sessenta anos de vida numa sociedade a que pertenço, e cujos problemas partilho, mas não é aquela onde nasci. Essa situação particular, a de outsider inside, tem vantagens e desvantagens. Entre as vantagens de certeza conta a possibilidade de analisar os fenómenos sociais com um certo afastamento e independência, mantendo-me à distância de partidos políticos, grupos de interesse e correntes académicas, procurando, na medida do possível, ver claro naquilo que me rodeia.
Daí resulta que uma das conclusões a que chego é a de que os partidos políticos na Holanda não só têm deliberadamente ignorado ou adiado a resolução dos problemas da sociedade, como funcionam num ambiente de wishful thinking, esperando que, não lhes mexendo, os problemas acabem sempre por ter solução.
Vai o partido de Wilders resolver isso? Não vai. Contudo, se a sua posição for suficientemente forte, de certeza irá dando aos partidos no governo a possibilidade, ou os argumentos, de alguma mudança, o que eles, cautelosamente, têm vindo a fazer nos últimos meses.

Não teme eventuais consequências junto dos seus leitores habituais, por ter declarado esta intenção de voto? Pergunto isto porque Wilders é sobretudo associado a ideais como a islamofobia, Nacionalismo, princípios de Extrema-Direita…
Temer eventuais consequências? Nunca isso me passaria pela cabeça. Nada tenho a ver com os meus leitores, não lhes devo coisa nenhuma, tão-pouco me interessa o seu favor ou desfavor, ou que eles suponham poder-me associar com Wilders, a islamofobia, a Extrema-Direita, o partido dos animais ou os vegetarianos. Não pertenço, não me associo, não tiro proveito. Sou livre e ajo com liberdade, nenhum interesse material, político, económico, social ou outro tem poder para coarctar a minha liberdade.
Claro que sofro as consequências e sei o preço dessa liberdade. O não ter cantado loas ao 25 de Abril, paguei-o com quarenta anos de desdém e ostracismo. De nada contou ser na Holanda um escritor bestseller, um jornalista respeitado, um docente universitário de boa fama, um sujeito estimado. Em vez de dizer que nem as moscas nem o excremento tinham mudado, teria sido proveitoso entrar no coro e gritar que, finalmente, o sol brilhava para todos, até para os deserdados.

Se houvesse um candidato ou uma candidata semelhante numas eleições portuguesas, votaria nele ou nela? Ou a sua escolha seria diferente porque são países diferentes?
Não votaria. Mas o problema não se põe. As duas sociedades não se comparam. Os atritos que se dão na Holanda têm um potencial explosivo impensável no contexto português. Quando os turcos, dias atrás, em Roterdão e Amesterdão, depois do incidente com a diplomata, saíram à rua em multidão empunhando centenas de bandeiras turcas, um pequeno nada teria sido suficiente para fazer explodir o ressentimento e o ódio latente em ambas as partes.

Diz que apoia a ideia da “deportação de marroquinos” defendida por Geert Wilders, porque “encabeçam as estatísticas da criminalidade”. Mas essa é uma ideia que parece dizer que todos os marroquinos são criminosos, não? Não é uma generalização perigosa e injusta?
Não há generalização. Wilders tem dito, e repetiu-o no tribunal, que, sendo governo, deportaria todos os marroquinos com cadastro criminal.

Desislamizar a Holanda é um dos princípios de Geert Wilders e isso inclui encerrar escolas islâmicas e mesquitas, proibir o Corão… Não são atentados à liberdade?
Pode ser que sim. Mas o que é proibir a celebração do Natal? Retirar os crucifixos das escolas? Ditar o traje feminino?

Ao mesmo tempo, discorda de Wilders pela “irrealidade das suas intenções”. Que intenções irreais são essas?
Mesmo sendo governo nunca seria possível o que ele denomina desislamizar a Holanda, pois não vejo como poderia proibir a crença, os ritos e a maneira de viver de um milhão ou mais de pessoas. Do mesmo modo é ilusório querer encerrar as escolas ou proibir o Corão. Quer aos holandeses agrade ou desagrade, facto é que o Islão e os muçulmanos já fazem parte da estrutura social.

A politóloga holandesa Saskia Bonjour dizia há poucos diasem entrevista ao Observador: “Ao contrário de Donald Trump, que sempre quis governar e que agora vemos que está a aplicar um programa que assentava em questões económicas e de imigração, Geert Wilders não parece estar verdadeiramente disposto a governar. Ninguém sabe ao certo o que é que ele quer para a economia, para a saúde ou para a segurança social. Ele só fala dos muçulmanos.”
Essa afirmação é inexacta. Wilders não fala apenas dos muçulmanos. Defende a saída da Europa, a reestruturação da segurança social e do caríssimo sistema da saúde. Pode ser que a politóloga não leia os jornais, nem se dê suficientemente conta da sociedade à sua volta.

É esta a ideia que também tem, que Geert Wilders não estará disposto a governar? Então, qual será a verdadeira intenção?
Ele pode ter os votos, mas não tem assessores, candidatos para lugares governamentais ou quadros. Verdadeira não sei, mas uma possível intenção é a de tornar difícil a política governamental, fazer a modos de uma guerrilha.

Fala também da “autoridade” do candidato como uma coisa negativa. Escreve que este seu voto será um voto de protesto e que acredita numa oposição construtiva de Geert Wilders. Mas, se Wilders chegar ao poder, essa autoridade não corre o risco de se tornar ainda mais perigosa? Um voto de protesto não pode ter outras consequências inesperadas?
O carácter autoritário não o abona e é um obstáculo ao seu funcionamento numa coligação, mas se de qualquer modo a sua actividade se tornasse perigosa para as instituições, a sociedade holandesa é suficientemente sólida e excelentemente estruturada para que a um indivíduo seja dada a possibilidade de a desestabilizar.

Defende a ideia de fecho de fronteiras. Porquê?
Eu não defendo o fecho das fronteiras, simplesmente constato que, abertas ou fechadas, as fronteiras de modo nenhum impedem as vagas de refugiados. E por vezes pergunto-me se o desleixo em tomar medidas preventivas não será menos acidental do que nos fazem crer. Porque afinal a Europa precisa de juventude, de trabalho barato…

Wilders tem estado, desde há mais de dez anos, sob escolta, devido a ameaças de morte. Muitos acusam-no de, por isso mesmo, viver à parte daquilo que acontece na sociedade holandesa. Isto não o assusta?
O ter segurança permanente por certo não o impede de estar ao corrente do que se passa. As suas intervenções no parlamento e as entrevistas dão mostra de que se mantém bem informado do dia-a-dia do país.

Como cidadão com dupla nacionalidade a viver na Holanda, não teme que eventualmente políticas anti imigração o possam atingir?
Desculpe que lho diga, mas a sua pergunta denota irrealidade. Com Wilders a governar, a Holanda é bem capaz de decidir pela deportação de criminosos, e eu não me incluo na categoria. Fora essa improvável situação, a Holanda não vai deportar ninguém.

O que quer dizer com “vinte e tal anos de governos tão politicamente corretos” na Holanda? Que “correção política” é esta de que fala?
Não me diga que ignora o significado da expressão, mas vou fingir que sim: as substanciais ajudas a países subdesenvolvidos que resultam no financiamento da corrupção; o extraordinário interesse pelo aquecimento do planeta, as energias limpas, a poluição, raro dando oportunidade a que se façam ouvir os que defendem outros pontos de vista.

Vê semelhanças entre as políticas propostas por Geert Wilders e as de Donald Trump? E, já agora, o que lhe parece a nova administração americana?
Não estou suficientemente ao corrente, mas, para lhe ser franco, de momento a América está um bocadinho fora dos meus interesses. Contudo, se o Presidente Trump mantiver o financiamento da NATO e se mostre compincha com o presidente Putin, durmo descansado.

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Agradecimentos ao anónimo e ao camarada PF por me terem a conhecer este artigo: http://observador.pt/especiais/rentes-de-carvalho-vota-geert-wilders-e-explica-porque/

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Muito sintomático o que diz o entrevistado: «cá na Holanda isto está mesmo mau, mas em Portugal nunca aconteceria uma tensão étnica destas...» Foi com essa mentalidade ingenuamente optimista que a Holanda ficou como está, e quem diz Holanda diz França, Inglaterra, Alemanha, Bélgica e Suécia... eventualmente o escritor pensará que em Portugal a atmosfera é se calhar doutra qualidade, ou então a qualidade do solo, talvez da água, torna as pessoas mais pacíficas e tolerantes e assim... claro que a questão do Islão é determinante e em Portugal ainda não há nada que se compare ao que na Holanda já se observa nesse aspecto, mas de qualquer modo é bem provável que Rentes de Carvalho não conheça o quotidiano de medo de quem viaja nos comboios da linha de Sintra ou de quem vive em certos bairros da zona, devendo somar-se isto à possibilidade de que num futuro não demasiado distante todo o ressentimento africano contra a Europa em solo português possa ser dinamizado pelo aumento lento mas progressivo da presença islâmica em Portugal. É, de qualquer modo, uma surpresa curiosa e positiva que um intelectual bem colocado socialmente tenha a coragem de apoiar abertamente - ainda que com a distância crítica que evidencia - um político manifestamente anti-Islão e anti-imigração.


1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/90-mil-estrangeiros-ganharam-nacionalidade-portuguesa-2016-118766

Este tipo de noticias, ficava bem, perto daquela musica do Frank Sinatra, "and now the end is near and so i face the final curtain"

15 de março de 2017 às 23:06:00 WET  

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