quarta-feira, junho 17, 2026

ANÁLISE DE DEZENAS DE ESQUELETOS DE GUERREIROS DA IDADE DO BRONZE DO CENTRO-NORTE EUROPEU INDICA QUE ESTA POPULAÇÃO AINDA NÃO ERA TOLERANTE À LACTOSE

Há cerca de 3000 anos, milhares de guerreiros lutaram nas margens do rio Tollense, no norte da Alemanha. Empunhavam armas de madeira, pedra e bronze com efeitos mortais: na última década, arqueólogos desenterraram os restos mortais de centenas de pessoas enterradas em solo pantanoso. É um dos maiores conflitos pré-históricos já descobertos.
Agora, testes genéticos nos esqueletos revelam as terras natais dos guerreiros — e desenterram uma informação chocante sobre a dieta dos primeiros europeus: estes soldados não conseguiam digerir leite fresco.
Em busca de mais informações sobre a batalha, os pesquisadores sequenciaram o ADN de 14 esqueletos. Descobriram que os guerreiros eram todos originários da Europa Central — o que hoje corresponde à Alemanha, Polónia e Chéquia. Infelizmente, a semelhança genética entre eles oferece poucas pistas sobre os motivos que os levaram a lutar. "Esperávamos encontrar dois grupos diferentes de pessoas com origens étnicas distintas, mas não encontrámos", diz o co-autor do estudo, Joachim Burger, geneticista da Universidade Johannes Gutenberg de Mainz. "É decepcionantemente entediante."
No entanto, dois dos 14 esqueletos eram de mulheres, sugerindo uma cena mais complexa do que a reconstruída pelos arqueólogos. 
O estudo, publicado hoje na revista Cell Biology, revelou também outra surpresa. Nenhum dos guerreiros possuía a mutação genética que permite aos adultos digerir leite, uma capacidade conhecida como persistência da lactase, comum em muitos europeus. 
Outros estudos mostraram que a persistência da lactase era comum em partes da Alemanha por volta de 500 d.C. e disseminada por toda a região por volta de 1000 d.C. Portanto, o gene deve ter-se espalhado antes desse período, mas apenas após a batalha ocorrida 2000 anos antes. Isto significa que, em cerca de 100 gerações, a mutação se tinha disseminado por populações em toda a Europa. "Esta é a selecção mais forte encontrada no genoma humano", afirma Burger.
A descoberta apenas aprofunda o mistério da persistência da lactase. Num estudo de 2007, Burger mostrou que os primeiros agricultores da Europa, que viveram há mais de 8000 anos, também não eram resistentes à lactase. Na altura, argumentou que a mutação se espalhou gradualmente com o desenvolvimento da agricultura e da pecuária, uma teoria apoiada por indícios de ordenha e produção de queijo e iogurte na Europa da Idade da Pedra. O argumento era que as pessoas capazes de digerir leite conseguiriam obter mais calorias dos seus rebanhos do que aquelas que não conseguiam, e mais descendentes sobreviveriam para transmitir o gene. Mas os esqueletos de Tollense mostram que pelo menos mais 6000 anos se passaram antes que o gene da persistência da lactase se disseminasse. Os resultados do ADN também refutam a teoria, proposta inicialmente em 2015, de que o gene da persistência da lactase foi importado para a Europa Ocidental por volta de 5000 a.C. por nómadas pastores de gado das estepes da atual Ucrânia e Rússia, o povo Yamnaya. 
Os resultados deixam os cientistas ainda mais intrigados sobre quando e porquê exactamente começaram os Europeus a beber leite. "A deriva genética natural não explica isto, e também não há evidências de que tenha sido devido à rotatividade populacional", afirma Christina Warinner, geneticista da Universidade Harvard e do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, que não participou do estudo. "É quase constrangedor que este seja o exemplo mais forte de selecção que temos e não consigamos explicá-lo."
Burger especula que talvez algo no leite fresco ajudasse as pessoas a se protegerem de doenças nas cidades e vilas europeias cada vez mais populosas e infestadas de patógenos durante a Idade do Ferro e o período romano. Mas ele admite que também está perplexo. "Precisamos de descobrir porque precisaria alguém desta bebida."
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Agradecimentos a quem aqui trouxe esta notícia: https://www.science.org/content/article/warrior-skeletons-reveal-bronze-age-europeans-couldn-t-drink-milk

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Julgava eu que os Indo-Europeus eram tolerantes à lactose. E eram-no, de facto - mas em potencial. «Inicialmente», isto é, quando se começaram a disseminar a partir da margem norte do Mar Negro, nessa altura ainda o não eram, mas já tinham em si essa possibilidade latente. Leia-se o que diz a IA:

«Os Indo-Europeus da cultura dos Kurgans (associados principalmente aos Yamnaya) eram maioritariamente intolerantes à lactose. [1, 2]
Análises de ADN antigo revelam que a mutação genética da persistência da lactase (gene LCT), que permite digerir leite cru na idade adulta, era escassa ou quase inexistente nestas populações durante a Idade do Bronze. [1, 2]
Apesar de o seu estilo de vida pastoril ser focado no gado, os Kurgans consumiam produtos lácteos de formas processadas (como queijo, iogurte e leite fermentado), o que reduzia drasticamente os níveis de lactose e evitava o desconforto intestinal. [1, 2]
🧬 O paradoxo dos Kurgans e o leite
Embora os indo-europeus da estepe tenham sido os principais responsáveis por trazer a mutação da tolerância à lactose para a Europa, o processo de evolução genética funcionou da seguinte forma: [1, 2]
  • O gene surgiu na estepe: A mutação europeia mais comum para a tolerância à lactose (-13,910*T) apareceu originalmente em indivíduos com ancestralidade da estepe. No entanto, a sua frequência na população Yamnaya original era muito baixa (estimada em menos de 5% a 25% em algumas amostras). [1, 2, 3, 4]
  • Eram pastores nómadas: Análises de proteínas preservadas no tártaro dentário dos esqueletos dos Kurgans comprovam que eles consumiam quantidades massivas de leite de vaca, ovelha, cabra e até de égua. Conseguiram fazê-lo sem a mutação devido às técnicas de fermentação. [1, 2]
  • A grande selecção ocorreu mais tarde: A tolerância à lactose só se tornou verdadeiramente maioritária na Europa Central e do Norte muito depois das migrações indo-europeias há cerca de 3000 anos, ou seja, só se efectivou no final da Idade do Bronze e início da Idade do Ferro. Fomes, epidemias e crises climáticas criaram uma pressão selectiva brutal: quem tinha a mutação conseguia sobreviver bebendo leite cru contaminado ou em períodos de escassez alimentar. [1, 2, 4]»