Como foi isto possível, contra toda a elite reinante? Repito pela caralhésima vez - a Democracia é aliada do Nacionalismo. Quanto mais os nacionalistas falam em discurso directo ao povo, mais despertam no povo a pulsão tribal, logo, mais o povo concorda com a proposta nacionalista. Não é uma questão de instruir ou de enganar a população mas sim de apelar ao que há na Grei - às suas tendências naturais. Ao que nela é potencial, esteja ou não manifesto. Do lado contrário, a elite pôde andar décadas a querer mentalizar o povo no sentido do anti-racismo e da imigração, usando para isso as escolas, a televisão, os discursos políticos de toda a ordem entre o sentimentalismo e a intimidação - tudo isto teve afinal um efeito relativamente modesto, notoriamente superficial, pura e simplesmente porque não há na massa popular um eco profundo, um potencial para aceitar de boa vontade o ideal universalista. Se não gosto de jazz e gosto de metal, podem pôr-me um dia inteiro a ouvir jazz, uma semana, um mês, que o mais que pode acontecer é eu começar a habituar-me a esse estilo musical na medida do possível - mas bastará que oiça dez segundos de metal para que de imediato a minha disposição mude. É como é, não se muda isto.
Revela-se entretanto tristemente perigoso que a AfD evidencie clara simpatia pela Rússia contra a Ucrânia. Foi nisto que o povo votou? Não, na sua maioria.
A maior parte da população alemã é contra a imigração, bem entendido.
Ao mesmo tempo, a maior parte da população alemã é favorável à Ucrânia e vê a Rússia como ameaça.
Sucede então que, em tendo de escolher entre uma coisa e outra, o cidadão médio põe as prioridades do seu dia-a-dia em primeiro lugar. No que respeita à matéria mais imediata, de maior urgência, os gangues do terceiro-mundo nas ruas, escolas e transportes públicos da Alemanha são mais perigosos para o alemão médio do que os exércitos russos que invadem a Ucrânia.
Acresce que, já agora, uma Ucrânia russificada não deixará de ser europeia, mas uma Alemanha imigracionada deixará garantidamente de ser europeia. Ou por outra - não deixará de ser europeia a Ucrânia, ponto e vírgula, pois que a Rússia já demonstrou não ter pejo em importar toneladas de pessoal do terceiro-mundo para suprir as suas necessidades.
Em suma - ao contrário do que alguns, à Direita e à Esquerda, tentam fazer crer, de acordo com os respectivos interesses ideológicos, não há rigorosamente nenhuma ligação lógica entre ser contra a imigração e ser a favor da Rússia, nada de nada, pelo contrário; a prova disso está nas próprias sondagens que evidenciam esta distinção óbvia na mente dos que respondem às perguntas, isto para além do facto de que, na mesmíssima Europa, dois dos governos europeus mais favoráveis à Ucrânia são também dois dos mais contrários à imigração: Itália e Dinamarca.
Porque é então tão putineira a formação da AfD? Quando há uma forte presença do pensamento universalista no seio das elites cultural e socialmente dominantes, muitos dos que rejeitam este pensamento situam-se nas áreas mais anti-sociais e violentas do espectro ideológico; e, nestas regiões da Política, muitos são os que apoiam a lei do mais forte e um pendor anti-democrático, logo, simpatizam com o estilo e procedimento putineiro. Por outras palavras, quanto mais se empurra o Nacionalismo para a marginalidade, mais probabilidade há de o Nacionalismo se encher de marginais de vários tipos.
As elites se calhar sabem disto, mas acharam que era melhor assim, não esperavam era que o «povinho» resolvesse mesmo votar nos «marginais». Não esperavam que o «povinho» se revoltasse. Não esperavam que a pulsão tribal fosse tão forte como é. Agora está o chanceler Merz a ter o descaramento de se dizer «chocado» com este resultado. Que continue então sem expulsar criminosos alógenos, que continue então a deixar entrar mais imigrantes, depois continue a queixar-se ou a «chocar-se».
Felizmente que, pelo menos no que respeita ao Irão e a Israel, a AfD é um bocadito mais ocidentalista. Condena o regime aiatola como inimigo do país do Magen David e financiador do Hezbollah e do Hamas; critica o governo alemão por ser brando para com o regime iraniano, critica igualmente a diplomacia mole da UE nos acordos nucleares com Teerão. Simplesmente não quer grande envolvimento alemão em guerras nesses sítios do globo (logo se vê o que diz Trump destes seus «amigos»...).