terça-feira, maio 01, 2018

ALVOR DE MAIO


A respeito do significado religioso pagão do Primeiro de Maio, já neste blogue se disseram umas quantas palavras, que podem ser lidas aqui, texto que fala maioritariamente da tradição romana, nomeadamente sobre a Florália, por um lado, e da tradição céltica mais bem conhecida, a da Irlanda, que é o Beltaine, por outro. No caso de Portugal, não há, até agora, registo do que fariam nesta data os Celtas e/ou Lusitanos que viveram em território português. Perante tal escassez de fontes religiosas lusitanas e/ou célticas hispânicas, muitos pagãos portugueses têm, compreensivelmente, ligado a sua prática ao rito e mito da Irlanda, isto é, dos parentes célticos conhecidos mais próximos... A celebração céltica, em particular, começa de noite, pelo menos em Gales, onde é conhecida pelo nome de Nos Galan Mai, celtização de expressão latina que em Português se traduz como Noite das Calendas de Maio. Isto porque a região de Gales, ao contrário da Irlanda, foi invadida e romanizada.
Mas, porque no folclore nacional se encontram vestígios do Paganismo indígena, pode o estudo das tradições folclóricas nacionais ser proveitoso para quem queira reconstruir, ou recriar, um caminho religioso para o culto das antigas Deidades deste extremo ocidente europeu. Vale por isso a pena dar uma vista de olhos às notas e observações do arqueólogo Adriano Vasco Rodrigues, na sua obra «Os Lusitanos, Mito e Realidade» (pags. 176 e ss., Academia Internacional da Cultura Portuguesa, 1998), notas estas que podem servir de base para a elaboração de um ritual neo-pagão, que permita abrir os Portais do Céu, por assim dizer, para que deste modo possam os actuais descendentes da grei castreja re-ligar-se aos Deuses da sua herança etno-religiosa:

«Um dos documentos que consideramos de maior interesse é o da leitura da inscrição da chamada Lage da Moira, do Cabeço das Fráguas, Guarda, cujo testemunho epigráfico divulgámos há anos, sob a designação de inscrição de tipo «porcom» (9).
Reconstituição do Castro Lusitano de Cabeço das Fráguas, século V a.c.


O Cabeço das Fráguas na actualidade
Lage da Moira, contendo a inscrição do Cabeço das Fráguas

A tradução desta lápida foi feita pelo professor António Tovar, então na Universidade de Madrid. Segundo este investigador, ela refere uma suouetaurilia, isto é, o sacrifício de um touro, um porco, um cordeiro e uma ovelha, a Divindades indígenas.


 A leitura é:
"Uma ovelha para Trebopala; um porco para Laebo (...) um cordeiro para Trebaruna e um touro de cobrição para Reve".

Este sacrifício expressa uma prática indo-europeia. Esta inscrição teve também um extraordinário interesse para o avanço no estudo da língua dos Lusitanos. Serviu de base ao encontro de Lisboa, de 1980, para o estudo das línguas pré-latinas.
Quanto à tradição, ainda hoje, no dia 3 de Maio, rapazes e raparigas das povoações próximas do Cabeço das Fráguas sobem ao alto daquele monte, dançam, cantam e merendam um cabrito ou um borrego assado. Virá desses tempos este hábito? Não nos repugna aceitar que sim, pois é o único monte onde tal prática existe, embora seja hábito na região da Guarda fazer uma merenda, no campo, nesse dia.
É tradição, na crença popular, de que as grandes trovoadas nascem no Cabeço das Fráguas, fenómeno que ocorre sempre que da Guarda se vêem nuvens negras pairando sobre o Cabeço.
O nome «Fráguas» resulta das forjas que os romanos mantiveram na base daquele monte e que servia para fundir o ferro explorado nas imediações. No sopé do Cabeço encontrei, numa prospecção, catorze lápides romanas anepígrafes, o que mostra pode ter havido ali um culto a Vulcano. A tradição de que de lá provêm as Trovoadas, ajuda a essa hipótese.
No alto de Cabeço das Fráguas, havia um castro, onde efectuei sondagens, em 1957. Fui informado por um pastor de que próximo, no Vale Grande, próximo havia uma inscrição parecida com a da Lage da Moura. Não conseguimos localizá-la, nem voltámos a ver o pastor...
Na base daquela elevação construíram uma capela a S. Domingos, o que mostra que a tradição cultural foi cristianizada...
A data de 3 de Maio, que a igreja consagra (Dia de Santa Cruz), pode também ligar-se a cultos pagãos indo-europeus e célticos, que sobrevivem no Dia das Maias. É costume, nas festividades beirãs e transmontanas, ofertar borregos aos santos festejados, arrematando-os depois no bazar de oferendas. Também é frequente os pastores levarem o rebanho a cumprir novenas em torno de certas capelas de santos ou santas da sua devoção, obrigando os animais a dar nove voltas, práticas que, pelo seu carácter supersticioso e pagão, muitos sacerdotes católicos, normalmente, contrariam. Em Trás-os-Montes ainda se conserva, em alguns lugares, no Felgar, por exemplo, o hábito de incorporarem na grande procissão do ano, juntas de bois, levando sobre as hastes sacos com cereal. No dia de Páscoa é costume entre as populações vizinhas do Penedo Durão, sobranceiro ao Douro, em Freixo de Espada-à-Cinta, subirem a esta eminência para comerem o folar. O radical celta «Duro» significa «forte», «áspero» e «escarpado».
Voltando à inscrição da Lage da Moira, vemos que se refere a quatro Divindades lusitanas: o touro e a ovelha, como animais de sacrifício.
Chamamos a atenção para o facto de sobreviver naquela zona, como topónimo, a palavra «Pala» (povoação perto de Pinhel), usado também como nome de família. «Pala» encontra-se também em Trebopala. Há um topónimo igual perto da Régua. Poderá explicar-se pela actividade transumante dos povos da Serra da Estrela para o Douro. O elemento «pala» encontra-se em topónimos Tondopalandaigae. A raiz de Trebopala significa «casa». Existe no nome da povoação céltica Contrébia, no rio Trébia (Itália), no povo Arotrebae, no noroeste da Hispânia e na cidade de Tríbola, que aparece nas campanhas de Viriatho.
Trebaruna deriva de Treb-aruna, ou arona.
Reve ou Reue entra em teónimos do noroeste peninsular: Reue LanganidaeguiReue LanganitaecoReue Anabaraeco. A raiz é reue ou ru.
De Laebo pouco se sabe.
A palavra «touro» sobrevive no topónimo Vila do Touro, povoação vizinha do Cabeço das Fráguas. Na inscrição lê-se «Taurom». Até há poucos anos, outra povoação do mesmo concelho chamava-se «Porco», nome que alterou para Aldeia Viçosa. Na inscrição aparece Porcom. Não sei até que ponto podemos relacionar estes topónimos com a inscrição mas do que não resta dúvida é que uma actividade ligada ao gado vacum e à criação de porcos justificaria estas nomenclaturas.
Próximo do Cabeço das Fráguas, fica a povoação de Panoias. Também no concelho de Vila Real há o topónimo Panoias, ligado a uma inscrição evocativa de Numina Lapiteraum, num santuário ou local de sacrifícios. No distrito de Évora há outra povoação com o nome de Panoias. Este nome merece estudo até pela sugestão fonética com a Panónia, região com interesse no mundo céltico. Terão origem num radical comum?»