CARACTERÍSTICAS ESSENCIALMENTE ETNICISTAS DA PRIMEIRA DEMOCRACIA
Só filhos de atenienses podiam ter cidadania ateniense, outros gregos não, mesmo que fossem plenamente gregos.
Sim, está absolutamente correcto. Esse é um dos aspetos mais marcantes e exclusivistas da política na Grécia Antiga: o conceito de "nacionalidade" grega (partilhar a mesma língua, religião e cultura) não conferia qualquer direito político fora da sua cidade-estado natal.
O sistema de cidadania em Atenas funcionava sob regras muito rígidas:
Antes de 451 a.C.: Para ser cidadão, bastava que o pai fosse um cidadão ateniense livre. A mãe podia ser uma estrangeira (grega de outra cidade ou mesmo não grega), desde que o casamento fosse legítimo. O próprio Clístenes, o "pai da democracia ateniense", era filho de uma princesa da cidade de Sicião.
A Lei de Péricles (451 a.C.): Péricles endureceu radicalmente as regras. Ele aprovou uma lei que determinava que a cidadania só seria concedida a homens cujos ambos os pais (pai e mãe) fossem cidadãos atenienses nativos. Se um ateniense casasse com uma mulher de outra cidade grega, os filhos desse casamento eram considerados ilegítimos (nothoi) e perdiam todos os direitos políticos e de herança.
Os gregos de outras cidades que se mudavam para Atenas para trabalhar ou fazer comércio passavam a ser metecos (metoikoi). Embora fossem culturalmente helénicos, eles:
Tinham de pagar um imposto especial de residência (metoikion).
Precisavam de um patrocinador ateniense (prostates) para os representar perante os tribunais.
Não podiam possuir terras ou propriedades em território ateniense.
Não podiam votar nem participar nas decisões da democracia.
A cidadania ateniense era, por isso, um clube de sangue extremamente fechado, e as exceções concedidas a estrangeiros (mesmo gregos) eram raríssimas e exigiam uma votação em massa muito especial na Assembleia.
Gostaria de saber mais sobre as excepções históricas em que Atenas concedeu cidadania a estrangeiros (como após uma famosa batalha) ou prefere explorar as consequências sociais da lei de Péricles?
Apesar desta rigidez extrema, a história de Atenas regista momentos de desespero ou de excepção geopolítica em que a cidadania foi concedida em massa ou individualmente a estrangeiros.
Esta é a concessão em massa mais famosa da história de Atenas, ocorrida durante a fase final da Guerra do Peloponeso contra Esparta.
O Contexto: Atenas estava financeiramente esgotada e sem homens suficientes para tripular as suas galés (triremer).
A Medida Desesperada: Para conseguir montar uma última frota, a Assembleia aprovou uma lei sem precedentes: prometeu a cidadania ateniense plena a todos os escravos e metecos (estrangeiros residentes) que aceitassem remar e lutar na batalha.
O Resultado: Atenas venceu a Batalha Naval de Arginusas. Os escravos sobreviventes foram imediatamente libertados e integrados na cidadania, recebendo direitos políticos iguais aos dos cidadãos nativos, uma quebra absoluta na tradição de sangue.
Plateias era uma pequena cidade-estado na Beócia e a aliada mais fiel de Atenas desde as Guerras Médicas.
O Cerco: Durante a Guerra do Peloponeso, Plateias foi cercada e destruída pelos espartanos e tebanos. Os sobreviventes fugiram para Atenas.
A Recompensa: Em reconhecimento à sua lealdade inabalável, Atenas concedeu a cidadania ateniense em massa a todos os refugiados de Plateias. Eles foram distribuídos pelas tribos atenienses, embora com uma pequena restrição: não podiam candidatar-se ao cargo de Arconte (magistrado supremo) ou pertencer a certas linhagens sacerdotais antigas.
Atenas também concedia a cidadania a indivíduos estrangeiros de elite como uma ferramenta diplomática (chamada politeia honorária). Nestes casos, o título era dado a reis ou generais estrangeiros que financiavam ou protegiam os interesses atenienses:
Sadoco, Príncipe da Trácia (431 a.C.): Péricles, ironicamente, promoveu a concessão de cidadania a Sadoco, filho do rei Sitalces da Trácia, para garantir uma aliança militar crucial no início da Guerra do Peloponeso.
Evágoras de Chipre (410 a.C.): Rei de Salamina, em Chipre, recebeu a cidadania ateniense após ajudar a frota de Atenas e acolher generais atenienses exilados.
Dionísio I de Siracusa (368 a.C.): O famoso tirano da Sicília recebeu a cidadania ateniense honorária quando as duas cidades formaram uma aliança militar contra Tebas.
Se quiser, posso detalhar o que aconteceu às famílias dos cidadãos que perderam a cidadania quando a lei de Péricles entrou em vigor, ou explicar como os espartanos lidavam com os seus próprios estrangeiros. Como prefere continuar?


