terça-feira, fevereiro 17, 2026

DONDE VÊM AS MÁSCARAS DO ENTRUDO? DA RELIGIÃO CLÁSSICA


«[31] Durante muitos anos pensaram em propiciar Dis com cabeças humanas e Saturno com o sacrifício dos homens, uma vez que o oráculo lhes tinha ordenado: “Oferecei cabeças ao Hades e um homem ao Pai”. Mais tarde, porém, conta a história, Hércules, ao regressar através de Itália com os rebanhos de Gerião, convenceu os seus descendentes a substituir estes sacrifícios impuros por outros de bom presságio, oferecendo a Dis pequenas máscaras habilmente desenhadas para representar o rosto humano, em vez de cabeças humanas. Saturno com velas acesas em vez de com sangue de homem; pois a palavra ọõta significa “luzes” e também “um homem”.»

- «Saturnália», Livro I, capítulo 7, por Macróbio, séculos IV-V d.c..

CARETOS E KURENTS





«Kurents (ou Kurenti) são as mais icónicas figuras do carnaval esloveno, reconhecíveis pelas suas fantasias de pele de carneiro, máscaras assustadoras com chifres ou penas, e grandes campainhas, que simbolizam a expulsão do Inverno e a chegada da Primavera, da boa sorte e da fertilidade, sendo a sua tradição protegida pela UNESCO.
Características Principais:
  • Fantasias (Kurentija): Incluem um chapéu de pele, um fato de pele de carneiro, perneiras vermelhas ou verdes, botas, uma corrente com campainhas à volta da cintura e um bastão (ježevka) com espinhos de ouriço.
  • Máscaras: Podem ser de couro, com narizes longos e línguas vermelhas, com chifres (tipo Haloze) ou com penas (tipo Markovci), e são adornadas com fitas coloridas e flores de papel.
  • Função: Através de saltos e barulho, os Kurents afastam os maus espíritos e o Inverno, convidando à prosperidade, boa colheita e uma Primavera quente.
Tradição:
  • Período: Acontecem entre a Candelária (2 de Fevereiro) e a Quarta-feira de Cinzas.
  • Eventos: As rondas de porta em porta são a tradição original, culminando no grande festival Kurentovanje na cidade de Ptuj, o maior carnaval da Eslovénia.
  • Evolução: Originalmente usadas por homens solteiros, hoje em dia as fantasias podem ser usadas por homens, mulheres e crianças, e são passadas de geração em geração.
Reconhecimento:
  • A tradição das rondas dos Kurents está inscrita na Lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.»
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«Caretos (Portugal) e Kurents (Eslovénia) são figuras carnavalescas mascaradas e vestidas com trajes ruidosos, simbolizando a fertilidade e a expulsão do Inverno para dar as boas-vindas à Primavera, com os Caretos de Podence (Portugal) sendo reconhecidos pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Ambos usam máscaras, chocalhos e vestes de peles/lã, mas os Caretos portugueses usam máscaras mais grotescas de madeira/metal, enquanto os Kurents eslovenos usam peles de ovelha e chifres, com os seus "Kurents" a serem um símbolo central do carnaval de Ptuj, na Eslovénia.
Caretos (Portugal)
  • Origem: Trás-os-Montes e Alto Douro, com destaque para Podence.
  • Traje: Máscaras de madeira ou lata com narizes salientes e chifres, fatos coloridos de lã com franjas, e chocalhos pesados à cintura.
  • Acção: Correm pelas ruas, fazendo barulho, assustando e "chocalhando" as pessoas, especialmente mulheres, num ritual de fertilidade e renovação.
  • Reconhecimento: Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO desde 2019.
Kurents (Eslovénia)
  • Origem: Principalmente na região de Ptuj, Eslovénia, durante o "Kurentovanje" (carnaval).
  • Traje: Máscaras de couro com olhos grandes, peles de ovelha, enormes campainhas à cintura, e um mace com espinhos de ouriço-cacheiro (ježevka).
  • Ação: Correm para afugentar o Inverno e os maus espíritos, anunciando a Primavera.
  • Simbolismo: Representam fertilidade e a vitalidade da vida, com os lenços (obtidos de raparigas) a simbolizar popularidade.
Semelhanças Chave
  • Ambos são figuras carnavalescas com máscaras e sinos/chocalhos.
  • Ambos estão ligados a rituais pagãos antigos e simbolizam a expulsão do Inverno e a vinda da Primavera.
  • Ambos os rituais envolvem o ruído (chocalhos/campainhas) para afastar energias negativas e trazer boa sorte.»

Ora sabendo-se que Lusitanos e Galaicos poderão ser oriundos do centro da Europa perto da Eslovénia, e que há um parentesco genético verificado entre os Lusitanos e os antigos Iápodes da região do noroeste das Balcãs, incluindo parte da Eslovénia, que, grosso modo, é uma Nação eslava mas que tem algum substrato céltico e romano,
parece então especialmente plausível que haja uma raiz comum entre Caretos e Kurents, tão gritante é a sua semelhança tanto em termos onomásticos como em matéria conceptual e funcional.

ANTROIDO, ENTRUDO, CARNAVAL, CELEBRAÇÃO EUROPEIA














Carnaval, celebração de raiz porventura arcaica, essencialmente semelhante à Saturnália, mas com traços de outras festividades pagãs, nomeadamente da Lupercália, aqui descrita há poucos dias, e da Bacanália, na qual, ao mesmo tempo em que o líquido de Baco descia as gargantas e subia às cabeças, se podia dizer e fazer toda a sorte de deboches.
O Carnaval é efectivamente um tempo de pura descontracção, em que se pode fazer, dizer e até ser» virtualmente tudo «o que se quiser» - com os limites que a sociedade actual impõe, relativizando sempre o sentido do total que algumas festas poderiam ter originalmente, pois que, numa época em que são sempre precisos polícias, médicos, enfermeiros, etc., não se pode esperar que todos estejam ao mesmo tempo envolvidos numa dada celebração, como bem notou Roger Caillois em «O Homem e o Sagrado».
No antigo calendário romano, Fevereiro era o último mês do ano, época de contacto com os mortos, de purificação da cidade - é daí que vem o nome Fevereiro, de Februus, Deus Subterrâneo dos Mortos e das Riquezas - tendo assim um ambiente similar ao do Halloween céltico (Samhain, na língua irlandesa), o qual é, para os Celtas, a passagem de um ano para outro.
Neste extremo ocidente europeu, o Entrudo está actualmente muito influenciado pela cultura brasileira, o que contribui para um empobrecimento da tradição carnavalesca nacional: um povo sem orgulho, acabrunhado, deixa-se colonizar também nisto, especialmente quando a ideia de que a versão carioca de tal festividade «é que é o Carnaval por excelência» parece estabelecida como um facto indiscutível, e «toda a gente» a considera melhor que todas as outras.
E tal colonização, verdadeiramente kitsch porque feita com base na diluição da identidade cultural nacional, passa por cima até do mais prosaico bom senso - chega a infringir as mais elementares regras da sensatez no que ao clima diz respeito. Cá, ainda é Inverno e, por conseguinte, a tradição de cá não consistia em mostrar descomunais coxas, tantas vezes invernalmente anafadas, trajadas com roupas que deixam as pobres moçoilas semi-nuas a gramar um frio ventoso pelas carnes adentro.
Parece-me a propósito disto pertinente observar a diferença radical entre o Carnaval brasileiro e os Carnavais europeus - por mais diferenças que se verifiquem entre estes últimos, há algo que os caracteriza em comum por oposição ao do Rio de Janeiro: trata-se, quanto a mim, da valorização do não manifesto, do oculto, do acto de esconder.
A festividade carnavalesca brasileira é típica do Verão - com efeito, realiza-se numa altura em que o hemisfério sul vive o pico da estação quente. Por conseguinte, a celebração pauta-se pela abertura, pela exuberância da extroversão absoluta.
As festividades carnavalescas europeias, pelo contrário, são festas típicas do Inverno - têm lugar numa época do ano em que o hemisfério norte vive ainda na estação fria. Em assim sendo, tais celebrações caracterizam-se pela ocultação, pela exuberância duma introversão virada do avesso, ou seja, exibida perante os olhos de todos - e é isso a máscara.
Tornou-se lugar-comum a noção de que os Brasileiros, e demais latino-americanos, são especialmente extrovertidos (traço eventualmente africano, também presente nos EUA), ao passo que a Europa tende para a introversão - e quanto mais geograficamente afastados de África, mais introvertidos são os Europeus, com a estranha excepção do caso português, que, situando-se territorialmente no sul do continente, pauta-se todavia por uma marcada introversão, visível desde logo na sua pronúncia, que se assemelha genericamente à do gélido leste europeu.
Ora o Carnaval é, por excelência, a festa da quebra das regras, da excepção - faz-se nesta altura o que não se pode fazer durante o resto do ano.
Não obstante, os Brasileiros têm nesta época, não um momento de excepção, mas sim de intensificação do que já são no resto do ano; quanto aos Europeus, dão-se ao festejo desbragado, não raras vezes debochado, mas a coberto de máscaras.


Introversão e cultura europeia versus extroversão sul-americana: enquanto no Rio de Janeiro anda tudo ao léu, como na praia, em Veneza, por exemplo, vive-se um momento feérico, gerado pelo encontro da bizarria das refinadas máscaras (cujo potencial erótico e bizarro foi particularmente explorado em «Eyes Wide Shut», ou «Olhos Bem Fechados», de Stanley Kubrick) com o nevoeiro, que, segundo parece, é na cidade dos Vénetos frequente.

Bom seria, digo eu, que o carnaval português, em vez de receber a influência brasileira, tivesse ficado mais parecido com o veneziano. É que Lisboa até tem a sua névoa e o seu ar melancólico, sóbrio, triste segundo alguns, mas que, visto de outro modo, pode esconder mistérios e riquezas insuspeitadas. Tal atmosfera não tem muito a ver com roupagens verde-e-amarelo e com desfiles à maneira rio-de-janeirista, mas combina perfeitamente com o cenário construído pela máscara veneziana. Em Portugal, nos saudosos anos setenta e princípios dos anos oitenta, antes da maciça influência brasileira, as pessoas mascaravam-se a rigor (e tinham ainda menos dinheiro do que têm hoje), encarnando certas e determinadas personagens da realidade ou da fantasia; e eram incontáveis os que, mesmo não usando uniformes, acabavam todavia por ajustar a sua caraça de modo a bem esconder as respectivas ventas.