PACHECO PEREIRA X ANDRÉ VENTURA
No momento em que desafiou André Ventura (AV) para um debate depois de o acusar de mentir «de três maneiras diferentes» ao declarar que houve mais presos políticos no curto período pós-25 de Abril do que antes, parecia que Pacheco Pereira (PP) estava prestes a desfechar magna lição de honestidade ao sinistro líder da Ultra-Direita. Afigurava-se PP uma espécie de versão televisiva de intelectual íntegro, puro, que «diz as verdades!» e desmascara o político «demagogo» e «populista», cena que ofereceria decerto lauto banquete moral a toda a Esquerda, talvez mesmo àquela que não gosta de PP.
Ora o comparativamente quase juvenil Ventura foi então à aventura enfrentar o parlador opinadeiro que em tudo se afigura como um arquétipo, se calhar estereótipo, de professor de Religião Laica e Moral - e não se saiu mal. Começou por corrigir a insinuação que PP tinha feito, a de que AV comparara todo o regime democrático ao Estado Novo, o que nunca foi verdade, uma vez que o líder do Chega se tinha referido apenas ao período pós-revolução; pelo meio, AV ferrou-lhe «umas» quantas bem ferradas, nomeadamente quando lhe atirou à barbada e quase solene face o papel que PP teve em safar juridicamente o coiro a Otelo Saraiva de Carvalho, mui garboso terrorista das FP25.
PP dissera previamente, antes do debate, que esperava ser possível poder debater sem ataques pessoais nem insultos. A meio do programa fartou-se de dizer que AV o interrompia e, numa ocasião, até disse, «não insulte a Alexandra Leitão», coisa que AV não tinha feito de forma alguma. Lá que AV foi mais enérgico a falar, isso foi, pudera, tem 43 anos, é bem mais novo que PP, que já deve ser sexagenário, e esta atitude afoita do líder do Chega facilmente passa por desrespeitadora diante de um interlocutor a falar mui lenta e pausadamente, e usufruindo de uma aura de maior respeitabilidade mercê da sua diferença etária e da fama de «trauliteiro» atribuída a AV - o que de forma alguma significa que PP tivesse sido realmente mais respeitador do que o seu interlocutor, aliás, PP partiu de uma posição essencialmente hostil muito próxima do ataque pessoal pela forma como se tinha referido a AV, acusando-o continuamente de mentir de várias maneiras.
Não significa isto que PP tenha errado em tudo o que disse. Acertou quando confrontou AV com a inevitabilidade lógica de, sendo nacionalista, considerar legitima a luta dos nacionalistas africanos contra o Império Português. É, de facto, uma questão de coerência ideológica, pelo que se revela pertinente a comparação que PP fez da guerrilha nas ex-colónias de Portugal com a rejeição portuguesa de ver o seu país governado por «Espanhóis». Demasiados patriotas portugueses - e doutros países - não percebem isto, ou uns quantos talvez não queiram perceber, há demasiado empenho emocional e grupal nisto. Paciência, AV faz o que pode, tendo o público eleitor que tem.
Eu proclamo abertamente que o 25 de Abril de 1974 foi a melhor data política do século XX e uma das melhores da História de Portugal, precisamente porque, além de ter trazido a Democracia, também acabou com um império que nunca deveria ter existido, tal como nenhum outro império deveria ter alguma vez existido, e tornou o Estado Português exclusivamente europeu novamente, incluindo portanto a Madeira mas não Cabo Verde, por motivos étnicos próprios e nunca formalmente declarados - eu digo tudo isto, mas eu não tenho as responsabilidades partidárias que AV tem, e muito bem faz ele em falar relativamente pouco disso ou em focar apenas os abusos posteriores, não, nunca, o valor da data em si.


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