sábado, março 29, 2008

O GENOCÍDIO CRISTÃO DA PRÚSSIA

A primeira bandeira da Prússia, um dos estandartes mais antigos da Europa, representava os três Deuses principais do panteão nacional: da esquerda para a direita, Patulas, Deus dos Mortos, Perkunas, Deus do Trovão e Patrimpas, Deus da Fertilidade


O nome «Prússia» costuma evocar a mais militarista das Alemanhas. Na verdade, os verdadeiros Prussianos não eram alemães, mas sim um dos povos bálticos, parentes dos Lituanos e dos Letões.
Pertenciam por isso ao ramo balta da família indo-europeia, não ao germânico.
O primeiro reino polaco, cristão, tinha pretensões sobre as terras dos Prussianos, que se mantinham pagãos, isto no século X. Ao mesmo tempo, o papa mandou Adalberto de Praga (bispo da dita cidade) evangelizar a Prússia.
Os missionários cristãos tinham o costume de cortar as árvores sagradas dos pagãos, especialmente os carvalhos, como fizeram por exemplo na Saxónia. Uma vez que as árvores estavam no centro do culto gentio, e eram habitadas por espíritos, os missionários queriam com isto mostrar aos pagãos que nenhum poder sobrenatural protegia esta vegetação contra a acção cristã. Adalberto de Praga entrou na Prússia, juntamente com a sua comitiva cristã, e resolveu deitar mãos ao trabalhinho... os prussianos avisaram-no, disseram-lhe que se mantivesse longe dos santuários de carvalhos, mas o valente soldado do Crucificado fez orelhas moucas a tal advertência, e, vai daí, acabou por ser morto pelos pagãos em 997. Os cristãos passaram então a considerar Adalberto de Praga como um dos mártires da Igreja e até o canonizaram. De tal maneira o adoraram que o seu corpo foi comprado pelo rei polaco em troca do seu peso em ouro...
O papa enviou em seu lugar outro missionário, Bruno of Querfurt, que foi igualmente «martirizado», em 1009.

Por seu turno, os Polacos aumentaram os ataques contra os Prussianos, durante os dois séculos seguintes, sendo todavia diversas vezes derrotados pelos resistentes pagãos; genericamente falando, havia avanços e recuos de ambos os lados; alguns prussianos convertiam-se ao Cristianismo como resultado da guerra, mas, assim que se encontravam em paz, retornavam ao Paganismo. E, num dos avanços militares bem sucedidos dos pagãos Prussianos, em 1215, obrigaram os conversos a voltarem às crenças dos seus ancestrais.

Devido à escalada do conflito, o papa Honório III emitiu em Março de 1217 uma bula papal a autorizar o bispo de Cister Cristiano de Oliva a realizar uma cruzada, bispo este que já era auxiliado, não apenas pelos duques polacos, mas também pelo rei da Dinamarca. No ano seguinte, os pagãos prussianos continuaram em contra-ataque e saquearam trezentas catedrais e igrejas.

Os cavaleiros da Cristandade da região, sobretudo polacos e alemães, começaram a reunir-se e em 1222 lançaram finalmente a a Cruzada Prussiana, isto é, a guerra católica pela conversão dos pagãos prussianos.
Formou-se uma ordem militar de cavalaria para atacar os gentios, a Ordem de Dobrzyń (ou Dobrin), mas os contra-ataques pagãos liquidaram-na.
Igualmente batida foi a Ordem de Calatrava, que tinha um poiso nestas paragens.

Devido ao desaire militar destas ordens de cavalaria, a Cristandade mobilizou então a Ordem Teutónica, que em 1226 iniciou o seu ataque contra a Prússia pagã, em conluio com as forças polacas.
Foi inicialmente bem sucedida, embora tenha sofrido algumas derrotas; mas, a dada altura, uma grande rebelião pagã prussiana abalou seriamente o poder desta Ordem germânica.
Cavaleiros de toda a Europa cristã foram engrossar as fileiras da Cruzada Prussiana, que durou sessenta anos. Atacados de todos os lados, os Prussianos acabaram por soçobrar. Por ordem do papado, a Prússia foi dividida em quatro bispados e ocupada por colonos alemães e polacos. No dealbar do século XVI, a sua língua e identidade estavam extintas, restando apenas alguns manuscritos na língua indígena, documentos nos quais os missionários tentavam converter os pagãos na língua destes. Ou seja, se não fossem os monges cristãos, não se sabia nada da antiga língua prussiana... mais uma magnífica contribuição cristã para a cultura europeia, sem dúvida...

Para mais desenvolvimentos e considerações, recomenda-se a leitura deste artigo.

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quarta-feira, março 26, 2008

ROMUVA

Símbolo da Romuva - Austras Koks ou Árvore da Vida


Romuva significa «Santuário», ou ainda «Morada da Paz Interior», e é o termo com que mais frequentemente se designa a religião étnica da Lituânia. Fontes históricas do século XIV indicam que no centro das terras do Báltico (actual região de Kalininegrado) existiu em tempos o santuário que tinha a designação de Romuva, reverenciado por todas as nações bálticas, onde ardia o fogo sagrado.
Antigo Santuário de Romuva

A Lituânia é, juntamente com a Letónia, uma representante actual do ramo báltico da família indo-europeia. Romuva, é, como se disse, o nome que se dá à religião nacional na Lituânia. Na Letónia, a designação utilizada é «Dievturiba».

Quando há mil anos os vizinhos Eslavos (Russos, Polacos) foram dominados pelo Cristianismo, os Baltas mantiveram a sua religião étnica, isto é, pagã, por mais quatrocentos anos. Durante este período, estabeleceram um poderoso Estado de grande extensão territorial. A arcaica religião indo-europeia - base das culturas grega, romana, persa, hindu, céltica, germânica... - estava ainda viva nesta área da Europa, que, coincidentemente ou não, constitui o centro geográfico da Europa (não, o centro geográfico da Europa não é a chamada «Europa Central», mas sim a Lituânia, mais precisamente a sua capital, Vilnius). É um simbolismo interessante, no mínimo. Assim, o Fogo Eterno ardia ainda no templo pagão de Vilnius, e as pessoas ainda prestavam culto a Perkunas, Deus do Trovão, bem como a arcaicas Deusas da Terra. Os Baltas sempre veneraram muito o Fogo. O Fogo era por eles tido como sagrado e eterno. Parece tratar-se aqui duma característica tipicamente indo-europeia, já que o Fogo é igualmente essencial, ou mais ainda, no Irão ariano, onde simboliza o próprio Deus Máximo (Ahura-Mazda), tanto que os actuais sacerdotes persas até são chamados «Padres do Fogo»; e, de volta à Europa, é conhecida a importância crucial que o Fogo Sagrado tinha em Roma, pois que tanto o lar como a cidade tinham no seu centro o Fogo Sagrado, mantido e nutrido por um sacerdócio feminino excepcionalmente importante e inteiramente dedicado a tal missão, o das Vestais, sacerdotisas de Vesta, Deusa do Fogo do Lar e da Pátria. A palavra indo-europeia para dizer «Fogo» é entretanto comum a vários destes povos: na Índia ariana, origina o teónimo Agni, Deus do Fogo; entre os Eslavos, o Deus do Fogo chama-Se Ogoni; na Lituânia, o fogo chama-se «ugnis»; no Lácio, «ignis».
As tribos bálticas tinham santuários nas altas colinas e em margens de rios, onde uma chama sagrada era mantida, guardada por sacerdotes, e em cada casa ardia o fogo sagrado que nunca era extinto (exactamente como em Roma, repita-se).


Símbolo de Perkons, Deus do Trovão


Símbolo de Jumis, Deus da Colheita, que tem entretanto alguma semelhança com o latino Janus


Símbolo de Auseklis, Deusa da Aurora, etimológica e funcionalmente equivalente à latina Aurora e à helénica Ausos


Naturalmente que a Cristandade não podia tolerar que tal coisa continuasse a existir, fosse em que parte do planeta fosse. Por isso, o papa ordenou cruzadas contra os pagãos do Báltico.

No século XIV, o rei balta Gediminas - penúltimo líder pagão da Lituânia - decretou que a Lituânia deveria ser uma terra de tolerância, de acordo com a antiga tradição lituana. Ficou famosa a sua proclamação a respeito disto, datada de 1324: «Que toda a gente possa adorar os seus Deuses na Lituânia.»
Sucede que Gediminas nunca se deixou baptizar. E disse: «Que me dizem sobre os cristãos? Onde é que se encontraria mais mal, injustiça, crime, imoralidade e ganância do que entre os cristãos, especialmente aqueles que se apresentam a si mesmos como monges virtuosos, por exemplo, os cruzados, mas que cometem tantos crimes...»

Esta tolerância ingénua e sincera não salvou os Baltas de serem atacados pela Cristandade armada. Nos séculos XIII e XIV, os papas de Roma canalizaram forças conjuntas de vários Estados católicos contra o Báltico, forças estas que tinham na linha da frente a Ordem Teutónica, a Ordem dos Cavaleiros da Cruz e outras Ordens de cavalaria. A resistência dos Baltas contra a agressão cristã foi dura, mas não podia conter o poder dos números, das armas e do dinheiro utilizado por várias potentados militares europeus. Milhares de pessoas morreram, e pelo menos duas culturas foram destruídas (as dos Prussianos e dos Sudovianos, Baltas Ocidentais). A Lituânia foi o único Estado europeu que resistiu longo tempo à agressão das hostes do Judeu Morto, mas, constrangida e isolada, acabou por aceitar o Cristianismo em 1387. Mesmo assim, o seu rei Mindaugas só publicamente aceitou o Cristianismo, pois que, assim que se viu livre do sufoco militar imediato, renunciou ao baptismo e regressou ao culto dos antigos Deuses dos seus ancestrais, o que levou o papa a continuar a lançar as suas hostes contra a população desta parte da Europa.

Durante duzentos anos de guerra entre a Ordem Teutónica e os Lituanos, os cronistas mostraram-se chocados ao verem como os Lituanos davam as suas próprias vidas. A Ordem Teutónica conseguiu conquistar política e militarmente vários povos do Báltico, mas nunca conseguiu exercer sobre estes o domínio espiritual. Os aldeãos prussianos mantiveram-se pagãos até serem exterminados no século XVII, depois de terem aceite oficialmente o baptismo no século XIII, quando todos os ritos e costumes pagãos foram estritamente proibidos.

A conversão da Lituânia, no dealbar do século XV, afectou sobretudo a nobreza; a população em geral, pelo contrário, manteve as tradições dos seus ancestrais e persistiu secretamente na adoração aos seus Deuses por mais alguns séculos.
Efectivamente, nos séculos XVII, XVIII e XIX, crónicas e documentos de igrejas protestantes e católicas queixaram-se da prática disseminada do paganismo lituano e do desinteresse da população pelo Cristianismo. No XIX, embora a maioria dos Lituanos fosse nominalmente cristã - baptizados na infância - preferiam celebrar as antigas festividades e tradições folclóricas, enquanto a Igreja advogou sempre a destruição dos elementos pagãos.

Vários cronistas medievais descreveram algumas das características da religião báltica: cremação, crença na reencarnação, veneração de bosques sagrados, de árvores, de campos, de águas e do fogo, crença na existência de muitos Deuses e espíritos, oferendas sacriciais e adivinhações.

A tradição folclórica do Báltico - lituana e letã - está ainda hoje repleta de heranças evidentemente pagãs. O estrato cristão é recente e facilmente separável do acervo geral de elementos tradicionais. Para estudos de religião comparada, o valor do folclore lituano e letão é tão importante como o das línguas lituana e letã para a reconstrução da «Língua-Mãe» dos Indo-Europeus (e o Lituano é a língua viva mais puramente indo-europeia do mundo). Alguns dos traços folclóricos têm provavelmente raízes na Idade do Ferro ou até na pré-história.
Ritual báltico da Romuva - o salto sobre a fogueira parece ser uma antiga tradição indo-europeia, com paralelo no folclore português, por exemplo, e talvez até na tradição hindu de andar sobre as chamas.

Actualidade
No século XIX começou a recuperação consciente da religiosidade pagã báltica.
O mais importante aspecto deste restauro foi o renovado interesse na Lituânia pelo seu folclore. A antiga religião pagã, étnica, nacional, começou a ser cada vez mais formalmente identificada como parte integral da consciência nacional lituana.
A primeira organização pagã lituana, Visuomybe, estabelecida em 1929, com centro em Romuva (antigo santuário pagão), foi desmantelada e severamente perseguida durante a ocupação soviética.
Mas nas décadas de sessenta e setenta, assistiu-se na Lituânia ao retorno do interesse pelas tradições arcaicas, sobretudo na essência pagã das mesmas. Formaram-se por isso muitos grupos folclóricos. Chegou mesmo a registar-se um retomar das actividades pagãs da Romuva, em 1967, mas em 1971 o Estado Soviético suprimiu-as. Acabaram todavia por sobreviver e começaram a ser toleradas a partir de 1988. Os activistas da Romuva eram apoiados por vários intelectuais, entre os quais a famosa historiadora Marija Gimbutas, que entretanto se estabeleceu nos EUA. A Romuva começou a organizar conferências, campos de Verão e protecção de monumentos históricos e da Natureza. Estas actividades granjearam o apoio da população lituana. O governo limitou-se a reconhecer formalmente a organização Romuva, sem todavia a financiar. Há discussões no Parlamento Lituano a respeito da possível inclusão da Romuva na categoria das religiões tradicionais. A Romuva da Lituânia abarca dez comunidades e tem vários milhares de membros. É liderada por Jonas Trinkunas, que em 2002 foi nomeado «Krivis», ou sumo-sacerdote da Romuva.
Em 1991/92, surgiram várias congregações da Romuva, não apenas na Lituânia, mais especificamente em Vilnius e em Kaunas, mas também no seio das comunidades lituanas emigradas, nomeadamente nos EUA (Chicago, Boston) e no Canadá (Toronto).
Doutrina
Grande parte do trabalho de reconstrução da Romuva baseia-se no calendário folclórico: as festividades tradicionais foram analisadas, a literatura etnográfica foi estudada, alguns aspectos foram eliminados; as explicações «tradicionais» dos feriados foram rejeitadas por estarem manchadas de Cristianismo; e, preenchendo o vazio deixado, averiguou-se que alguns dos dias santos eram realmente consagrados a Deuses antigos. O estudo do rico e vasto repertório de canções sagradas (dainos) desempenha um papel preponderante neste Renascimento Sacro, bem como a busca pela Harmonia (Darna), o que, note-se, tem bom paralelismo com a Pax Deorum (Paz dos Deuses, isto é, harmonia entre os homens e as Divindades, objectivo principal do ritual romano). Ao cantar as dainos, os romuvianos acreditam que as suas almas são purificadas e as mentes inquietas são tranquilizadas e «fixadas». As canções também expressam e fazem sentir a re-ligação ao Cosmos e devolvem ao homem a Liberdade. Por essas e por outras é que a KGB tanto odiava estas canções folclóricas.
A realização espiritual é também alcançada por meditação na Natureza. Afirma a Romuva que o homem é posto na Terra para aprovar o mundo, não para o rejeitar, por isso a espiritualidade é encontrada na vida activa e na participação espiritual, com especial destaque para a ética (Dora).
A Romuva presta culto a uma realidade suprema, que inclui o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, a família e a tribo, incluindo todos os ancestrais, toda a Natureza e todo o Universo. Proclama que não há inferno eterno, nem danação, nem salvação eterna - apenas a continuidade da vida na presença da Divindade. Aceita todos os caminhos espirituais genuínos. Cada alma é livre de procurar o seu próprio caminho, seja por devoção, por meditação ou por serviço à sociedade. Os festivais, as peregrinações, a entoação dos hinos sagrados (dainas) e o culto caseiro são práticas altamente valorizadas.
A Romuva ensina também a reverência por todas as formas de vida.

Uma característica central desta Fé é o Fogo Sagrado que, alimentado em todo e cada lar.

Esta religião entende que os diferentes pares da Natureza, tais como luz-trevas, fogo-água, homem-mulher, não implicam necessariamente uma relação de bem-mal. Os pares opostos não são estáticos. Pelo contrário, além de interagirem, também mudam e crescem. Não há Deuses absolutamente bons ou absolutamente maus. O Bem nasce da interacção de forças diferentes mas não hostis, com a interacção do homem. O Mal, ou Blogis, é a queda da harmonia, ou quebra da Darna. A Darna não é inalterável, porquanto depende dos esforços do homem e dos seus Deuses. O conceito báltico de Darna é similar ao hindu de Dharma.

A professora Eugenija Shimkunaite explicou em 1970 o significado desta restauração: «Quando o mundo entra numa situação crítica, é tempo de procurar as nossas raízes. Não houve grandes mudanças culturais na Lituânia, não houve grandes invasões. Estes dados, lembrados por nós, irão um dia provar-se úteis na reconstrução dum mundo saudável. Somos o povo mais europeu de todos (como a Ciência confirma). Olhemos para nós próprios, para a nossa sacralidade. Muitas coisas são sagradas para nós: os lagos, os rios, os dias, etc.. Nem a servidão nos conseguiu quebrar.» Estas palavras galvanizaram os romuvianos e muitos outros folcloristas da época - e, acrescento eu, são susceptíveis de inspirar todos os bons pagãos europeus.




Lançar uma semente para o futuro

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