terça-feira, janeiro 27, 2026

NOVO ESTUDO INDICA QUE A LUSITÂNIA FOI MAIS NEGOCIADA DO QUE PROPRIAMENTE CONQUISTADA PELOS ROMANOS

Um estudo académico recente, publicado na revista Hispania Antigua pelo pesquisador Eduardo Sánchez Moreno, da Universidade Autónoma de Madrid, desafia a visão tradicional da conquista romana da Península Ibérica. O trabalho concentra a sua análise no período turbulento entre o fim da Guerra Viriata (139 a.C.) e o fim do Conflito Sertoriano (72 a.C.), e propõe um modelo de interacção muito mais complexo do que um simples confronto entre conquistadores e conquistados.
A pesquisa situa-se na bacia do rio Tejo, na Extremadura, região que se encontrava então nas margens setentrionais da província romana da Hispânia Ulterior. Longe de ser uma fronteira nítida, este espaço tornou-se no que o autor denomina, utilizando um conceito do historiador Richard White, uma terra intermediária. Ou seja, um ambiente física e socialmente muito partilhado, onde romanos, itálicos, lusitanos, vetões e possivelmente grupos deslocados de outros lugares se confrontavam, mas também conviviam, comerciavam e negociavam.
Um dos pilares do estudo é a crítica aos estereótipos que as fontes literárias greco-romanas transmitiram sobre os Povos da península ocidental. Sánchez Moreno observa que o clichê do "banditismo" lusitano tem sido um fardo historiográfico que, por muito tempo, distorceu, simplificou e até anulou a capacidade política, económica e militar dessas sociedades. O artigo argumenta que, longe de serem hordas desorganizadas, Lusitanos e Vetões eram comunidades complexas. Viviam em ópidos (assentamentos fortificados) e castros, eram liderados por aristocracias guerreiras, mantinham redes de troca de longa distância que alcançavam o Mediterrâneo e o Atlântico, e possuíam as suas próprias estruturas institucionais, como assembleias e magistrados. Não careciam de tecido urbano […] nem eram institucionalmente desarticulados […] nem geograficamente isolados, afirma o texto. A sua participação em grandes campanhas militares, como as incursões no vale do Guadalquivir ou a sua aliança com Sertório, deve ser lida, segundo o autor, em termos de conectividade (militar, diplomática, territorial, cultural…) e não como meros ataques lusitanos.
O estudo reconhece a grande limitação das fontes escritas para esse período: elas são escassas, fragmentárias e carregadas de preconceitos. Os relatos de Apiano ou Plutarco oferecem vislumbres, muitas vezes focados em anedotas ou julgamentos morais, mas deixam enormes lacunas.
No entanto, esta obscuridade está a ser iluminada por duas ferramentas essenciais: a epigrafia e, sobretudo, a arqueologia. A descoberta mais significativa é o Bronze de Alcântara (104 a.C.), um documento excepcional que regista os termos da rendição (deditio) de um Povo, os Seano (ou Seanocii), ao governador romano Lúcio Céstio. Este documento não só comprova a existência de negociações formais, como também detalha as suas condições: a comunidade entrega prisioneiros e cavalos, mas recupera as suas terras, leis e edifícios, sob a cláusula de que tudo permanece válido enquanto o povo e o Senado Romano assim o desejarem. Trata-se de um pacto revogável que estabelece uma relação de submissão, mas também de certa autonomia tutelar.
Além disso, os avanços na arqueologia militar republicana estão a revelar uma presença romana mais complexa do que uma simples linha de batalha: acampamentos, pequenas fortificações, moedas e cultura material itálica dispersas por todo o território. Isto evidencia uma presença militar não apenas ofensiva, mas também de controle e vigilância em território instável.
O sítio principal desta pesquisa é o povoado de Villasviejas del Tamuja (Botija, Cáceres). Este castro, identificado com a casa da moeda celtibérica de Tamúsia, é apresentado como um cenário paradigmático dos processos de interacção.
O sítio arqueológico apresenta sinais de ocupação desde o século IV a.C., mas é entre o final do século II e a primeira metade do século I a.C. que ocorre uma transformação notável. As suas defesas são reforçadas, novos materiais aparecem e, sobretudo, a sua principal necrópole, El Romazal I, oferece um testemunho fascinante: as suas oferendas funerárias incluem armas de tipo celta (espadas de La Tène), arreios de cavalos e objectos de prestígio itálico-romanos, como uma espectacular cabeçada de cavalo de bronze e estrígilos (instrumentos de banho).
O que significa isto? Para Sánchez Moreno, é altamente provável que tenha havido uma presença temporária de tropas auxiliares, com componentes mistos, no assentamento. Não se tratava de uma substituição da população local, mas de uma coabitação entre os nativos Vetões e contingentes estrangeiros (talvez celtiberos, itálicos ou romanos) em contexto de pressão militar. O Recinto B, que domina visualmente o assentamento original (Recinto A), poderia ter sido um espaço restrito para esta guarnição, um exemplo do exército romano "oculto" ou "silencioso" integrado em habitats preexistentes.
Esta hibridização também se manifesta noutros indicadores: grafites que misturam escrita paleo-hispânica e latina, possíveis símbolos de hospitalidade (pactos de aliança) e as próprias moedas de Tamúsia, cunhadas inicialmente com inscrição em alfabeto celtibérico e posteriormente numa série bilíngue com latim. Trata-se da materialização de um espaço misto, uma verdadeira “terra do meio” onde identidades e lealdades eram negociadas.
O artigo também analisa outra dinâmica crucial da época: os deslocamentos populacionais forçados. As fontes mencionam a realocação de comunidades por comandantes romanos, como os lusitanos reassentados por Júnio Bruto ou os sobreviventes da cidade de Lauro, deportados para a Lusitânia por Sertório após a sua vitória em 75 a.C.. Estes movimentos, forçados ou negociados, contribuíram para a pacificação, a colonização estratégica e a reconfiguração do mapa populacional da região.
O conflito sertoriano (82-72 a.C.) é visto como um momento culminante desta complexidade. Longe de ser apenas um capítulo da guerra civil romana na Hispânia, foi um conflito multifacetado no qual as comunidades indígenas não eram meros figurantes. A embaixada lusitana enviada a África para buscar Sertório como líder, a entrega simbólica da corça branca como gesto de lealdade, ou a contribuição de milhares de soldados de infantaria e cavaleiros hispânicos para o seu exército, são factos que o autor defende interpretar como evidência da intervenção activa dos Povos indígenas, com as suas próprias estratégias e cálculos políticos dentro do conflito romano.
A pesquisa conclui que, no vale do Tejo, entre 139 e 72 a.C., não ocorreu uma conquista linear e unidireccional. Em vez disso, houve um processo de interacção múltipla, negociação plural e acomodação, marcado pela coerção militar romana, mas também pela capacidade de acção das populações locais.
O autor defende a superação definitiva da visão dos Lusitanos e Vetões como Povos primitivos e passivos. A sua interacção com Roma foi a de sociedades complexas que, em contexto de grande tensão e violência, empregaram diversas estratégias: resistência, negociação de rendições, aliança militar com facções romanas e convivência prática em espaços partilhados.
A frase que talvez melhor resuma o espírito do estudo é aquela que critica a visão tradicional: o que aconteceu não foi tanto a implantação de um actor político sobre os outros ou a relegacão de substratos culturais […] mas sim uma coexistência complexa, uma negociação plural e poliédrica não isenta de episódios violentos.
Em última análise, a obra de Sánchez Moreno pinta um retrato muito mais rico e humano da transição para o domínio romano. A Lusitânia não foi simplesmente ocupada; era uma terra intermediária onde, entre a ansiedade e a violência, os alicerces de uma nova província foram tecidos através da força, do diálogo e da hibridização.
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Agradecimentos a quem aqui trouxe esta notícia: https://www.labrujulaverde.com/en/2026/01/lusitania-was-not-conquered-it-was-negotiated-a-study-reveals-the-complex-interaction-between-romans-and-indigenous-peoples-in-the-tagus-valley/

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Talvez por estas e por outras tenhamos uma língua cuja sonoridade parece mais leste-europeia do que mediterrânica, se calhar foi porque sempre houve aqui uma resistência interior e um subsequente distanciamento que as armas romanas nunca conseguiram cruzar, sabe-se lá...
De uma maneira ou doutra, a verdade é que a nossa língua é latina, pelo que o poder das armas acaba sempre por ser soberano. Dois mil cento e tal anos depois, as leis da existência humana ainda não mudaram grande coisa no que diz respeito a tão incontornável evidência.