quarta-feira, fevereiro 25, 2004

CINZAS DO CARNAVAL

Para não variar, o carnaval português tuguificou-se outra vez este ano, por via da brasileirice.
Por toda a parte, a moda carioca impera nas mentes cá do burgo: como disse na última mensagem, de anteontem, boa parte dos portugueses meteu na cabeça que o carnaval «a sério» era o do Brasil, e vai de imitar os festejos carnavalescos brasileiros, de um modo acéfalo, empobrecedor, fora de contexto - ainda por cima, o clima nem sequer é igual - e culturalmente subserviente. Ainda há quem fale na pobreza económica dos Portugueses como justificação para vários atrasos... mas é em coisas como esta que se percebe a verdadeira pobreza do país, que é psicológico-cultural, por assim dizer. É um neologismo, este psicológico-cultural, porque outro termo não encontrei para expressar o que quero dizer: não é a cultura nacional, em si, que é inferior, mas sim a percepção que a maior parte dos actuais portugueses têm da mesma. É aquilo a que se chama kitsch: «kitsch» é um termo alemão criado no século XVII para designar a forma de cultura popular que foi feita para as massas populacionais que, emigradas do campo para a cidade, nem tinham ainda cultura urbana nem tinham já a cultura ancestral aldeã, constituindo assim uma massa humana sem raizes nem identidade. Uma população desta natureza, sem referências nem valores bem definidos, pode ser perigosa na medida em que é susceptível de caír nas mãos deste ou daquele poder manipulador, e, por isso, tornou-se necessário dar-lhes uma cultura, produtos culturais que os moralizassem e lhes prendessem a atenção. Nasceram assim as peças de teatro, os livros, as historietas várias de teor maniqueísta primário, sentimental, de fácil compreensão, nenhuma sofisticação e complexidade mínima, orientada normalmente por valores burgueses. Proliferavam os espectáculos cheios de cor, feitos para as massas, mas sem a participação das massas, as quais se limitavam a assistir (o que é conveniente para os poderes instituídos, porque é mais fácil controlar uma multidão passiva do que uma multidão activa).
Ora, os portugueses que mais influência têm na sociedade actual são os da cidade, mas, ou devido a um baixo grau de escolaridade, ou devido a qualquer outro motivo, não têm, nem uma cultura urbana desenvolvida, nem já a cultura rural dos seus ancestrais. Apresenta-se assim, perante o mundo moderno, como uma massa de indivíduos especialmente receptivos a tudo o que vier de fora do país e aparente um ar civilizado e avançado, barulhento, isto é, poderoso.

O país não está hoje mais pobre do que estava em 1980; os seus cidadãos não têm um nível de vida inferior ao que tinham nesse ano - de facto, o problema é mesmo cultural.

Saúdem-se, entretanto, as pequenas localidades de Portugal nas quais se celebrou este ano um carnaval autenticamente português, com elementos do folclore nacional, como os caretos, cuja origem se perde na noite dos tempos, remontando talvez à epoca romana ou, talvez, mais atrás ainda.