terça-feira, janeiro 03, 2006

NACIONALISMO E POLITEÍSMO - A AUTÊNTICA IDENTIDADE DO OCIDENTE




Preparem-se os leitores mais teimosos e insistentes para esforçarem as vistas no atento exame deste artigo, que é o mais longo que alguma vez escrevi neste blogue.
Provavelmente, nem publicarei nada amanhã.

Preparai pois as vistas que aqui vão cerca de dezasseis páginas de texto…

Num dos meus périplos por esse imenso novo oceano descoberto na década de noventa, qual quinta dimensão cujo portal é o computador, refiro-me evidentemente ao ciberespaço, dei de caras com uma diatribe cristã contra o Nacionalismo, escrita em 1934 por um certo pensador russo de nome Berdyaev.

Lembrei-me das palavras de Nietzsche quando este disse que é reconfortante encontrarmos um manifesto que se opõe totalmente, ponto por ponto, ao que pensamos. Já nem me lembro porque é que o alemão de origem polaca dizia isso, mas eu sei porque é que o afirmo – porque tal coisa serve de testemunha: constitui uma prova de que o combate até então empreendido está de facto a bater em algo de existente. É quase como dar um tiro no escuro e ouvir um grito – sinal de que se acertou. E digo quase porque, neste contexto, sei, há muito, por onde ando e o que quero alvejar.

Berdaiev, equaciona, brilhantemente, Nacionalismo com Politeísmo/Paganismo.

Começa por lamentar que a teoria do progresso oitocentista tenha falhado na descrição do trajecto da humanidade, uma vez que, ao contrário do que tal corrente afirma, não há uma linearidade na evolução humana mas sim a alternância de um pólo para outro. Por conseguinte, embora houvesse a impressão geral de que o caminho do Homem era em direcção à universalidade, eis que o Nacionalismo surge com uma força sem precedentes na cena europeia, isto é, no coração do motor político do mundo. Profeticamente, Berdaiev observava que até o Comunismo soviético se podia muito facilmente transformar em nacionalismo soviético.
E, assim, caem por terra as teorias racionalistas humanistas, que pretendiam representar o homem a distanciar-se, cada vez mais, da consciência tribal. Infelizmente para Berdaiev.

E infelizmente porquê?

Porque, para Berdaiev, o Comunismo, embora constitua um desvio devido ao seu materialismo e à sua massificação do homem, baseia-se todavia nos princípios que, diz, constituem «a justiça e o bem»: o universalismo, a irmandade universal do Homem.
Berdaiev fala evidentemente dos valores cristãos, já que ele próprio era um devoto adorador do Judeu Morto.
Indefectivelmente, este autor russo, sendo absolutamente coerente neste ponto, considera que o Nacionalismo, baseando-se nos princípios contrários, significa uma descristianização da sociedade, iniciada há muito, e uma re-paganização, um retorno ao politeísmo pagão, outrora supostamente batido pelo Cristianismo.
Assim, a Primeira Grande Guerra tinha já sido um sinal disto mesmo – nas palavras de Berdaiev (passo a citar a tradução inglesa),
«The World War was already a struggle amongst various gods, a god German, Russian, French, English, i.e. the triumph of a pagan polytheism, continuing to live on in a deep layer of the collective subconscious of peoples.»
Ou seja,
«A (Primeira) Guerra Mundial foi já uma luta entre vários Deuses, um Deus Alemão, um Deus Russo, um Deus Francês, um Deus Inglês, isto é, o triunfo de um politeísmo pagão, que continuou a viver numa camada profunda do subconsciente colectivo dos povos.»

E como sucedeu isto?

Continuando a citar Berdaiev,
«The Christianisation and humanisation of human societies was not so altogether deep, as it might seem, often it was only a stifling and squeezing out of instincts, driven inwards.»
isto é,
«A Cristianização e humanização das sociedades humanas não foi tão profunda como possa parecer, frequentemente foi apenas um sufocamento e um esmagamento de instintos, voltados para dentro [isto é, reprimidos - nota da tradução].»

Ora aqui vale a pena reparar na arrogância tipicamente cristã (não necessariamente de todos os cristãos) de Berdaiev – fala de «humanização» das sociedades a propósito da cristianização como se as pessoas tivessem ficado mais «autenticamente» humanas após a imposição da adoração do Crucificado, quando, na verdade, o ficaram menos, uma vez que, como o próprio Berdaiev admite, a alma é naturalmente pagã.

Berdaiev distingue o Nacionalismo das nacionalidades na medida em que o Nacionalismo, constituindo a elevação da nacionalidade a valor em si, não passa de uma reacção da «natureza telúrica» contra o «espírito», o elemental contra a consciência, o eros contra o ethos (ou o amor(atracção) contra a ética), do colectivo contra a pessoa.

Cada uma destas categorias merece um comentário.

No que toca à dualidade natureza-espírito imaginada por Berdaiev neste contexto, observa-se, novamente, a arrogância espiritual cristã – a ideia de que o nacional é algo de meramente popular e que «o» espírito é uno e está necessariamente acima das nações. Trata-se de um princípio visceralmente cristão, absoluta e irreconciliavelmente oposto à mundivisão pagã, segundo a qual cada Nação é presidida pelos seus próprios Deuses, como Juliano II, O Grande (os cristãos chamavam-lhe «O Apóstata» por ter restaurado o Paganismo contra a onda cristianizadora, no século IV d.c.) bem explicou, na sua obra «Contra os Galileus» (chamava «galileus» aos cristãos), e como, já antes dele, o neo-platónico Celso tinha declarado, na sua magistral obra «Discurso Verdadeiro Contra os Cristãos».
Naturalmente que o mundo pagão, amante da diversidade, não tinha a este respeito dogmas sagrados. Assim, na Antiguidade, havia também quem considerasse que os Deuses existentes eram no fundo os mesmos para muitos povos (senão para todos), que Lhes chamavam nomes diferentes e Os honravam de diferentes maneiras, tendo sobre Eles concepções ora semelhantes ora divergentes.
De um modo ou doutro, continua a haver aqui uma noção de gloriosa diversidade humana a respeito da relação com o Divino, magnificamente expressa pelo senador Símaco que, em carta dirigida no ano de 392 aos imperadores lacaios da Cristandade, reclamava a conservação no Senado da estátua da Deusa Vitória, que os senadores cristãos consideravam «ofensiva» pelo simples facto de não ser cristã (pois é, a «tolerância» cristã vem de longe…), argumentando, Símaco, que o Divino se afigurava um tão imenso e grandioso mistério que não poderia haver apenas um caminho para Ele.
Assim, em havendo apenas um limitado número de Deuses genericamente conhecidos por todos os povos do mundo, é perfeitamente natural, e, sobretudo, salutar, que cada um desses mesmos Deuses seja conhecido por nomes diferentes correspondentes às diferenças linguísticas e culturais existentes entre as diferentes famílias da espécie humana.
Nesta perspectiva, tem-se que, obrigar todas as nações do mundo a adorar o mesmo Deus da mesma maneira, é imposição da mesma natureza que obrigá-las a falarem todas a mesma língua (o Esperanto, por exemplo…). E isto é a menos má das hipóteses; recordo que este raciocínio se aplica ao caso de se verificar a unicidade do Divino; porque, se de facto os diferentes povos tiverem diferentes Deuses, então chega-se à conclusão de que a imposição monoteísta cristã, em cima de ser uma ofensa mortal à diversidade étnica e cultural dos povos, é também um sacrilégio, uma destruição do culto que é devido aos Deuses esquecidos da nossa própria estirpe. É como desprezar os nossos próprios avós para louvar os avós de outrem.
Sobre a questão da consciência, é por demais evidente que a consciência autenticamente humana inclui forçosamente um sentido de estirpe, coisa que Berdaeiv quer ignorar ou negar.

Relativamente ao aspecto do Amor(no sentido de atracção) vs. Ética, é crucial saber-se que a valorização da etnicidade não é tão somente uma questão de amor natural, mas de dever – do dever mais sagrado que imaginar se possa, que é o dever de lealdade. Lealdade para com o seus, antes de mais nada. Lealdade para com o sangue.O amor acaba sempre por ser algo de subjectivo, que pode ou não despertar no indivíduo. O amor, ao contrário do que pretenderia Berdaiev, não é colectivo nem tampouco universal, como queriam os cristãos, mas sempre pessoal. Uma ideologia não se pode basear no amor porque é impossível criar um sistema político e ideológico baseado num sentimento, variável tendencialmente incontrolável pelo intelecto. Por conseguinte, é-se leal à família, à Nação, à Raça, numa palavra, à Estirpe, não porque se ame essa Estirpe (que é natural amar-se, mas isso é outra coisa), mas sim porque se pertence a essa Estirpe.

É tão anormal e monstruoso não respeitar este dever como é para a mente mutilar ou deixar mutilar uma parte do corpo de que faz parte.

Um sujeito que fosse anormalmente desligado de si próprio ao ponto de deixar voluntariamente que lhe cortassem uma mão ou um pé, representaria algo de verdadeiramente aberrante. Ora do mesmo modo que os membros do corpo fazem parte do indivíduo, também o indivíduo faz parte do seu povo e tem para com ele deveres supremos. Trata-se de uma questão de dignidade, cuja falta pode motivar uma justa represália da parte do colectivo ou de qualquer dos indivíduos dessa estirpe.

Finalmente, a oposição entre o colectivo e o pessoal. Ora qualquer forma de comunidade humana é um colectivo. A Nação é um colectivo; mas também a Igreja é um colectivo. Berdaiev pretende aqui inventar uma distinção entre estes dois tipos de colectivo, mas, como se verá, falha redondamente.

O russo demonstra conhecer algo do pensamento nacionalista (o que, nos dias de hoje, vai sendo raro, nas fileiras universalistas). E expõe-o com clareza:
«Insofar as nations, in striving to form their own national lifestyle, tend to rise up against the externally binding upon them "mankind", they set out from a totally accurate position, that "mankind", as a natural fact, does not exist. The "all-human" is an abstraction.»
ou seja,
«Quanto às nações, ao lutarem para formarem o seu próprio estilo de vida nacional, tendem para se erguer contra o aprisionamento externo que sobre eles cai, a «humanidade»; as nações partem de uma posição totalmente rigorosa segundo a qual a «humanidade», como facto natural, não existe. O «todo-humano» é uma abstracção.»

Uma abstracção criada pelos universalistas, como se sabe.

E Berdaiev sabe-o:
«Mankind, as a positive value, is a spiritual category. It is something created by Christianity. The sense of mankind is bound up with God-manhood.»
traduzindo, aproximadamente,
«”Humanidade”, como valor positivo, é uma categoria espiritual. É algo criado pelo Cristianismo. O sentido de humanidade é inerente à concepção de humano no Divino.»
Ou seja, do Deus feito homem, igual para todos os homens da Terra.

É verdade que a ideia de unicidade do homem já tinha sido expressa pelos estóicos, mas, no que respeita a grandes movimentos de militância e transformação directa de povos inteiros, foi o Cristianismo que a divulgou.
Foi de facto o Cristianismo que lançou o vírus do universalismo no Ocidente e, a partir daí, ao resto do mundo.

Convém, desde já, tratar da questão da humanidade como categoria espiritual, que é o ponto mais forte de Berdaiev.
Ora, porquê a humanidade e não o ser vivo? Não é todo ele de origem divina?
Objectar-se-á que só o humano pensa racionalmente, e só o humano se pode alçar à espiritualidade.
Mas quem é que pode falar em nome do que os animais pensam ou sentem, se a própria ciência tem sido surpreendente a respeito das atitudes dos animais mais inteligentes, tais como o macaco, o golfinho, o felino, o canídeo? Sabe-se por exemplo que o gato doméstico pode chegar a tal ponto de tristeza, pela perda do dono por exemplo, que deixa de se alimentar, acabando assim por morrer. O cão, por seu turno, mesmo sentindo medo, é capaz de lutar para salvar as crias ou o dono. Têm-se observado ultimamente comportamentos mais ou menos religiosos por parte dos macacos (relativamente aos seus mortos). Já agora, lembro aqui a opinião Celso, em «Contra os Cristãos», quando afirma não haver motivo algum para considerar os homens como tendo mais contacto com Deus do que certos animais.

Entende-se que a natureza destes argumentos sobre os pobres bichos pareça pouco séria aos homens da nossa época, convencidos da enorme distância entre animais e humanos (como se o homem não fosse ele próprio um animal…). Mas das duas uma: ou os animais podem ter uma dimensão espiritual, tal como os homens, ou então os seus comportamentos são inteiramente explicados pela ciência positivista e materialista, mas, nesse caso, também os comportamentos humanos são inteiramente explicados pela mesmíssima ciência positivista e acaba-se já aqui a história da espiritualidade, nomeadamente da espiritualidade cristã, ficando toda a religião reduzida ao nível da criação intelectual e sentimental destinada a debelar o medo da morte.
Ou há moral ou comem todos, como diz o povo.
«O homem não pode ser tratado como os animais!», dizem os humanistas e os cristãos. E o mais giro (podia dizer curioso, engraçado, mas digo «giro») é que alguns destes cristãos gostam de invocar Platão por tudo e por nada. Ignoram que o próprio Platão reconhecia que o que era válido para os animais, também o era para os homens, chegando ao ponto de fazer comparações nesse sentido. Lembro-me de pelo menos duas:
- quando afirma que as mulheres podem desempenhar os mesmos papéis que os homens (até nas lides bélicas), porque também as cadelas fazem as mesmas coisas que os cães, mesmo sendo mais fracas;
- quando afirma que a polis deve proceder a uma política de eugenia, porquanto é absurdo, diz Platão, que os homens se preocupem com o apuramento das raças caninas e não façam o mesmo relativamente à sua própria estirpe. Por conseguinte, Platão defendia uma política de eugenia, em que a elite governativa conduziria os jovens a casamentos seleccionados (e a «nobre mentira» consistiria em dizer que os pares de noivos seriam sorteados ao acaso, quando na verdade seriam cuidadosamente escolhidos pelos sábios).
Assim, um dos maiores vultos da Filosofia pagã reconhecia perfeitamente a continuidade entre homens e animais. Compreende-se que isto incomode, desta vez a sério, algumas consciências filosóficas cristãs, convencidas de que o «seu» Platão era um cristão antes do tempo. É comum observar-se a cena em que um certo tipo de pensador cristão se debruça sobre as obras de Platão, ardilosamente curvado, qual abutre a ver o que é que saca dali. Popularmente, e o vernáculo tem por vezes o seu encanto, pode-se desde já dizer-lhes «Tira a mão de cima do Platão, ó marreco, que o Platão não é para o teu dente. Fica-te mas é pela tua Bíblia e já vais com sorte.»

Agora, retornando à questão espiritual sobre a determinação do que é o «humano» propriamente dito – o que é sabido é que não há seres humanos sem raça, sem povo, sem estirpe. E todas as estirpes do planeta têm os seus próprios Deuses. Logo, o que é realmente comum ao género humano, é a diversidade de crenças.

Berdiaev mostra lucidez, rara em certos meios direitistas patrioteiros, ao perceber que o humanismo laico deriva, moralmente, do Cristianismo:
«Insofar as humanism affirms mankind and an universal humanity, it affirms a Christian truth, but cuts it off from its spiritual roots, becomes bereft of its spiritual foundation and therefore often deforms it.»
ou seja,
«Enquanto afirma a humanidade de modo universal, o humanismo afirma uma verdade cristã, mas corta-a das suas raizes espirituais, fica privado da sua fundação espiritual e por conseguinte deforma-a amiúde.»

Ora o Humanismo, bem vistas as coisas, é a fundação ideológica da Esquerda. É de notar que um dos símbolos esquerdistas mais disseminados é a estrela de cinco pontas, imagem do Homem – enquanto na antiga Maçonaria a estrela vermelha de cinco pontas representava o homem como dominador sobrenatural (isto é, dominador da natureza), no contexto comunista já representa o homem-massa que nega tudo o que está além do humano.
E, como tenho dito, e como já Fernando Pessoa dizia, a Esquerda é essencialmente o Cristianismo sem Deus. Samuel Francis afirmava o mesmo, tal como o fazem, ainda hoje, Louis Rougier e Alain de Benoist.

Berdaiev reconhece que, na ordem natural das coisas, o homem está consignado a uma existência nacional, isto é, particularista, pelo que a irmandade e a tranquilidade dos povos só é possível a partir da construção de um cosmos espiritual, um universalismo tal como aquele que existiu na Idade Média.
Tem graça que se diga uma coisa destas, quando é perfeitamente sabido que na Idade Média abundavam os conflitos e as guerras – e que foi precisamente no seio do Cristianismo que surgiu uma divergência provocadora de guerras que duraram décadas e décadas (a dos Trinta Anos, por exemplo) e que criaram entre o norte e o sul da Europa uma clivagem de hostilidade inédita, nunca antes vista em solo europeu.
É também de notar que o Cristianismo trouxe ao homem europeu um pavor imenso perante a eventualidade da punição além-túmulo e dos demónios malévolos como nunca o Homem Antigo tinha demonstrado. A este respeito, é pertinente lembrar as palavras de Celso na sua obra «Contra os Cristãos», Livro Terceiro, 76:
«(...) ensinar que o filho de Deus é atormentado pelo Diabo, para nos ensinar com a sua paciência a suportar com coragem as provações que este nos inflige, eis o cúmulo do ridículo. Era necessário, parece-me, castigar o Diabo, e não aterrorizar os humanos, castigando-os com os seus malefícios.»

Por conseguinte, em termos de «tranquilidade e paz», estamos conversados.

Quanto à irmandade dos homens, Celso foi ainda mais certeiro - op. cit, Livro Quarto, 117:
«Se fosse possível que todos os povos que habitam a Europa, a Ásia, a África, tanto Gregos como Bárbaros, até aos confins do mundo, fossem unidos pela comunidade duma mesma fé, talvez uma tentativa do género da vossa tivesse probabilidades de êxito; mas isso é pura quimera, dada a diversidade das populações e dos seus costumes. Quem põe em mente semelhante desígnio mostra por isso mesmo que é cego.»

Como bem explica Celso, o Universalismo pressupõe a crença de que é exequível fazer todos os homens concordarem a respeito de algo, o que, na verdade, não passa de uma impossibilidade fantasista. Também os antigos Escandinavos sabiam disto, evidenciando-o no mito da morte de Balder, o mais bondoso dos Deuses. Para O fazer voltar à vida, era necessário que todas as criaturas do Universo vertessem por Ele pelo menos uma lágrima. E todas o fizeram, até mesmo os animais, excepto uma mulher da raça dos gigantes (Jotuns) a qual, quando lhe pediram que chorasse, respondeu que não tinha motivo algum para o fazer porque Balder nunca fizera nada por ela.
A unanimidade total é pois impossível ao nível humano, porque representa um absoluto e nada do que é humano pode alcançar, em vida, o absoluto.
Inalcançável, portanto – inalcançável e, acrescento, indesejável, dado que significaria uma destruição da diversidade humana e da liberdade dos povos.

Também o Islão, outro universalismo parente do Cristianismo, busca uma conversão universal. Seja lembrado e sempre mantido em mente o que disse Maomé aos Árabes pagãos após a conquista de Meca:
«"Líderes dos Qureish! Deus condena o orgulho e o fanatismo e a ignorância e a glorificação dos antepassados. Recorda que hoje eu espezinho estes veículos do orgulho."
(...)
"Aqueles que se orgulham da sua nação e antepassados, devem abandonar esse orgulho e lembrar-se de que tais fontes de orgulho não são nada para além de combustível do inferno. Se não o abandonarem, são piores aos olhos de Deus do que a porcaria que carregam com eles.»

Como seria de esperar, as doutrinas que mais guerras motivaram ao longo dos últimos dois mil anos foram precisamente as dos ideais universalistas: o Cristianismo, o Islão, o Comunismo (cem milhões de mortos num só século). E seria de esperar por uma questão de lógica e de inevitabilidade, tão fatal como a lei da gravidade:
- se um indivíduo acredita estar na posse da verdade,
- se esse indivíduo acredita na igualdade do género humano,
- se esse indivíduo é um apologista da fraternidade sem barreiras nacionais,
então
a consequência é simples – quando estiver perante quem não pensa como ele, dirá: «Aquilo que é o melhor para mim, é também o melhor para ti; logo, convencer-te a adoptá-lo para ti é um bem que te faço, seja pela persuasão ou pela força».

E é aqui, caros leitores, que está a raiz de todos os imperialismos e de todos os totalitarismos sem excepção alguma.

Não obstante, Berdaiev tem o descaramento de afirmar:
«Christianity is therefore incommensurate with the idea of the totalitarian state, which represents a dictatorship over spirit, over spiritual and mental life, a dictatorship not only political and economic, but also a dictatorship of "world-view", a dictatorship of myth and symbol, of the roused masses, a dictatorship of the orthodoxness of the state.»
ou seja,
«O Cristianismo é por isso incompatível com a ideia do Estado totalitário, que representa a ditadura sobre o espírito, sobre a vida espiritual e mental, uma ditadura não apenas política e económica, mas também uma ditadura de «mundivisão», uma ditadura de mito e símbolo, das massas humanas exaltadas, uma ditadura da ortodoxia do Estado.»

Assim, o filósofo russo inverte rigorosamente a realidade, ponto por ponto. Na verdade, o único motivo pelo qual o Cristianismo se opõe a certos totalitarismos é porque é, ele próprio, um totalitarismo, e, já se sabe, onde canta um galo não cantam dois. O Cristianismo impõe uma só maneira de pensar, e até de sentir - e o cúmulo do totalitarismo é querer moldar os sentimentos individuais, querer alterar a própria natureza humana para criar o «homem novo».

Mais adiante, Berdaiev esforça-se por marcar uma distância entre universalismo e internacionalismo:
«Neither the bourgeois cosmopolitanism, nor the socialistic internationalism, signify suchlike a spiritual universalism, and they therefore so readily tend to topple. With this is connected a very profound philosophical problem. The universal is not at all the same thing as the general, the in-common. The general signifies an abstraction derived from the concrete wholeness and to it are applicable numeric categories. The universal does not however signify at all an abstraction and to it the categories of quantity are not applicable. The universal is an integral and indivisible quality and the individual can bear within itself this quality. The unique and unrepeatable person can contain within him the universal, as a positive quality and attainment. The universal cannot be set in opposition to the individual in the sense of their mutual exclusiveness. The universal does not exclude the individual, on the contrary it includes it within itself, as a positive degree of being. The general however is always an abstraction derived from the individual, taken from all the individual variants of being. The universal is a positive and concrete unity, whereas the general is a negative and abstract unity. In its application to the national problem this signifies, that universalism, affirming the spiritual oneness of mankind, is a positive and concrete unity, including within it all the national individualities, whereas internationalism is an abstract unity, denying these national individualities. Nationalism is the obverse polarity of internationalism and as such it is a lie.»
ou seja,
«Nem o cosmopolitismo burguês, nem o internacionalismo socialista significam o algo como o universalismo espiritual, e consequentemente tendem assim prontamente a topple. A isto está ligado um problema filosófico muito profundo. O universal não é de modo nenhum a mesma coisa que o geral, o em-comum. O geral significa uma abstracção derivada do todo concreto e a ele se aplicam categorias numéricas. O universal entretanto não significa de todo uma abstracção e a as categorias de quantidade não são a ele aplicáveis. O universal é uma qualidade integral e indivisível e o indivíduo podem carregar dentro de si esta qualidade. A pessoa original e irrepetível pode conter dentro dela o universal, como uma qualidade e uma realização positivas. O universal não pode ser colocado em oposição ao indivíduo no sentido da sua exclusividade mútua. O universal não exclui o indivíduo, pelo contrário, inclui-o dentro de si, como um grau positivo de ser. O geral entretanto é sempre uma abstracção derivada do individual, tirada de todas as variantes individuais do ser. O universal é uma unidade positiva e concreta, enquanto o geral é uma unidade negativa e abstracta. Na sua aplicação ao problema nacional isto significa que o universalismo, afirmando a unidade espiritual da humanidade, é uma unidade positiva e concreta, incluindo dentro dele todas as individualidades nacionais, enquanto o internacionalismo é uma unidade abstracta, negando estas individualidades nacionais. O nacionalismo é a polaridade inversa do internacionalismo e como tal é uma mentira.»

Em suma: o internacionalismo limita-se a negar as nacionalidades; o universalismo, reconhecendo as nacionalidades, atribui-lhes no entanto um papel subordinado relativamente a uma «ordem espiritual» única.
Ou seja, o internacionalismo é uma caldeirada anárquica feita de massa informe; o universalismo, por seu turno é um imperialismo espiritual constituído por lacaios em torno do seu «Senhor», seja ele qual for.


Faz lembrar o patriota castelhano a exigir lealdade ao catalão, ao galego e ao basco: «O vosso valor é por mim reconhecido – portanto agora sejam bonzinhos, portem-se bem, aprendam a minha língua como língua oficial do vosso território e, claro, entendam que só eu é que estou em condições de vos chefiar a todos».

Novamente, Berdaiev deixa claro que:
«The religious side however of our problem is here what it signifies: nationalism is polytheism, a natural paganism, whereas the universalism affirming the spiritual oneness of mankind is a monotheism and not only a monotheism, but also God-manhood. There is therefore no other universalism, besides the Christian, which genuinely can exist.»
isto é,
«No entanto, o lado religioso do nosso problema é este: nacionalismo é politeísmo, um paganismo natural, ao passo que o universalismo que afirma a unidade espiritual da humanidade é um monoteísmo e não apenas um monoteísmo, mas também um Deus-no-homem. Não há portanto nenhum outro universalismo, além do Cristianismo, que possa existir genuinamente.»

Para Berdaiev, o Povo é um degrau entre a pessoa e a humanidade. Trata-se da mesma perspectiva que têm os socialistas maçónicos – há coisa de meses, o socialista maçónico Almeida Santos declarava, na Assembleia da República, que os Estados-Nação nascidos a partir da Revolução Francesa tinham passado à História, uma vez que a sua utilidade se tinha esgotado...
É precisamente esta a postura dos universalistas cristãos anti-nacionalistas: a utilização da Nação como instrumento, como ferramenta, como etapa, para chegar ao universalismo completo. Em Portugal, por exemplo, é essa a filosofia dos patrioteiros cristãos que combatem a consciência racial em nome de um «logos» universalista, no qual Portugal deve «ultrapassar» a sua etnicidade original e assumir-se como Estado cujo destino é servir a Cristandade.

Aqui, é importante lembrar de que concepções partem os patriotas cristãos a respeito do fundamento da Nação. Como diz Berdaiev, a Nação tem uma origem histórica, ao passo que a Raça tem uma origem zoológica pré-histórica.

Ora isto é confundir Pátria com Nação.

A Pátria tem uma origem perfeitamente definível no tempo. Portugal, por exemplo, foi fundado, como Estado, por D. Afonso Henriques que, em 1128, se declarou rei; os Castelhanos reconheceram-no em Zamora no ano de 1143; a bula papal de tal reconhecimento só chegou em 1179 (até nisso a Igreja nos atrasou...).
Mas a Nação não foi fundada por D. Afonso Henriques. A Nação é galaico-portuguesa e consiste no conjunto formado pela língua, pela raça, pela cultura folclórica, pela consciência, isto é, pelo seu carácter étnico. E isto não é fundado por ninguém – forma-se naturalmente, sempre a partir de grupos bem diferenciados em termos de raiz.
É aqui que Berdaiev falha quando afirma:
«Race is a naturo-zoological category. It appertains to prehistory, although in history there act the intrusions of races, of quite varied civilisations. Nationality however is a category culturo-historical and it is already the result of a certain spiritualisation of the natural element.»
ou seja
«A Raça é uma categoria natural-zoológica. Pertence à pré-História, ainda que na História tenha havido intrusões das raças, de civilizações muito variadas.
A Nacionalidade contudo é uma categoria histórico-cultural e é já o resultado de uma certa espiritualização do elemento natural.
»

Isto dá ideia de que a Nação se forma artificialmente à posteriori. Na verdade, os grupos humanos bem diferenciados existem desde sempre. Sempre existiram tribos. E a Nação não passa de um desenvolvimento da tribo. A Nação é pois uma tribo maior.

Tal como os humanistas de Esquerda, Berdaiev julga conseguir deitar por terra o ideal racial ao «informar» que não há raças puras – e esta similitude argumentativa entre patrioteiros cristãos e esquerdistas já há muito que não surpreende quem estiver atento às suas semelhanças fundamentais.

Berdaiev traça com acuidade o contexto em que o Cristianismo surgiu:
«Christianity entered upon the world, when the tribal, the blood-nation and particularistic religions had been supplanted and there thus obtained the unification of mankind within the Hellenistic culture and in the worldwide Roman Empire.»
traduzindo,
«A Cristandade entrou no mundo quando as religiões tribais, vinculadas ao sangue e nacionais tinham sido suplantadas e se tinha obtido a unificação da humanidade no seio da cultura helenística e do império mundialista romano.»

Repare-se como Berdaiev louva o Império, isto é, o imperialismo. Nada mais claro.

E continua:
«The connection inherent to paganism between the "national" and the "religious" was sundered and in this was a surmounting of polytheism. To the polytheism of the tribes, the clans, cities and nationalities there was set opposite the Christian universalism and Christian personalism. The universalism and personalism are complimentary. Christianity is not a revelation for tribes, for nations, Christianity is a revelation for all mankind, for all the universe and for every human soul, for every person. Christianity therefore is the surmounting not only of pagan particularism, but also of the Jewish national messianism. Christ was crucified in the name of nationalism, not only of the Jewish nationalism, as is often interpreted, but indeed of every nationalism, be it Russian, German, French, English.»
isto é,
«A conexão inerente ao Paganismo entre o «nacional» e o «religioso» foi rompida e nisto estava uma ultrapassagem do Politeísmo. Ao Politeísmo das tribos, dos clãs, das cidades e das nacionalidades, opunha-se o universalismo cristão e o personalismo cristão. O universalismo e o personalismo são complementares. O Cristianismo não é uma revelação para tribos, para nações, o Cristianismo é uma revelação para toda a humanidade, para todo o universo e para toda a alma humana, para toda a pessoa. O Cristianismo é pois a ultrapassagem não apenas do particularismo pagão, mas também do messianismo nacional judaico. Cristo foi crucificado em nome do Nacionalismo, não apenas do nacionalismo judaico, como é amiúde interpretado, mas de todo o nacionalismo, seja russo, alemão, francês, inglês.»

Tudo em pratos limpos, portanto. Não se pode ser mais explícito. A partir daqui, caros leitores, escolham os vossos caminhos e «façam as vossas apostas», como sói dizer-se.


Repare-se particularmente nesta asserção:
« The human person spiritually is set free from the tribal-blood religious connection,»
ou
«A pessoa humana é espiritualmente libertada da ligação religiosa inerente aos laços tribais de sangue»

Mais uma vez, a argumentação cristã universalista a coincidir em cheio com a dos esquerdistas: a inversão demagógica da realidade de modo a «vender» uma mutilação com o rótulo de «libertação». Exaltar a libertação da pessoa relativamente aos laços de sangue por meio da adopção de uma doutrina universalista é como exaltar a libertação do tronco do corpo humano relativamente aos braços por meio de uma serra eléctrica, mas com anestesia que é para não doer e conseguir passar a ideia que o corpo humano fica assim mais leve e mais desimpedido...

Entretanto, o vazio deixado pelo corte dos laços de sangue acaba por ser preenchido por outro tipo de laços. Por conseguinte, Berdaiev acha maravilhoso que os laços naturais de estirpe sejam substituídos pelos laços religiosos supervisionados pela Igreja.

Portanto, é à destituição da lealdade familiar, nacional, racial, e sua substituição pela submissão à hierarquia da multinacional cristã que este pensador «de Direita» chama «libertação».

Tal como Louis Rougier em «O conflito do Cristianismo Primitivo com a Civilização Antiga», Berdaiev faz notar que o Deus universalista já existia no Judaísmo (porque os Judeus consideravam que só o seu Deus era verdadeiro, sendo falsos ou demónios todos os Outros, daí a intolerância judaica), mas foi o Cristianismo que tornou tal Divindade numa Entidade obrigatória para todos os povos do mundo, uma vez que o Cristianismo pretendeu a destruição do espírito nacionalista judaico.
E é assim que, segundo Berdaiev, «A unidade da humanidade existe precisamente por existir apenas um Deus».

Seguidamente, Berdaiev tenta o truque de fazer crer que o racismo como ideologia assenta no Judaísmo. É aliás um argumento muito usado pela Esquerda e pelos patrioteiros cristãos com o intuito de confundir os nacionalistas europeus anti-semitas.
E só pode ser usado quando os nacionalistas europeus ignoram certos factos do passado europeu.
Assim, aquando das guerras médicas, os Espartanos mandaram aos Atenienses um emissário para averiguar se estes estariam dispostos a lutar ao lado de Esparta contra os invasores persas.
A orgulhosa resposta dos Atenienses foi esta:
«to ellinikon eon omaimon te kai omoglosson
kai theon idrimata te koina kai thisiai
ithea te omotropa
»
ou seja,
«A Helenidade que é a similaridade no sangue e na língua e nas instituições comuns dos Deuses e dos sacrifícios e da ética, move-se no mesmo caminho.»

Quanto a Roma, é de lembrar que nos seus primeiros tempos, só os templos dos Deuses Nacionais podiam estar dentro da cidade.
E, na obra «A Vida dos Doze Césares», Suetónio expõe o pensamento de Octávio César Augusto (primeiro imperador de Roma) a respeito da estirpe:
«Considerando também que era muito importante conservar a pureza da raça romana, não a deixando corromper pela mais pequena mistura de sangue estrangeiro ou servil, foi extremamente moderado na concessão do direito de cidadania romana (…).» (Sim, o imperador Octávio César Augusto era um nazi, um «sequinéde», um racista).

Enfim, qualquer Povo digno desse nome tem em si uma mentalidade exclusivista de afastamento relativamente ao alógeno. Não foi preciso os Judeus ensinarem os Europeus a terem consciência racial e étnica. De facto, não consta entretanto que fosse formado por judeus o senado do Porto que em certo dia do século XVI se reuniu para discutir a maneira de evitar a mistura racial com negros.
Entretanto, existe, no norte transmontano (segundo Aquilino Ribeiro na obra «O Malhadinhas»), um provérbio que diz o seguinte: «De sangue misturado e moço refalsado, livrai-nos Deus».
Tudo isto é natural e inerente a qualquer grupo humano, sendo que alguns povos se mostram neste ponto mais rigorosos do que outros. Os Judeus contam-se entre os mais zelosos e, de facto, conseguiram sobreviver a numerosas perseguições e hoje detêm uma influência invejável a nível mundial. Os Japoneses são igualmente intransigentes na defesa da sua identidade racial, tal como os Parsis, que são os Iranianos adoradores do Deus de Zaratustra (Ahura-Mazda ou Ormuzd) os quais, fugidos do Irão aquando da invasão islâmica (no século VIII), encontraram refúgio na Índia, onde vivem e prosperam há mais de um milénio, evitando cuidadosamente a mistura racial, a ponto tal que nem sequer aceitam conversões à sua religião.

Compreende-se que o russo se referia à ideologia em si e não à atitude, isto é, falava do «-ismo». Também muitos anti-nacionalistas gostam de afirmar que «o Nacionalismo é do século XVIII», o que não passa de uma grosseira incapacidade de distinguir entre conteúdo e forma, entre essencial e acessório. Os «ismos» surgem quando são necessários - e, no contexto político-cultural europeu da Modernidade, só poderia intervir se adoptasse uma forma doutrinal, isto é, uma ideologia.

Berdaiev falha igualmente ao afirmar que o Nacionalismo-Racialismo consiste em definir espiritualmente o ser humano pela sua raça. Ora na verdade isto é fazer aquilo a que se chama «pôr o carro à frente dos bois». Na verdade, a espiritualidade não é determinada pela raça biológica, é pelo contrário a raça biológica que constitui um sinal da espiritualidade do indivíduo, por assim dizer. Ou seja, a raça é um produto final do processo diferenciador da Natureza, paralelo a, ou mesmo penetrado, imbuído de, uma diferenciação espiritual. Uma coisa acompanha naturalmente a outra.
Não se trata pois, como diz Berdaeiv, de considerar o espírito como um epifenómeno (isto é, um fenómeno que vem depois, uma consequência), mas sim de considerar as diferenças raciais visíveis como um epifenómeno do processo diferenciador natural, que é físico e espiritual.

De qualquer modo, é especialmente significativo que Berdaiev afirme:
«With the weakening of faith, with the de-Christianisation of society, God was substituted for by the nation.»
isto é,
«Com o enfraquecimento da fé, com a descristianização da sociedade, Deus foi substituído pela Nação.»

É correcto, desde que se tenha em mente que o Deus referido é Jeová/Jesus. Assim, torna-se também aqui evidente que a História do Ocidente desde o Renascimento até aos dias de hoje, é, no que tem de mais autenticamente europeia, o retorno, lento e gradual, da antiga espiritualidade pré-cristã, passo a passo.

Como o próprio Berdaiev afirma:
«The modern world is again torn by polydemonism, from which Christianity formerly freed the ancient world. Again have broken free the demons of race, of blood, of earth, of nationality, of sex. Everything that had been driven into the subconscious, has burst forth and become apparent. The opposite to Tertullian might be said, that the human soul by nature is pagan, not Christian, and this pagan naturalism at present is manifest more strongly, than before.»
Ou seja,
«O mundo moderno está novamente dividido pelo polidemonismo, do qual o Cristianismo tinha anteriormente libertado o mundo. Novamente se libertaram os demónios da raça, do sangue, da terra, da nacionalidade, do sangue. Tudo o que tinha sido conduzido ao subconsciente, brotou e tornou-se manifesto. Pode dizer-se o oposto do que Tertuliano disse, a saber, que a alma humana é naturalmente pagã, não cristã, e este naturalismo pagão está presentemente mais forte e evidente do que antes.»

Berdaiev queria portanto que o Ocidental continuasse reprimido, acorrentado, domesticado de joelhos no confessionário, negando o seu próprio génio e a sua própria liberdade – é a isto que o patriota cristão chama «liberdade espiritual», ou seja, uma auto-mutilação voluntária. E, assumindo-se mais uma vez como dono da Verdade e da Justiça, afirma que o Nacionalismo não quer saber nem duma nem doutra, mas apenas do amor ou da repulsa por determinado(s) povo(s). A respeito da verdade, já se discutiu acima; quanto à justiça, depende de quem a observa. É justo, como querem os universalistas, que se dê a um alienígena tanta consideração e louvor como se dá a um compatriota?

A Justiça é tão somente a atitude de dar a cada qual aquilo que lhe pertence.

Ora, ao homem do mesmo sangue, pertence mais do que ao estranho. Entre salvar a vida de um familiar (por mais cobarde, fraco, mal formado e idiota que seja) e salvar a vida de um milhão de alienígenas (mesmo que sejam corajosos, fortes, virtuosos e inteligentes), o que é justo é optar pela primeira alternativa.
Afigura-se por isso sintomático que Berdaiev dê como exemplo de «erro» nacionalista aquilo que constitui a essência de toda a verdadeira política: as palavras de Karl Schmidt, segundo as quais se pode dizer que a primordial preocupação da política é distinguir entre amigos e inimigos.

Por último, Berdaiev tenta mostrar que o Nacionalismo corre contra os ventos da História ao afirmar que a Tecnologia se lhe opõe radicalmente. Afirma que a tecnologia é internacionalizante, ao passo que o Nacionalismo é «telurista», ou seja, prende o indivíduo à terra, limitando-lhe os horizontes. Também aqui demonstra ele próprio uma limitação de espírito que já tenho visto noutros cristãos: uma tal configuração monoteísta da mente que o impede de entender que um só indivíduo pode ter mais de um critério de julgamento da realidade. Na sua fraseologia cristã, chamam a isso «Servir Deus e o Diabo». Ou seja, é, mais uma vez, uma exibição do seu pendor visceralmente totalitário.

De resto, o Nacionalismo, como valorização da Estirpe acima de tudo, em nada se opõe ao contacto com outras estirpes. Mas contactar com outrem não é «passar para o lugar do outro», como querem alguns humanistas. Só se contacta com o outro se se tiver uma personalidade como ponto de partida. A comunicação pressupõe sempre a existência de pelo menos dois lados. Ora, para haver dois lados, cada um deles tem de manter a sua própria individuação.
Assim, apreender elementos úteis de outra cultura é coisa que em nada se opõe ao Nacionalismo, o qual não é a valorização extrema de um modo de vida particular, mas sim a exaltação de um Povo, independentemente do seu modo de vida e das suas condições materiais, as quais variam no tempo e, também, no espaço.

E é assim que, passo a passo, vai-se tornando mais nítida a incompatibilidade entre Cristianismo e Nacionalismo como dois veios principais da política ocidental.

Digo da política, sim.
Passe o anacronismo, parece-me que a melhor maneira de determinar a «pertença» de determinado indivíduo à Direita ou à Esquerda, é perguntar-lhe, não de que lado estava no 25 de Abril, nem sequer de que lado estaria na Revolução Francesa (origem histórica da divisão entre Direita e Esquerda), mas sim de que lado se posicionaria há dois mil anos, na Roma antiga: do lado dos subversivos cristãos das catacumbas, ou do lado da autoridade pagã romana. É esse conflito o mais importante da História do Ocidente; é nesse confronto que radicam todos os confrontos actuais, com mais ou menos misturas ou alianças circunstanciais (o Patriotismo com o Cristianismo, por exemplo…) mas contraditórias na sua essência.

E é no combate dessas duas mentalidades que se decide o futuro dos povos arianos.

Por conseguinte, as verdadeiras posições espirituais e políticas, as posturas que realmente interessam e vão ao cerne das coisas, estão agora praticamente tão bem esclarecidas como estavam há dois mil anos.

De um lado, o espírito de estirpe – do outro, o espírito universalista.

No espírito de estirpe, inclui-se evidentemente o Nacionalismo, e também o Racialismo – o Identitarismo, em suma. A mentalidade nacionalista é da mesma índole que a mentalidade racista e que a mentalidade racialista – é baseada na discriminação, no privilégio, na exclusão. Por mais desentendimentos que possam existir entre nacionalistas, ou entre nacionalistas e racialistas, ou entre racialistas, tais divergências situam-se quase sempre ao nível dos conceitos de estirpe, a saber, da determinação de quem pertence ou não ao grupo, até onde se estende o grupo, quem está mais próximo ou mais distante do grupo.

Na mentalidade universalista, ou internacionalista (que, como se viu, vai dar ao mesmo) o único valor é a supressão ou pelo menos subalternização das fronteiras em nome do que é comum a todos – é a moralidade do apátrida, do pária, do que rompe com uma parte de si próprio, com o seu sangue. É a legitimação da traição.

Naturalmente que um internacionalista convicto recusará o rótulo de traidor. E será capaz de expor as suas prioridades de modo a mostrar que a Nação, para ele, nada significa, que o que para ele interessa é «a humanidade».
Também um capitalista pode dizer que não é traidor porque, para ele, só o capital interessa, e o capital não tem pátria. Mas não é por dizer «Para mim, a Pátria não conta» que o sujeito deixa de ser traidor, do mesmo modo que o assassino com tiques filosóficos que declara «Para mim, a vida em si não é um valor» continua a ser tão culpado e tão punível por assassinato como qualquer homicida menos dados às lides da «Filosofia».

Mais acima, quando disse que o Nacionalismo se baseia na discriminação, no privilégio e na exclusão, quase que aposto que alguns leitores pensaram que eu estava a falar mal do ideário nacionalista.

E porque pensaram isso?

Porque a poluição cerebral sem precedentes feita pelo Cristianismo e seus derivados, especialmente nas últimas décadas do Ocidente, em que a Esquerda internacionalista domina a comunicação social, essa poluição, dizia, conseguiu infiltrar nas mentes de muitos a abjecta ideia de que é errado discriminar, é errado dar privilégios aos seus, é errado excluir quem é diferente.
Ora discriminar é ver diferenças – é errado ver diferenças? Errado é não o fazer.
Privilegiar é dar prioridade a uns sobre outros – é errado tratar melhor os familiares do que os estranhos? Errado é não o fazer.
Excluir é pôr de fora – é errado pôr fora de um espaço algo que não pertence a esse espaço? Errado é não o fazer. Certamente que ninguém aceita que um estranho lhe entre em casa e que tenha nessa casa os mesmos direitos que os possuidores do domicílio.

A partir daqui, é preciso, evidentemente, discutir quem está dentro ou fora do grupo, como se disse acima. Por isso, floresce a discussão no seio dos nacionalistas-racialistas-identitários. Neste blogue, por exemplo, tem-se travado batalha contra o regionalismo. Naturalmente que esta confrontação é de ordem abissalmente diferente do combate contra o Universalismo: é que, enquanto os regionalismo é meramente irritante, o universalismo, por seu turno, é sempre asqueroso.

Em suma, a lealdade do nacionalista-racialista-identitário, é para com a sua Estirpe – até às últimas consequências. Contra o espírito de Berdaiev, mantém-se firme o exemplo do germânico Radbod, representante da melhor Europa, intérprete glorioso de um dos episódios mais emblemáticos de tudo isto que aqui tem sido dito. Líder frísio, vencedor de Carlos Martel, restaurador da religião pagã dos seus ancestrais depois do reinado do seu pai, Aldgisl, que tinha deixado o Cristianismo entrar, Radbod acabou por não conseguir fazer frente, militarmente, aos poderosos francos (que eram cristãos). Num momento de fraqueza, dispô-se a ser baptizado; mas quando estava prestes a deixar que lhe passassem a água benta pela cabeça, Radbod parou por instantes e perguntou ao clérigo que queria domesticar-lhe a alma:
- Onde estão os meus antepassados, que não adoravam Cristo?
O missionário respondeu-lhe:
- Estão no inferno, juntamente com os outros infiéis.

Acto contínuo, Radbod recuou e declarou:
- Então eu prefiro ir ter com os meus honrados ancestrais ao inferno do que ir para o paraíso com uma catrefa de pedintes.

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