segunda-feira, fevereiro 09, 2026

SOBRE A TOLERÂNCIA À LACTOSE EM PORTUGAL DESDE A PRÉ-HISTÓRIA


Um dos muitos mapas que se encontram na Internet a mostrar a actual tolerância à lactose na Europa - verifica-se que, grosso modo, esta tolerância é maior nas partes mais germânicas e célticas do Velho Continente, porventura aquelas cujas populações mais dependeram, historicamente, do consumo de produtos lacticínios.

Na Europa, a tolerância à lactose após o desmame (persistência da lactase – LP) depende de uma única mutação no gene MCM6. O tempo e o modo de emergência do consumo de leite cru em território português não foram investigados, apesar da sua importância na dieta e na cultura culinária portuguesas.
Para identificar a ocorrência mais antiga da mutação causativa da LP, utilizámos o Allen Ancient DNA Resource para investigar os dados de ADN antigo (aDNA) para este locus em indivíduos ibéricos, do Paleolítico à Idade Moderna. A partir de fontes bibliográficas, revimos dados zooarqueológicos sobre espécies produtoras de leite domesticadas.
Na Península Ibérica, a ocorrência mais antiga de LP ocorre em um indivíduo do início da Idade do Bronze. Este também apresentava o haplogrupo R1b do cromossoma Y, tipicamente associado ao hipotético movimento de pessoas associadas à cultura Yamnaya durante este período. Em Portugal, o primeiro indivíduo com LP data do Período Romano. Os dados zooarqueológicos sugerem que o leite era consumido em pequenas quantidades em Portugal até ao Período Romano. A produção de leite aumentou mais significativamente durante a Idade Média, mas o impacto desse aumento na LP ainda está por determinar.
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Agradecimentos a quem aqui trouxe este estudo: https://ophiussa.letras.ulisboa.pt/index.php/ophiussa/article/view/193/141
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Pode ver-se, num dos gráficos do estudo, que, no centro e norte europeus, verifica-se na Idade do Bronze um forte aumento de indivíduos com tolerância à lactose; na Idade do Ferro, o aumento é muitíssimo maior ainda, o que bate certo com o avolumar das influências genéticas indo-europeias. 
Tudo isto tem que ver com a quantidade e qualidade de amostras disponíveis, bem entendido, e eventualmente ainda a procissão vai no adro quando se fala neste tema.