quarta-feira, junho 24, 2026

«SÓ TEREMOS CÁ MESQUITAS QUANDO NA ARÁBIA SAUDITA CONSTRUÍREM IGREJAS!»

Trata-se de um estribilho que muito se lê por aí nas redes sociais, disseminado por nacionalistas e patriotas europeus da vertente mais populista. Afigura-se bem intencionado - revela-se, todavia, traiçoeiro. 

É verdade que na Arábia Saudita não se podem construir quaisquer templos religiosos que não sejam mesquitas, uma restrição que se deve ao facto de o país ter no seu território Meca e Medina, as duas cidades mais santas do Islão, e de Maomé ter escrito, num «hadith» (declaração atribuída ao profeta do Islão), que «não devem coexistir duas religiões na Península Arábica». É também verdade que em mais três países muçulmanos está proibida ou praticamente inviabilizada a construção de igrejas - ou qualquer outro templo não muçulmano: Afeganistão, Somália e Maldivas.
Sucede, entretanto, que, na maioria dos países muçulmanos, é oficialmente permitida a construção de igrejas: Emirados Árabes Unidos, Catar, Barém, Omã, Kuwait, Jordânia, Líbano, Síria, Iraque, Egipto, Turquia, etc.. Se uma comunidade turca quiser construir em solo europeu uma mesquita paga pelo governo turco, como é que se faz, diz-se «não vamos aceitar essa construção turca porque na Arábia Saudita não deixam fazer igrejas!» ? Como se costuma dizer, o que tem o cu a ver com as calças, ou, melhor dizendo, o que tem um cu a ver com outro? 
Aliás, por essa ordem de ideias, também os muslos podem dizer que vários Estados europeus não têm mesquitas, sendo que em dois deles está proibida ou inviabilizada a construção de tais locais de culto: um, o Vaticano, por motivos óbvios, outro, a Eslováquia, que há pouco tempo, 2017, passou a ter
 leis de registo religioso extremamente rígidas (exigindo dezenas de milhares de assinaturas de cidadãos filiados) que impedem o Islão de obter o estatuto de religião oficial, inviabilizando a concessão de alvarás para erguer templos. A comunidade utiliza centros culturais discretos para rezar. [1, 2, 3], conforme informação da IA, e esta alteração legislativa foi frontalmente proposta e descrita pelo Partido Nacionalista Eslovaco, SNS, como forma de travar o Islão - conforme diz a IA, «o líder do partido SNS, Andrej Danko, declarou abertamente na altura que a lei era uma medida preventiva necessária para garantir que nenhuma comunidade muçulmana pudesse alguma vez registar-se oficialmente, construir mesquitas ou ensinar o Islão nas escolas públicas do país. [1, 2]»

Já agora - e se, por mais estranho que parecesse, a Arábia Saudita, o Afeganistão, etc., passassem a admitir a construção de igrejas no seu território, como é que era? Iriam os patriotas da Europa aceitar doravante a construção de mesquitas nos seus respectivos países europeus?

Repare-se que os muçulmanos tinham provavelmente muito mais a ganhar com esta reciprocidade do que os cristãos. Na Europa, as igrejas esvaziam-se - porque se encheriam nas Arábias? Enquanto isso, a religiosidade dos muçulmanos em solo europeu aumenta, quase tanto como aumenta a sua explosiva natalidade. 

Deixe-se pois de lado essa conversa que, de resto, até pode interessar aos cristãos, sempre a postos para ir evangelizar tudo o que puderem, indiferentes às fronteiras étnicas; mas não interessa, seguramente, aos nacionalistas europeus. 

Qual deve então ser o critério? Mais coisa menos coisa, deve aplicar-se o raciocínio de John Locke - todos os credos devem ser tolerados, mas aqueles cuja doutrina é contrária à segurança do Estado devem ser vigiados de perto, quando não suprimidos, e deu como exemplo precisamente o de um súbdito muçulmano de um príncipe cristão europeu (no século XIX): politicamente, o súbdito devia lealdade ao soberano europeu, mas, religiosamente, devia obedecer ao sultão turco, tornando-o potencialmente subversivo, um potencial membro de uma possível quinta-coluna, um potencial inimigo interno. 

De resto, para que servem as mesquitas? Os poucos alógenos que poderão estar em solo europeu de um país nacionalista precisarão de uma mesquita para quê se puderem rezar no seu domicílio, enquanto durar o seu contracto de trabalho nesse país?...