terça-feira, março 03, 2026

GEOESTRATÉGIA E ÉTICA

Independentemente de todas as tragédias que se abatem sobre a humanidade, ou as humanidades, deste planeta, há umas quantas coisas com a sua piada, pitoresca, nestes tempos que ora correm - a facilidade democrática com que qualquer um teoriza sobre geoestratégia.
Acho-a bonita, com toda a sinceridade, pois que dá a todos o soberanamente honroso direito de manifestar a sua opinião. E é, também, cómica, gira na sua ingenuidade. As maiores potências do globo têm centenas e centenas de milhões de pessoas, incontados (por mim) milhares de negócios e complexidades diversas, pesos de diferentes medidas que constituem um quase enlouquecedor puzzle que evidentemente se transforma num xadrez de dimensão e complicação sem par, e pouca gente no mundo saberá «tudo» o que está em causa de cada vez que as chefias supremas tomam decisões, mas mesmo assim não há gato pingado que não diga tudo o que Trump, Putin, Xi Jinping ou Netanyahu deviam fazer ou fizeram mal ou «não perceberam». Isto aplica-se não apenas ao Zé do Tasco mas também a grande parte dos comentadores televisivos, por mais desenvolvidos que sejam. Pode acontecer que, um dia, daqui a umas décadas valentes, os vindouros olhem para 2026 e achem piada às modas desta época, nomeadamente a esta de haver tudólogos que vão à televisão para discorrer sobre tudo e mais um par de botas, inclusivamente a «burrice» do gordo loiro dos States ou do ex-KGB, quase já oiço perguntas de putos em 2092, «mas ó stôr, como é que aquela gente via isto na televisão e achava mesmo que um professor universitário de Lisboa, Londres ou Paris, ou um general na reserva, sabiam mais do que o gajo que tinha acesso a todos os segredos militares ao mais alto nível mundial?», ao que a resposta paciente e ponderada poderá ser «Jovem, não sejas insolente, eram outros tempos, as pessoas viviam noutro contexto, não tinham o acesso à informação que tu tens, as pessoas trabalhavam 40 horas por semana e não podiam prestar atenção a tudo ao seu redor, além disso toda a gente gosta de ouvir histórias, narrativas, e isto satisfazia as pessoas dentro das suas possibilidades...»

Outra coisa, bem diferente, é o julgamento ético das acções dos líderes, bem entendido. Não o intelectual, ou o informativo, mas o ético. À ética, todo o ser humano normal tem acesso, e que cada qual possa hoje dizer o que lhe apetece sobre isso é um luxo civilizacional que o Ocidente pôde construir e que demasiadas vezes não é devidamente valorizado.