segunda-feira, novembro 11, 2019

AUTORIDADES ALARMADAS PELO AUMENTO DO DISCURSO «RADICAL» DE AGENTES DA POLÍCIA NAS REDES SOCIAIS

Nesta semana, a página no Facebook do Movimento Zero, dinamizado por elementos da PSP e da GNR sob anonimato, ultrapassou os 50 mil seguidores. Só nos últimos dois meses aumentou em cerca de 166%. E é a oitava página de propaganda política mais activa no conjunto que é seguido pelo centro de investigação do MediaLab do ISCTE, que trabalha com o Diário de Notícias na monitorização de propaganda e desinformação nas redes sociais.
Este movimento anónimo de polícias criou também, a 23 de Outubro, uma página online alojada na Amen, de "titular confidencial". Isto tem um significado: os líderes do "movimento" pretendem manter-se sob anonimato, online - mesmo dispondo de direitos sindicais que protegem o seu discurso crítico -, ao mesmo tempo que montam todos os passos para uma eficaz campanha de propaganda. Já têm um site, anónimo, páginas nas redes sociais, sem autores reconhecíveis, e uma rede de influência que chega a mais de 500 mil utilizadores do Facebook.
Um dos textos mais partilhados por esta página no Facebook teve mais de 3500 partilhas. Se cada utilizador tiver, em média, 150 amigos (o número oficial da rede social para o Reino Unido, que é o único revelado), o texto chega a mais de meio milhão de utilizadores em Portugal. Como é comum nesta página, que se dedica a mostrar os alegados sinais de uma violência constante nas ruas e da dificuldade que os polícias têm para exercer o seu trabalho, este é texto sobre um caso-limite: o de um suicídio, que o Movimento Zero atribui à responsabilidade dos "governantes": "Mais um dos nossos que parte, colocando termo à vida no seu local de trabalho, com a sua arma de serviço. Será que os senhores governantes vão continuar a ignorar o flagelo que se vive nas Forças de Segurança?"
Crescimento do Movimento Zero no Facebook
Crescimento do Movimento Zero no Facebook© MediaLab/ISCTE
O aproveitamento político deste suicídio foi automático, com a página do partido Chega-Elvas a republicar o texto do Movimento Zero. Noutros grupos deste tipo, no Facebook, o suicídio do agente é atribuído a razões políticas: "Até quando seremos reféns da Esquerda totalitária?" O mesmo aconteceu com outro texto destes polícias sob anonimato, que foi replicado pelo Grupo de Apoio a André Ventura. O truque é sempre o mesmo, nestas páginas propagandísticas e de desinformação: ninguém sabe, com rigor, o que aconteceu ao agente que se suicidou (houve mais de 130 suicídios de agentes policiais desde 2000, com vários governos em funções, de esquerda, de centro e de direita). Mas a conclusão, apressada, é servida por perfis anónimos, que apontam um culpado.
O objectivo destas publicações é claro: mostrar que Portugal vive um "flagelo" de insegurança. Essa é, desde logo, uma forma clara de desinformação. A criminalidade violenta desce há mais de dez anos consecutivos. Todos os índices de segurança revelam que Portugal está no topo das listas de países menos violentos do mundo. Em Junho, o Índice Global de Paz 2019 colocou Portugal na terceira posição, apenas atrás da Islândia e da Nova Zelândia. Um dos indicadores que medem essa segurança é o da "baixa taxa de criminalidade". Mas o Movimento Zero quer mostrar uma realidade alternativa. Em vários textos explica o que pretende: "O terceiro país mais pacífico do mundo, DIZEM ELES... (Justiça mais severa, precisa-se! )"
Crescimento do Movimento Zero no Facebook
Crescimento do Movimento Zero no Facebook© MediaLab/ISCTE
O crescendo da onda de apoio - para já ainda só evidente nas plataformas digitais - explica a preocupação que se instalou ao mais alto nível das autoridades de segurança que se deparam com um movimento inédito de polícias (GNR, Guarda Prisional, Polícia Judiciária e PSP) em que "não há rostos, não há vozes, não há sindicatos, não há postos, não há categorias". Mas os seus protestos contra o governo, reivindicações por uma maior protecção dos polícias e publicações de revolta pelas condições de trabalho, contra o governo, têm garantido uma legião de fãs nunca atingida pelos sindicatos oficiais.
SIS e PJ preocupados
"Estamos a levar muito a sério o Movimento Zero", assume uma fonte do Serviço de Informações de Segurança (SIS) que está a acompanhar a evolução daquela organização. Apesar do anonimato, tanto as secretas como o departamento de informações da PSP sabem que estão a lidar com um movimento cujo núcleo duro é dinamizado por polícias, de base e oficiais, com acesso a informações privilegiadas internas das respectivas forças de segurança. Ao contrário dos sindicatos, oficialmente registados, com rostos e representantes, o que escrevem, o que afirmam ou publicam sob anonimato, dificilmente levará - não levou até agora pelo menos - a qualquer processo disciplinar ou criminal.
A empatia que o Movimento Zero desencadeia junto de adeptos da extrema-direita, como ao Chega, de André Ventura, não é ignorada pelo SIS nem pela PJ, que monitorizam os movimentos extremistas.
Crescimento do Movimento Zero no Facebook
Crescimento do Movimento Zero no Facebook© MediaLab/ISCTE
O grande teste sobre a real capacidade de mobilização do Movimento Zero, fora das redes sociais, pode acontecer no próximo dia 21, na manifestação promovida pelas duas maiores estruturas sindicais da PSP e da GNR, que terminará junto à Assembleia da República. A data não passou despercebida às autoridades: em 2013, as escadarias foram invadidas por dezenas de polícias no final de um protesto, provocando uma das maiores crises políticas no setor da segurança durante o governo PSD-CDS e que culminou com a demissão do então director da PSP, Paulo Gomes.
"A escolha deste preciso dia, por todo o simbolismo de desafio ao Estado que representa, não foi com certeza coincidência", reconhece a mesma fonte dos serviços de informações. Na PSP, a contenção de uma nova invasão das escadarias do Parlamento é um dos cenários que fazem parte do plano de operações daquele dia. "Em alguns sectores mais radicais de seguidores do Movimento Zero, já foi lançada essa ideia", admite um oficial desta força de segurança que está a acompanhar o processo.
O Comando Metropolitano de Lisboa desenhou e previu, juntamente com a Direcção Nacional da PSP, os piores cenários para dia 21, que envolvem até actos de violência e vandalismo. Um quase "estado de sítio" foi declarado no planeamento das operações e serviu para justificar a mobilização de todo o efectivo de Lisboa (cerca de 4000 operacionais, a contar com o corpo de intervenção). Uma ordem de serviço, partilhada na página do Movimento Zero, determina a suspensão de folgas, férias e faltas a todos os agentes.
"Por interesse público e de serviço, foram determinadas as limitações de gozo de créditos de serviço e de folgas, nos termos constantes do documento que remete, no dia 21 de Novembro, pelo Comando Metropolitano de Lisboa", confirmou ao DN a Direcção Nacional da PSP. Já sobre o papel do Movimento Zero e dos seus elementos desta polícia que o integram, "a PSP não faz comentários". A GNR, os Serviços Prisionais e a PJ (cuja alegada adesão de inspectores ao Movimento Zero mereceu destaque na página do Facebook) também se remetem ao silêncio.
A Associação Sindical de Profissionais de Polícia (ASPP), a mais representativa e antiga da PSP, é um dos organizadores da manifestação de dia 21, tal como foi na de 2013. O seu presidente, Paulo Rodrigues, assistiu, impotente, à marcante cena de polícias a derrubar grades, a empurrar outros polícias e a correr pela escadaria acima a gritar "invasão". E agora? Como vai lidar com apoiantes "sem rosto" e "sem nomes"?
"Quando o Movimento Zero anunciou que se ia associar à manifestação, confesso que isso me causou algumas preocupações naturais", sublinha este dirigente sindical. No entanto, do lado dos supostos anónimos daquela estrutura surgiram "interlocutores" - que Rodrigues mantém no anonimato - que participaram em reuniões com a ASPP e a Associação de Profissionais da Guarda, a outra estrutura sindical que está a promover a manifestação.
"A mensagem que transmitimos e que eles nos garantiram que iam passar era que a ideia da força da manifestação se vai medir pelo número de presenças e não por qualquer atitude radical. Acreditamos que estão de boa-fé", assinala. "Assumimos responsabilidade pela manifestação de acordo com o que está previsto, não por actos individuais", afiança.
O director nacional da PSP, superintendente-chefe Luís Farinha, olha para o desenrolar da situação com acrescida dose de apreensão. Primeiro porque era ele que comandava a Unidade Especial de Polícia em 2013 e foram os seus homens do Corpo de Intervenção a ser derrubados. Segundo, porque a sua comissão de serviço termina no final do ano e não quererá ver-se obrigado a abrir a porta de saída, como o seu antecessor Paulo Gomes, por motivos semelhantes.
Crescimento de propaganda online de polícias radicais alarma autoridades
O que é o Movimento Zero
O Movimento Zero foi criado a 21 de Maio deste ano e a sua acção mais visível aconteceu no aniversário da PSP, em Julho deste ano, na Praça do Império. Várias centenas de polícias, vestindo t-shirts com o símbolo do Movimento Zero, voltaram as costas quando o director nacional da PSP, Luís Farinha, começou a falar na cerimónia presidida pelo primeiro-ministro, António Costa, mantendo-se nesta posição até ao final do discurso. Quando o ministro da Administração Interna Eduardo Cabrita começou a discursar, os polícias também estavam de costas voltadas. Saíram, assobiando em sinal de protesto, levantando os braços e fazendo o gesto do zero com os dedos.
O seu crescimento é atribuído quer ao fracasso dos sindicatos da PSP (17) quer da GNR, os quais não representam mais do que metade do efectivo. Os abusos dos dias de folgas sindicais por parte de dirigentes e delegados sindicais também não foram bem-vistos, principalmente pelos agentes, que eram obrigados a compensar as faltas com trabalho extra.
Paulo Rodrigues, que refuta "falhas" dos sindicatos, considera que o aparecimento e o crescimento de estruturas como o Movimento Zero resultam da "forma como os governos têm tratado os polícias, votando-os ao menosprezo, à desvalorização, não resolvendo os problemas que estão identificados há tantos anos". Este dirigente entende que o caminho escolhido pelo Movimento Zero "pode ser perigoso", mas "é o governo que empurra os polícias para situações destas, continuando a não responder às reivindicações das associações sindicais".
Num comunicado conjunto divulgado na quinta-feira, os organizadores da manifestação fazem um apelo para que "os participantes não pratiquem actos ou tenham atitudes que comprometam as verdadeiras razões da manifestação ou a condição policial".
Avisam ainda que "não serão permitidos objectos, cartazes ou outros, alusivos à promoção de políticas partidárias, ideológicas ou que evidenciem qualquer tipo de apologia que não tenha enquadramento directo com matérias sócio-profissionais das forças de segurança".
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Texto corrigido às 11.54, com o número actualizado de agentes mobilizados para o dia 21 de Novembro.
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Agradecimentos a quem aqui trouxe esta notícia: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/09-nov-2019/crescimento-de-propaganda-online-de-policias-radicais-alarma-autoridades-11495064.html?target=conteudo_fechado   -   (O artigo, redigido sob o acordo ortográfico de 1990, foi aqui corrigido à luz da ortografia portuguesa).


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O título da notícia é sugestivo e tem ar de querer ser alarmista (claro que só os «xenófobos» são verdadeiramente alarmistas, mas pronto...): «Crescimento de propaganda online de polícias radicais alarma autoridades». Pois 'tá claro... claro que alarma as autoridades - o crescimento do número de homicídios «é a vida...» nas grandes cidades, como se calhar seria dito pelo muslo que foi eleito em Londres; o facto de Portugal ser um dos cinco países europeus com mais assaltos, enfim, paciência... agora... polícias revoltados porque levam porrada e tiros, correm risco de vida e ainda por cima os mé(r)dia se viram contra eles... isso é que não pode ser... os bófias são parte do povinho e por isso têm de comer e calar na sua própria terra...

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Pá...um dia vão ter que prender metade da população portuguesa porque a malta já tá farta de levar nos cornos dos nossos "irmãos" lol

11 de novembro de 2019 às 22:30:00 WET  

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