Está por todo o Ocidente muito na moda diabolizar Israel por dá cá aquela palha. É toda uma propaganda disseminada sobretudo por sectores de Esquerda, que mui naturalmente antipatizam com Estados-Nação e, sobretudo, odeiam o seu próprio Povo ou civilização de que fazem parte. Tal como, por exemplo, a Esquerda indiana ataca os Hindus e defende os muçulmanos, sucede que a Esquerda ocidental incita ao ódio contra o Ocidente e poupa críticas a tudo o que tenha a ver com o Islão. Ora Israel é hoje uma extensão do Ocidente - uma extensão que não se rende, não pede desculpa por existir e paga na mesma moeda, ou seja, não dá a outra face, e a Esquerda ocidental acha que todo o ocidental deve sempre dar a outra face por tudo e por nada. Por este mesmo motivo, esta Esquerda ocidental diz de Israel o que Maomé não diz do toucinho, aliás, diz de Israel o que Maomé não dizia dos Judeus, que nem Maomé pregava tanto contra a malta de David como a Esquerda ocidental vitupera hoje o país da estrela de seis pontas.
Enfim, é a Esquerda a ser Esquerda - é coerente da sua parte.
Agora, que também haja nacionalistas a juntar-se ao balido anti-sionista, eis o que constitui um absurdo, e pior do que isso - uma hipocrisia.
Hipocrisias há muitas. Há toda a espécie de hipocrisias - hipocrisias moderadas, hipocrisias comuns, hipocrisias extremas, hipocrisias despudoradas, hipocrisias subtis. Esta é uma hipocrisia palerma. O actual Estado de Israel só faz neste momento aquilo que todo o nacionalista teria o dever de fazer se estivesse no seu lugar.
O dever. O carvalho do dever.
Se Portugal estivesse cercado de países que oficialmente não o reconhecessem como país, e de alguns desses países manasse terrorismo contra Portugal... Aliás, nem era preciso que Portugal estivesse cercado como está Israel. Bastava, por exemplo, que Marrocos começasse agora a dizer que Portugal não tinha direito de existir porque Portugal era um produto da Reconquista que «roubou» terra aos muçulmanos. Seria uma justificação gritantemente despudorada da parte dos Marroquinos, mas podia acontecer. Ora se, numa situação destas, Marrocos, além de declarar publicamente esta invectiva contra Portugal, também apoiasse publicamente movimentos terroristas que pusessem bombas em ruas, meios de transporte, escolas de Portugal, e matassem intencionalmente crianças e mulheres portuguesas, e se, numa situação destas, Portugal estivesse na posse de armas nucleares, e os nacionalistas portugueses estivessem no governo... é que corriam o norte de África todo à bombada nuclear, era de Marrocos até ao Egipto, ia tudo raso, transformavam toda a área a norte do Saara num deserto radioactivo, e se alguém lhes dissesse «eh pá, o Egipto não tem nada a ver com Marrocos...», a resposta mais provável de muitos desses nacionalistas seria «a gente não quer saber disso para nada!, mouro é mouro, são todos muçulmanos e árabes e assim, mais vale acabar já com aquele pessoal todo».
Eu conheço-os, sei como pensam, e desde já aviso, quem vier aqui dizer que não e mais não sei quê, não vou perder tempo com isso, pelo que escusam de tentar negar.
Outro exercício de imaginação. Suponha-se que agora chegava ao poder em Espanha um partido patrioteiro que dizia que Portugal devia ser anexado a Espanha porque não tinha direito à soberania, porque toda a Ibéria deveria voltar a ser um só reino, como era nos tempos «áureos» da monarquia visigótica. Seria preocupante para todos os Portugueses, se bem que de algum modo expectável, já sabemos como são os Castelhanos.
Mas agora imagine-se mais... imagine-se que, em vez de ser a Espanha a dizer isso, era a... Polónia. A Polónia, com quem Portugal nunca teve qualquer conflito ou disputa territorial, tanto quanto sei. Imagine-se então que um novo governo polaco, ultra-católico, dizia que Portugal não devia existir porque, sei lá, Portugal tinha traído a Cristandade católica quando manteve aliança com Inglaterra, que se tornou protestante e passou a ser inimiga dos reinos católicos. Imagine-se ainda que a Polónia apoiava oficialmente movimentos terroristas que pusessem bombas em Portugal, assassinando intencionalmente mulheres e crianças portuguesas.
Como é que os Portugueses iriam encarar tal dimensão de ódio puramente ideológico da parte de um país sem histórico de conflito com Portugal, ou seja, sem quaisquer espécie de reivindicações territoriais tradicionais entre irmãos? Seria um pesadelo de ódio puro. Ódio puro e actuante. Ódio puro e potencialmente genocida.
E se, entretanto, a Polónia estivesse a enriquecer urânio já a 60%, podendo construir uma arma nuclear em questão de semanas? Eu da minha parte gostaria muitíssimo, mesmo muitíssimo, que os EUA, ou qualquer outro dos nossos aliados, bombardeasse pesadamente a Polónia e, se possível, lhe deitasse abaixo o regime, se tal fosse realmente possível. Seria um alívio do camandro, para dizer o mínimo.
É exacta e rigorosamente o que se passa entre Israel e o Irão - não são países vizinhos, não há entre eles disputas territoriais, nunca os Iranianos e os Israelitas estiveram em guerra antes de 1979, aliás, quem primeiro libertou os Judeus foi um dos maiores soberanos iranianos da História, Ciro, o Grande, rei da Pérsia. Agora, assim de repente, milénios depois, é do Irão que parte a maior ameaça de morte contra o país do Magen David, assim sem mais nem menos, por motivos estritamente ideológicos, ditados pelo Islão. Muito bananamente suicidário seria o Povo Israelita se não fizesse todos os possíveis para deitar abaixo o governo dos aiatolas.
Isto é o óbvio, o elementar, o gritantemente evidente, para qualquer nacionalista coerente ou pelo menos minimamente coerente.
Poder-se-ia então dizer que os Nacionalistas anti-sionistas são antropóides que fogem da coerência como o diabo foge da cruz, mas isto não seria de facto correcto, uma vez que há aqui uma diferença de monta - o diabo conhece a cruz, ao passo que estes «nacionalistas» nunca foram sequer apresentados à Sra. Coerência, se a virem na rua passam por ela sem fazerem ideia de quem possa ser, nem tampouco têm interesse nisso, não a acham sequer bonita.
Vai daí, dão largas a um dos ódios de estimação de muitos deles, o ódio contra o Judeu - aproveitam a onda anti-Israel esquerdista e ficam contentes por ver aumentado o seu rebanho anti-sionista, e o mais irónico é que, numerosas vezes, costumam ter a pretensão de apontar o dedo aos «carneiros». Ora um tipo destes é um carneiro de um rebanho a criticar outros rebanhos, quando não a pura e simplesmente acusar outrem daquilo que ele próprio é sem dar por isso, e não dá por isso porque a auto-consciência não lhe chega para tanto.
Se Israel um dia caísse, o que é que acontecia a seguir? Iam esquerdistas e «fachos» celebrar para o Marquês.
E no dia seguinte, como seria?
A Esquerda continuaria a celebrar, porque, a partir daí, milhões de judeus israelitas teriam de buscar refúgio na Europa, ou na América do Norte, e, assim, o sector das «minorias» étnicas em solo ocidental ficaria aumentado, como a Esquerda gosta, e, com jeitinho, começavam-se a adicionar mais e mais judeus ao «interseccionalismo» esquerdista, ou união «solidária» de todo o «oprimido» contra o homem branco cis hetero etc., o «mau da fita».
Os «nacionalistas», por seu turno, passariam a ter muitos dos exemplares do seu ódio de estimação ao virar da esquina, para os poderem culpar de tudo e mais um par de botas; não me engano muito se, daqui a uns anitos - para já, não, mas daqui a uns anitos - digamos, sete, oito anos, começassem a construir teorias de conspiração, a dizer que os Judeus fizeram de propósito para perder Israel, para depois poderem retornar à Europa como refugiados, quase que já «oiço» o estribilho, «pois é, quiseram um país só deles, mas correu-lhes mal, era uma chatice viver no deserto, depois sabotaram o seu próprio país!, quépara depois voltarem à Europa, c*brõ*s!, sempre com truques e planos!», e não faltariam a estes anti-semitas mil e uma «provas» com base em afirmações anti-israelitas da parte de esquerdistas judeus tiradas do contexto para «provar!» que «os Judeus!» queriam o fim de Israel...
E então, o que aconteceria depois na Europa? Exterminavam-se os Judeus? «Claro que não!», pois se certos ditos «nacionalistas» andaram décadas a insistir que não houve holocausto algum, «claro» que agora não iriam cair no cúmulo da imbecilidade contraditória de querer mesmo, mesmo, mas mesmo a sério, eliminar os Judeus, até lhes ficava mal, seria, digamos, aham, uma incoerência... talvez os quisessem expulsar para África, ou para as Arábias, dizendo «não houve holocausto, mas a gente queria que tivesse havido!!, eles que desapareçam!»...
Uma das coisas que todo o bom nacionalista passa a vida a dizer a todo o estrangeiro é «vai para a tua terra». Eu também digo «vai para a tua terra». Acho que se deve dizer isto mais vezes, muitas vezes, todos os dias - «vai para a tua terra, vai para a tua terra, vai para a tua terra e vai para a tua terra.» Ora os Judeus foram para a terra deles. Fizeram eles bem.
Então e agora não se podem defender na sua terra? Claro que o esquerdista acha que não, é coerente no contexto ideológico da Esquerda, mas só o nacionalista genocida é que também acha que não.
Um nacionalista europeu pode ser anti-semita e ser coerente. Um gajo é livre de não gostar deste ou daquele Povo, por idiota que possa parecer, ou não.
Um nacionalista não pode é ser anti-sionista sem perder a razão.
Falo desta maneira sobretudo para deixar estas reflexões registadas, não tenho grande fé em mudar a opinião dos anti-sionistas de serviço. Aliás, conhecendo-os como os conheço, se algum deles tiver tido o trabalho de começar a ler o texto, de imediato se «perdeu» na parte em que eu disse que todo o nacionalista europeu faria o mesmo que o Estado de Israel faz «... se estivesse no seu lugar» - adivinho-lhes o pensamento: «eu, no lugar de Israel?, foda-se!, eu caguei para Israel, eu nunca ia estar no lugar de Israel, eu 'tou na Europa!, foda-se!..., foda-se!..., nem pensar, eu quero é que eles morram todos!...» e assim, pois que usualmente é mesmo assim que se exprimem, começam por tomar a iniciativa de falar mal de Israel, ou, fulanizando, de Netanyahu, e quando se lhes pergunta «então mas estás do lado dos muçulmanos que o querem destruir?», respondem «para mim nem uns nem outros, não quero saber deles para nada», mas afinal quer realmente saber deles para alguma coisa, pelo menos sobre os Judeus quer evidentemente saber, ou nem começava a falar no assunto...