quarta-feira, abril 15, 2026

PRESIDENTE DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL PORTUGUESA - «DEVIA EXISTIR UM TRIBUNAL DE NUREMBERGA PARA OS POLÍTICOS CRISTÃOS QUE TÊM DISCURSO DE EXCLUSÃO DE MINORIAS»

Devia existir um novo tribunal de Nuremberga para os políticos que invocam valores cristãos para defenderem discursos de ódio e exclusão de minorias ou outras religiões, disse neste sábado o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).
Em entrevista à Lusa, quando está no fim do seu segundo mandato à frente da CEP, José Ornelas considerou que "dizer que em nome de Deus se vai fazer uma luta de perseguição e de exclusão" está errado. Ornelas propõe um discurso de agregação de quem é diferente numa sociedade democrática.
"Eu não concordo contigo, mas concordo que tu tenhas o direito de exprimir que não concordas comigo", resumiu o bispo de Leiria-Fátima, que contestou o uso da religião para promover guerras ou perseguir outras pessoas. "Radicalmente isso não é ser católico, eu não posso usar a Igreja para fazer um discurso de ódio, um discurso da exclusão, um discurso de monolitismo de que eu é que tenho razão e todos os outros estão errados", disse, propondo um "caminho de agregação e caminho comum".
Ornelas recordou que "Jesus actuou fora da caixa dentro da religiosidade do tempo" e "qualquer que seja um discurso que, em nome de Deus, faça discriminação de pessoas" está "errado". E acrescentou: muitos políticos que se dizem católicos promovem discursos de ódio e "completas aberrações sobre a racionalidade da fé".
"A Igreja foi perseguida e continua a ser perseguida em várias partes do mundo precisamente por isso, por ser um território que apela aos valores da humanidade, aos valores fundamentais" e hoje ouve-se "um discurso de responsáveis políticos que deveriam estar nas barras do Tribunal de Nuremberga", porque o que "propõem está completamente fora daquilo que é a razão, a racionalidade do ser humano e da fé" cristã. "Temos de colaborar na construção de um mundo aceitável para todos e, para isso, a justiça e o direito são fundamentais".
Na mesma entrevista à Lusa, José Ornelas defendeu o primado da vida humana, mas sublinhou: "A Igreja tem sido muito clara: eu não quero ver ninguém ir para a cadeia, muito menos uma mamã que esteja com dificuldades e que já sofre o que sofre" e "gostaria era que tivesse oportunidades para poder ter o seu filho e cuidar dele como deve ser", disse. Por isso, devem ser dadas "condições às famílias para ter os seus filhos" e não cabe à Igreja julgar as "difíceis decisões pessoais" de muitas mulheres.
Sobre a eutanásia, e os que optam por essa solução: "têm toda a minha atenção e solidariedade", bem como o "amor de Deus". "Não quero ninguém na cadeia, mas também não aceito que a solução também seja simplesmente despachar o problema pela via menor" ou "mais fácil", em vez de investir nos cuidados paliativos, explicou José Ornelas.
Numa outra frente, sobre o debate interno relacionado com as alterações na Igreja, Ornelas disse que o processo terá de terminar com decisões do Papa, sem colocar em causa a capacidade da instituição agregar os fiéis. "Têm de haver decisões, claro", afirmou.
O sínodo, um processo de auscultação das bases sobre temas fracturantes como a ordenação de mulheres, o celibato dos padres ou o lugar dos divorciados e dos gays, foi iniciado por Francisco e caberá agora a Leão XIV tomar as decisões.
No final, será necessário definir o que deve ser aceite como prática religiosa, sem desvirtuar os valores católicos, procurando distinguir "o essencial" do resto, defendeu Ornelas.
"A diversidade não é inimiga da unidade" e "a Igreja não é um albergue onde cabe tudo, mas onde todos, todos, todos são convidados e onde participam à medida do seu caminho", disse José Ornelas, numa referência à expressão "todos, todos, todos", utilizada por Francisco em Lisboa.
Em todo o mundo, há "modos muito diferentes" de viver a fé e "o Evangelho tem de ser traduzido em cada uma das culturas".
E deu o exemplo do celibato dos sacerdotes: a "ordenação de homens casados é mais fácil de resolver e de perceber, até porque nós, dentro da mesma Igreja Católica, temos ritos diferentes e igrejas de tipo diferente", algumas das quais com essa prática.
Durante o debate sinodal em Roma, Ornelas foi abordado por um bispo ucraniano que lhes disse que os padres casados "são um grande serviço à Igreja" no seu país, que tem uma grande comunidade católica de rito oriental e em que se permite o casamento de sacerdotes.
"Dentro da mesma igreja temos disciplinas diferentes e temos também ritos diferentes", resumiu, recordando que "não está escrito em nenhum Evangelho que os padres tenham de ser solteiros e Jesus tinha homens casados e solteiros na sua companhia".
Sobre a ordenação de mulheres, o presidente da CEP admite que o debate está mais atrasado, mas a criação do diaconado feminino (uma primeira ordenação sacerdotal como diácono, que tem menos poderes que os padres) é uma "forma de começar a perceber" o fenómeno e "vem ajudar a Igreja a fazer caminho" na reflexão interna.
Nestas matérias como outras, existe "um debate que está em causa e não se pode adiar eternamente" a decisão, "mas também não se pode tomar apressadamente".
Nos últimos dois mandatos à frente da CEP, que iniciou como bispo de Setúbal antes de ter transitado para Leiria-Fátima, Ornelas enfrentou a crise de abusos sexuais na Igreja ou a pandemia e recebeu o Papa na Jornada Mundial da Juventude (JMJ), em Lisboa.
A par disso, viveu "crises económicas e sociais que a economia provocou", primeiro em Setúbal e depois em Leiria-Fátima com a violência do comboio de tempestades que assolou a diocese, em Janeiro deste ano.
Mas olhando para o passado, destaca a responsabilidade de ter liderado a Igreja num tempo em que o Papa Francisco iniciou o processo de auscultação das bases. "Foi uma abertura na Igreja a chegada do Papa Francisco" e "algo de novo começou na Igreja, um vento novo começou a soprar".
Estes seis anos constituíram experiências "novas e interessantes" e "não foi um tempo para se dormir na formatura", porque a sociedade exigia novas respostas da Igreja.
Depois da JMJ, a Igreja sentiu um "retorno de um tipo diferente" da prática religiosa, particularmente entre os jovens portugueses. "Não quer dizer imediatamente o retorno a ir à missa", mas "há movimentos muito interessantes que surgiram" e verifica-se o aumento do baptismo de adultos, em particular de jovens.
Em "momentos decisivos de mudança de cultura", como os que se vivem hoje, em "tempos radicais de mudança, em termos ideológicos e em termos tecnológicos, que criam instabilidade", o regresso da fé torna-se mais natural, salientou o bispo, considerando que a Igreja terá de se adaptar a esta nova procura de fiéis, mais centrados na espiritualidade e menos nos ritos.
O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa disse ainda esperar a visita de Leão XIV a Fátima em 2027, por ocasião dos 110 anos das aparições marianas na Cova da Iria. "Espero que sim. Aliás, isso já foi um convite que lhe foi feito mais do que uma vez por mim e por outras pessoas, também membros da Conferência Episcopal."
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Agradecimentos a quem aqui trouxe esta notícia: https://www.publico.pt/2026/04/11/sociedade/noticia/jose-ornelas-nao-catolico-defende-discurso-odio-exclusao-2170907

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Tribunal de Nuremberga, não o faz por menos... repare-se que o tribunal de Nuremberga julgou crimes de guerra... então um gajo na sua terra que diz «não quero cá pessoal de fora» já teria, só por isso, de ir a tribunal, porque é cristão? É um ganda pecado-crime blasfémia ou lá a merda que o vigário do Crucificado resolver dizer?... Como «isto» está, caros leitores...
Não é surpresa nenhuma, claro, para quem souber o que é o Cristianismo e tiver memória do que a(s) Igreja(s) cristã(s) têm consistentemente declarado desde há mais de cem anos. Confirma a sua coerência com a sua matriz ideológica, especificamente moralista, que é militantemente universalista, logo, anti-racista, portanto, incontornavelmente inimiga do Nacionalismo, em particular no que respeita à acção de expulsão de alógenos e protecção das fronteiras. Só a(s) religião(ões) anterior(es), pagã(s), é que sacraliza a fronteira, derivada do Deus Terminus; o Cristianismo existe para ultrapassar, aliás, violar todas as fronteiras. Esta incontornabilidade da oposição entre Nacionalismo e Cristianismo é repetidamente brandida pelas autoridades eclesiásticas ao mais alto nível, logo a começar pelos papas, e incluindo os Ornelas dos vários países onde a Cristandade ainda tem voz, e é também referida, de quando em vez, pelas forças partidárias de Esquerda. Ornelas, aliás, envereda desta feita por uma via pretensamente democrática, o que tem piada vindo de uma instituição baseada num credo notoriamente anti-democrático, e a parte em que se afirma contra um «
discurso de monolitismo de que eu é que tenho razão e todos os outros estão errados», isto então é um fartote, considerando que o Cristianismo herda do Judaísmo precisamente a posição de declarar que só um Deus é verdadeiro e todos os outros são falsos, ou demónios, e isto foi sempre, não apenas teoria, mas também prática, e de que maneira, tanto que em toda a parte as forças da Cristandade se impuseram pela força, e, onde quer que não tivessem poder para isso, falharam a conversão dos Povos...
Enfim, voltando à matéria em epígrafe, a incompatibilidade entre Nacionalismo e Cristianismo declara-se uma vez mais e constitui um problema para os nacionalistas ditos cristãos resolverem; não tem, até agora, sido obstáculo intransponível à ascensão nacionalista, talvez porque, como já Berdyaev dizia há cem anos, à medida que o Cristianismo recua, aumenta o Nacionalismo e a Democracia...