
(...) Cara ao norte, no Alto das Cabeçadas, temos os poços romanos, de exploração mineira, conhecidos pelas Covas dos Ladrões, de um dos quais saíram, não há muito, duas pequenas aras consagradas à divindade indígena “Ilurbeda” (…) E mais para além, vencida a serra da Folgosa e ultrapassado o Rabadão, não podemos deixar de referir as minas pré-históricas da Eira dos Mouros, na Encosta da Devouga, ao Liboreiro, com materiais de feição eneolítica e demais períodos do Bronze.Estes e outros vestígios do passado, ainda mal conhecidos, são indícios para já suficientemente reveladores de uma longa e activa permanência humana por aquelas redondezas, motivada ao que parece pela sua relativa abundância de minérios, o ouro e o estanho sobretudos. São como anéis desarticulados e dispersos de imaginária cadeia forjada, na bigorna dos séculos, por gerações atrás de gerações. Pobres restos materiais, aparentemente sem valor, que encerram no entanto a alma e a mentalidade dos povos que ali se sucederam e os deixaram, é através deles que teremos de refazer e articular de novo os elos da cadeia, se quisermos vir a ter um pálido vislumbre da sua trajectória pela penumbra dos milénios.(…) A magia, que brota da “Pedra Letreira” volta aqui [na “Pedra Riscada”], a dominar-nos, avassaladora e irresistível. Parece obra de encantamento. Apalpa-se a presença do sobrenatural. Há longes de infinito na cumeada das montanhas. Foge-nos a alma para o céu. O poder divino manifesta-se. Lugares malditos, chama-lhes o povo. Evita os seus silêncios. Aterra-o a solidão do ermo. Cria o mito das mouras encantadas. É que, por instinto, ele tem a percepção de ali estarem as relíquias de deuses ancestrais, de cultos esquecidos e quem sabe se a cinza dos seus mortos. Tem o respeito instintivo do sobrenatural, o respeito do sagrado, que tem fronteiras com o medo.Quando os romanos, na pista do ouro, vieram dar a estas serras, devem ter sofrido a efeito do mesmo sortilégio. O espectáculo grandioso da paisagem, dinamizado pela crista da Serra do Penedo, qual dorso de gigantesco dinossauro a esventrar o céu, cujo céu, ao mesmo tempo aliciante e alucinante, havia de moralmente os predispor para a aceitação do poderoso Génio local, a cuja vontade deveriam obedecer as forças ocultas da própria natureza física. Senhor dos montes e das fontes, das trevas e da luz, das nuvens e dos ventos, da superfície exterior e das entranhas, da vegetação e dos rochedos, eram seus também o ouro e o estanho dos filões.(...)
No cenário majestoso que tem por centro de gravitação a altaneira Serra do Penedo havia, pois, um culto antiquíssimo. A “Pedra Letreira” dos Amieiros e a “Pedra Riscada” da Mestras são, juntamente com as aras romanas das Covas dos Ladrões, nas Cabeçadas, documentos abonatórios da sua vitalidade através de muitos séculos. Que os dedicantes destas aras fossem romanos de gema, o que não é provável, a avaliar pelo onomástico e respectiva ortografia, ou naturais romanizados, isto é, hispano-romanos, vem a dar o mesmo. O que importa é que elas atestam, já no Outono do Império, a longa perduração desse culto e o nome da respectiva divindade.
Não conhecemos, em ponto algum do território hispânico, qualquer outro testemunho de tal hierónimo. Tratar-se-á de um culto exclusivamente local? Relíquia filológica do património cultural das populações de fala ibérica, ou anterior a elas, o certo é que, se outros centros houve do culto a esta divindade no resto da Península, carecemos das respectivas provas. Não se conhecem mais vestígios. Só este subsiste.
O que não sabemos, nem saberemos nunca pela certa, é o que nas garatujas ideográficas da “Pedra Riscada” e monumentos congéneres, qual ensaio incipiente de incipiente escrita, quiseram os pretensos devotos de Ilurbeda expressar para além de uma instintiva atitude de sujeição ao seu poder sobrenatural.
Calemo-nos pois. Não profanemos com palavras vãs a paz do ermo que envolve o santuário. Todo o mistério tem o seu encanto, a sua poesia, que é uma das formas da verdade…(...)
Andam deuses pagãos pelas vertentes
voltadas para a crista do Penedo
em cujo panorâmico fraguedo
há do seu génio provas evidentes.
A par do nome hispânico-latino
inscrito em duas árulas romanas
muitas gravuras há pré-lusitanas
sopradas pelo espírito divino.
Difícil é saber interpretar
o que as populações nos transmitiram
nos riscos que deixaram lá ficar.
Sem pretender qualquer decifração,
limito-me a dizer que elas sentiram
andarem deuses… por aquele chão!
João de Castro Nunes, arqueólogo
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