terça-feira, setembro 26, 2017

EXPOSIÇÃO SOBRE CITAS NO REINO UNIDO REVELA PRIMEIRO ROSTO CITA RECONSTITUÍDO



Foi inaugurada a 14 de Setembro no Museu Britânico de Londres a exposição «Scythians - Warriors of Ancient Siberia», ou «Citas - Guerreiros da Antiga Sibéria», organizada em coordenação com o Museu Hermitage da cidade russa de São Petersburgo. Uma das mais valiosas peças da exposição é a múmia de um cita (imagem acima), de cerca de dois mil anos de antiguidade, que foi enterrado juntamente com uma mulher que provavelmente seria a sua amante.
Até agora a cabeça mumificada do cita estava coberta com uma máscara de argila, motivo pelo qual só se podiam adivinhar os traços faciais deste antigo guerreiro. Na exposição londrina, entretanto, os investigadores do museu de S. Petersburgo puderam usar um tomógrafo para melhor a observarem. Pôde agora ver-se que o indivíduo tinha dentes finos, bigode e cabelo ruivos, pelo menos uma orelha furada e uma ferida na cara que ia do olho ao extremo da mandíbula e que tinha sido cuidadosamente curada. O topo do seu crânio tem um buraco pelo qual se lhe extraiu o cérebro aquando do processo de mumificação. 
Junto ao guerreiro encontra-se uma câmara funerária, coberta de madeira, contendo o corpo de uma mulher que morreu de morte violenta, talvez para seguir o homem no caminho além-túmulo, o que bate certo com a informação que se pode ler na obra do historiador grego Heródoto segundo a qual os Citas matavam as concubinas dos guerreiros para que estas se juntassem a eles na tumba, fazendo o mesmo a serventes e a cavalos. Igual tradição se verifica entre os Víquingues, segundo o viajante árabe que presenciou uma cerimónia semelhante na Escandinávia; entretanto, ainda no século XIX as mulheres hindus praticavam o sati, suicídio ritual que lhes permitia juntar-se aos maridos mortos.
Os Citas, estirpe bárbara nómada ou semi-nómada do ramo irânico da família indo-europeia, viveram ao longo do primeiro milénio a.c. numa vasta área entre a Sibéria e o Mar Negro. Os testemunhos dos observadores antigos representam-nos geralmente como ruivos (às vezes loiros) de olhos claros (azuis, verdes, cinzentos). Salientavam-se pela sua excepcional habilidade no combate a cavalo e no tiro com arco; a sua extrema ferocidade em batalha era famosa; consta que bebiam o sangue dos inimigos. Usavam chapéus pontiagudos, usavam também torques (como os Persas, igualmente irânicos, e os Celtas), fumavam marijuana e faziam tatuagens. 
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Fontes: 
 - https://actualidad.rt.com/actualidad/250272-restaurar-cara-escita-novia
 - http://www.iflscience.com/editors-blog/gaze-at-the-face-of-a-2000yearold-scythian-warrior-from-siberia/

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Vaso cita em electrum, peça do Tesouro de  Kul-Oba (Museu Hermitage, S. Petersburgo), obra de arte cita na qual se pode ver um indivíduo a auxiliar outro a fazer o que parece ser uma ligadura de perna
Reconstituição de uma vestimenta da realeza cita encontrada no Casaquistão

Mercê da sua grande fama como poderosos bárbaros da Antiguidade ou por outro motivo qualquer, são mencionados nas literatura mítica irlandesa como constituindo a raiz das principais raças invasoras da Irlanda, nomeadamente 
- a do Clã de Nemed («Nem» significa «Céu» e «Sagrado» na língua celta antiga), 
 - a dos Tuatha Dé Danann (Povo da Deusa Dana) que constituem a maioria dos Deuses mais importantes da Irlanda e que descendiam de Nemed, embora fossem mais directamente oriundos de ilhas a norte da Irlanda,
 - a dos Filhos de Mil, ou Miles Easpáin, estirpe originária da Ibéria mas cuja raiz se situava, mais uma vez, na Cítia. Como já foi referido neste blogue, contam lendas medievais que o fundador de Portus Cale seria Gatelo, antepassado dos Miles Easpáin ou Milésios, cujo ancestral mais antigo era, repita-se, da Cítia. 
Por coincidência ou não, um dos ritos que Estrabão atribui aos Lusitanos, a saber, o sacrifício aos Deuses da mão direita dos prisioneiros inimigos para que fossem oferecidas aos Deuses, é notoriamente similar ao rito do sacrifício do braço direito dos inimigos vencidos ao Deus da Guerra dos Citas (o «Ares» cita, sendo que a designação «Ares» constitui aqui uma interpretação grega, mas é interessante referir que uma Divindade marcial irânica tem o nome de Arash), conforme a descrição de Heródoto. Entretanto foi encontrado na região da antiga Celtibéria um monumento no qual se pode ler o nome do Deus da Guerra celtibérico Neitin e se vêem vários baixos-relevos de mãos direitas; na Irlanda, Neit ou Net é também um Deus da Guerra, havendo quem diga que é o mesmo que o mais conhecido Nuadu ou Nuada, o do Braço/Mão de Prata, assim chamado porque ao perder o braço/mão direito/a em combate recebeu uma prótese em prata. A grande arma de Nuadu é a espada - e, na Cítia, o Deus da Guerra é representado como uma espada no cimo de uma rocha (e é possível que o mito de Excalibur tenha chegado à Grã-Bretanha através dos cavaleiros sármatas aí estabelecidos durante o domínio romano, e os Sármatas eram parentes próximos dos Citas...). Na Escandinávia, o Deus da Guerra Tyr, é igualmente maneta, tendo sacrificado a mão direita numa situação de confronto. 

Os Citas, que, tinham estátuas de pedra (imagem acima) similares às dos guerreiros castrejos, prestavam ainda culto a um Deus do Céu soberano e a uma Deusa do Fogo do Lar - Tabiti - tal como outros Povos indo-europeus, a saber, os Baltas, os Gregos e os Romanos.