terça-feira, dezembro 01, 2015

SALÁCIA, PADROEIRA DE ALCÁCER DO SAL E PROTECTORA DO POVO


Dia I de Dezembro é consagrado a SALÁCIA, Deusa ligada à água salgada, e ao culto de NEPTUNO, do Qual SALÁCIA é esposa, em reflexo latino do par divino helénico ANFITRITE-POSEIDON.
A etimologia de SALÁCIA aponta para uma ligação ao acto de saltar, pular, aludindo ao movimento das águas do mar, bem como dos rios.

Neste site há uma lenda popular interessante narrada pelo Dr. Rocha Martins em 1935 (texto a itálico):
Na verdade, ao que parece, Alcácer do Sal foi fundada pelos lusitanos no ano Vlll de César, isto é trinta anos antes de Cristo, atribuindo-a a uma lenda que reza o seguinte: Bugud, califa africano, invadiu a Lusitânia, pondo as povoações a ferro e fogo. Havia na região de Alcácer, um tempo dedicado à deusa Salácia (um dos nomes da deusa Diana), que foi profanado pelos africanos. Quando estes se faziam ao mar, porém, um grande temporal destruiu as embarcações, perecendo no naufrágio a maioria dos invasores, e perdendo-se as riquezas roubadas. Os lusitanos viram no acontecimento um milagre da Deusa, e fundaram uma vila a que deram o nome de Salácia. Há também uma corrente de opinião para quem o nome de Salácia se referia, não à Deusa, mas à abundância de sal existente na região."

Antes de ler este texto, aqui a itálico, não tinha conhecimento de que SALÁCIA pudesse de algum modo estar relacionada com DIANA, Deusa Lunar do Bosque, que, tanto quanto sei, nunca teve nada a ver com o mar. No entanto, a menção do Seu nome nesta lenda pode indicar que havia na Lusitânia um extenso culto desta Divindade, ou, talvez, de uma Divindade lusitana que Lhe fosse de algum modo equivalente. No entanto, a menção do Seu nome nesta lenda pode testemunhar a relevância do culto a Diana na Lusitânia, ou, talvez, a uma Divindade lusitana que Lhe fosse de algum modo equivalente. Esta Divindade indígena pré-romana pode bem ser NÁBIA, no dizer do arqueólogo Cardim Ribeiro, neste seu artigo http://ifc.dpz.es/recursos/publicaciones/30/23/04cardimribeiro.pdf, do qual retiro o seguinte trecho, a itálico, referente a NÁBIA:
«Porventura estaríamos perante uma deusa triforme — e trifuncional — correspondente ao protótipo indo-europeu que poderemos designar como de tipo Ártemis, ou seja, simultaneamente celeste (sendo a Lua), vinculada à aretê (sendo uma virgem guerreira) e fecunda (a deusa também é ninfa). Esta divindade, quando consagrada em todas as vertentes da sua complexa personalidade, recebia uma oferenda composta por três diferentes animais, cada qual correspondente a um diferente nível funcional. É isto que podemos ver, por exemplo, na invocação saguntina a Diana Maxuma, a quem se oferece vaccam, ovem albam, porcam (CIL II2, 14, 292). O início da ara de Marecos traduz uma situação basicamente idêntica, constituindo aliás, na nossa opinião, um dos mais sólidos argumentos para se aceitar a hipótese expendida por Melena 1984, 244-245, quanto à inclusão de Nabia no referido arquétipo de deusa trifuncional, em paralelo com Diana e com Ártemis. Em Marecos a deusa é sucessivamente invocada como: O(ptimae) V(irgini) Co(nservatrici) et Nim(phae) Danigom, Nabiae Coronae, que recebe vacca(m) bovem; e Nabiae sem quaisquer epítetos, à qual se sacrificou agnu(m)
Tem especial interesse, digo eu, esta possibilidade de equivalência entre Nábia e Diana, uma vez que explicaria a profusão de referências folclóricas, populares, numa palavra, tradicionais, a esta última Divindade romana, isto a vários níveis sócio-culturais:
- as Janas, espíritos femininos segundo o folclore nacional, serão eventualmente derivadas, etimologicamente, de Diana;
- na «Crónica Geral de Espanha», considera-se que o nome «Lusitânia» radica em «Diana» (por causa dos jogos dedicados a Diana por Hércules, segundo o mito romano-hispânico);
- o mito de Salácia em Alcácer do Sal, considerada como outro nome de Diana;
- a atribuição do templo de Évora a Diana (não é ainda sabido a que Divindade seria consagrada o referido edifício). 

O que por outro lado parece testemunhado no mito relatado por Rocha Martins é a intolerância totalitária muçulmana para com o Paganismo que talvez existisse ainda nas regiões hispânicas mais interiores no dealbar do século VIII, ou não fosse o Islão o irmão mais novo, e ainda mais radicalmente totalitário, do Cristianismo. Não é de todo impossível que tenha havido muito património pagão ibérico a ser destruído pelos sequazes de Mafoma, pois que o Paganismo (shirk, adoração de Outros que não Alá) constitui, na religião muçulmana, um crime dos maiores senão o maior.

Enquanto houver Portugueses, de resto, está viva a cepa hispano-romana que tem na sua herança etno-religiosa o culto a esta e outras Divindades latinas e/ou autóctones pré-romanas.