terça-feira, julho 28, 2026

GREGOS E TROIANOS SIM, BASTARDIZADOS É QUE NÃO


Provável aparência de Helena de Tróia, «a dos braços brancos», como lhe chama Homero na Ilíada. A pele clara era um elemento crucial da beleza feminina, sobretudo nas classes altas, indicando que se tratava de gente que não precisava de andar a trabalhar ao sol.
Como bem se pode ver na pintura à direita, encontrada em Micenas (arcaica cidade grega, donde parte o comandante da expedição contra Tróia) e datada do século treze a.c., ou seja, mais ou menos da época da Guerra de Tróia, pois aqui constata-se que as feições são perfeitamente europeias: queixo saliente, lábios finos, nariz ponteagudo e direito, orelhas grandes, cabelo entre o liso e o ondulado. 


Ora quem fez a película decidiu representar «a mais bela mulher da Grécia antiga» com uma actriz africana, que, conforme disse alguém numa rede social, não parece propriamente uma Helena de Tróia mas sim uma Hellen DeTroit... 
Faz pensar em provocação gratuita, para que o filme seja falado e assim se torne polémico, a ver se muita gente vai vê-lo ao cinema, ou porque quer agradar ao público que vê mais filmes, que talvez seja o mais urbano e mais situado na classe média, que usualmente se encontra na área ideológica woke. Mesmo considerando que a vitória de Trump foi esmagadora em 2024, bastava que pelo menos metade do eleitorado de Kamala Harris fosse ver o «movie» só como forma de militância, bastava isso para que a coisa se tornasse num estrondo de bilheteira. Mais provavelmente, constitui simplesmente um produto da longa evangelização anti-racista no seio das elites, produtora de pessoal que acha mesmo, genuinamente, que há o dever de promover modelos de beleza negróides no Ocidente, e quem não gostar é «racista», ou sofreu uma «lavagem cerebral colonialista!», quando o óbvio é exactamente o oposto, pois que um caucasóide só consegue sentir atracção por uma face negróide depois de ampla «mentalização», quando não lobotomia, uma vez que o tipo facial subsariano é em tudo oposto às características da beleza clássica europeia: carapinha, lábios enormemente grossos e salientes, nariz largo e achatado, face prógnata, pele escura, isto quando Helena de Tróia é descrita por Homero como a de «braços brancos», repita-se, numa época em que as mulheres das classes altas zelavam pela brancura da pele, sinal de beleza. 

Por estas e por outras, ainda não vi nem conto ver a «Odisseia» de Christopher Nolan, pelo menos no cinema não,  e o mais destacado que sei do filme oscila entre a reconstrução medíocre e a obscenidade ofensiva. 

Detalhe menor, mas digno de menção, é o da reconstituição material, incluindo a estética minimalista «dark» das armaduras micénicas como elegantes e estereotipadamente negras, em vez mostrar o que seriam originalmente, em bronze e cores intensas, talvez a escolha se deva ao gosto minimalista dos tempos que correm, que faz com que não se leve a sério o que é «excessivamente» colorido, 
https://www.hellenicarmors.gr/en/armor/dendra-armor/
https://www.facebook.com/leonidasofspartaoriginal/posts/how-a-historically-accurate-representation-of-a-late-bronze-age-greek-armor-woul/1264476075724430/
Há entretanto quem diga que a armadura helénica do tempo da Guerra de Troia já não seria assim, que teria menos placas de bronze, e o elmo também seria diferente, mas de qualquer forma não seria muito provavelmente como as que nos filmes de Hollywood se apresentam.

Ainda pior que a questão racial, se possível, é fazerem Ulisses pronunciar estas palavras: «Not even the Gods can stand between me and home», ou «Nem mesmo os Deuses podem meter-se entre mim e o meu lar.» Ora o Ulisses nunca diria uma merda destas. Isto é a chamada «hubris» ou «arrogância», mormente em relação aos Deuses, a coisa mais perigosa que um grego antigo podia fazer. Ulisses em concreto era especialmente prudente, ele nem sequer queria ir à guerra, tiveram de o obrigar. Depois, no retorno, o herói sabe muito bem, a cada momento, que depende dos Deuses, aliás, foi por ter irritado Poseidon, Deus do Mar, que andou dez anos à deriva no Mediterrâneo, como castigo. Com os Deuses não se brinca - nem o atrevido Aquiles ousaria fazê-lo, quanto mais o cuidadoso Ulisses. 
De resto, esta bastardia narrativa não é nova no cinema americano. Segundo li, o «Ulisses» de 1954, com Kirk Douglas, exibiu ainda pior figura. Chega a mostrar Ulisses destruindo um templo de Poseidon, e, em diálogo com Circe, declarando que «atreveu-se a lutar contra um Deus - e permaneceu invicto». Segundo descrição do catálogo do Instituto de Filmes Americano, a abertura da película diz que se trata «da história de Ulisses, que se atreveu a desafiar o Deus e continuou a sua jornada para Ítaca.»
Entretanto, no «Tróia» de há vinte anos puseram um cabrão de um Aquiles «irreverente» a cortar a cabeça a uma estátua de Apolo, e noutra passagem há uma personagem a dizer que Aquiles é um «homem que não luta por nenhuma bandeira. Que não é leal a nenhum País», prontos, já 'tá, perfeito, o herói ideal de todas as Esquerdas e elites da moda.

Percebe-se donde vem esta barracada - da vigente adoração do «irreverente» e do «independente», que se atreve a «tudo» (quase sempre aldrabice, na maior parte dos casos nem sequer toca nos dogmas maiores do seu tempo) e «deita abaixo os falsos Deuses», constituindo por isso uma mistura de Nietzsche (que dizia que «Deus morreu») com Abraão (que destruiu estátuas de outros Deuses que não o de Israel). O próprio Jesus também tem laivos disto mesmo quando por exemplo é expressa e ostensivamente representado a trabalhar ao sábado, dia santo da religião judaica. Consta, por outro lado, que um mestre budista chinês disse certa vez «Se vires o Buda, mata-o», no sentido em que se deve rejeitar todas as noções que se tiver do Divino porque tudo nesta vida flui e é uma ilusão, pelo que o asceta não deve apegar-se a nenhuma forma divina específica. Mais recentemente, um videojogo tem como slogan «Mata o teu Deus. Torna-te Digno.», e o papel do jogador é matar Deuses das profundezas. 
Ora então, nos filmes para as massas, a parte abraâmica é fácil, destruir a estatuária dos Deuses pagãos não ofende «ninguém» com poder, a parte puramente nietzschiana é que nem tanto, pois que, nos filmes bíblicos, nenhum herói se atreve a desafiar Deus, o lóbi ateu esquerdista não consegue ir tão longe porque há o contrabalanço do lóbi conservador cristão. Com os Deuses pagãos, todavia, é mais simples, ainda que seja, evidentemente, muito mais indigno, bem entendido.