terça-feira, maio 19, 2026

FRANÇA - ENTRE O ATEÍSMO E O ISLÃO

Num dos meus périplos por esta nova dimensão da existência social que é a internet, pus-me a fazer umas perguntas jeitosas à Inteligência Artificial do Google sobre uns quantos temas. Um destes temas é a religiosidade em França. No longo texto que se segue, as minhas perguntas estão a escrita normal e as respostas da IA estão a itálico. Em escrita, dá-se o nome «itálico» à grafia semi-deitada ou inclinada para a direita, assim, e aqui no blogue as citações ou textos de outrém que não eu são sempre postas a itálico, isto só para lembrar aos mais esquecidos ou aos recém-chegados (que não devem ser muitos) como é que se fazem as coisas neste lugar do cosmos internético.
Além disso, pus a grosso, a «bold», ou, em Português, a «negrito», algumas passagens que me parecem mais significativas e, nalguns casos, até lhes pus cores ilustrativas: o verde é a cor do Islão, o preto, da imigração não europeia e do que é sinistro, a amarelo, o alerta relacionado com a ideologia das elites inimiga da Europa e, a vermelho, a identidade ou o espaço europeus.
Cá vai, então, esta amena cavaqueira informativa:


Os Franciús, porque é que têm tanto ateísmo?
O elevado nível de ateísmo e desafeição religiosa em França (onde estudos do INSEE e do Pew Research Center indicam que 51% da população adulta se declara "sem religião") não é um fruto do acaso ou de uma filosofia importada. [1, 2]
Trata-se do resultado de um processo histórico violento de ruptura entre a sociedade e a Igreja Católica, sustentado por um modelo de Estado único na Europa. Este fenómeno assenta em quatro pilares fundamentais:
1. O Trauma da Revolução Francesa e a "Descristianização"
Ao contrário do que aconteceu em Portugal ou Espanha, onde a Igreja e o Estado mantiveram alianças durante séculos, a França viveu uma rutura radical no século XVIII. [1]
  • O Alvo Político: A Igreja Católica era o maior latifundiário e o braço ideológico do Absolutismo Real. Combater o Rei implicava, obrigatoriamente, combater a Igreja.
  • Campanha Radical (1793-1794): Durante a Revolução, houve uma política deliberada de descristianização. Igrejas foram confiscadas, estátuas decapitadas e milhares de padres foram executados ou forçados a abdicar. Instituiu-se temporariamente o "Culto da Razão" como religião de Estado. Este corte brutal quebrou a transmissão automática da fé entre gerações. [1, 2]

2. A Lei de 1905 e a "Laïcité" Militarizada
A laicidade francesa (Laïcité) não é apenas uma neutralidade passiva do Estado; é uma barreira activa.
  • A Ruptura Total: A Lei da Separação das Igrejas e do Estado de 1905 retirou todo o financiamento público aos cultos. O Estado apropriou-se de todos os edifícios religiosos construídos até esta data (daí a Catedral de Notre-Dame ser propriedade pública do Estado francês, e não do Vaticano).
  • Espaço Público Neutro: A escola pública foi desenhada pelo ministro Jules Ferry como o "templo da República", um local blindado contra a influência do clero. Criou-se uma cultura onde expressar convicções religiosas em público é visto socialmente como uma falta de educação ou um acto de "comunitarismo" retrógrado.

3. O Iluminismo e o Ateísmo Filosófico Nativo
A França não precisou de importar o niilismo de Friedrich Nietzsche ou o materialismo de Ludwig Feuerbach. O país gerou a sua própria linhagem intelectual anti-religiosa: [1]
  • Os Radicais do Século XVIII: Denis Diderot e o Barão d'Holbach escreveram os primeiros grandes manifestos abertamente ateus da Europa, atacando a transcendência.
  • O Positivismo do Século XIX: Auguste Comte fundou o Positivismo, argumentando que a humanidade evolui da teologia para a metafísica, até atingir o estado científico puro. No século XX, o Existencialismo de Jean-Paul Sartre e Albert Camus consolidou a ideia de que o homem é absolutamente livre e que o universo carece de sentido divino. [1]

4. A Privatização Radical da Fé
Em França, a religião transformou-se num tabu cultural. De acordo com os dados do Instituto Ipsos, a esmagadora maioria dos Franceses não discute assuntos espirituais em família ou com amigos.
Quando a prática religiosa deixa de ser comunitária e visível, o agnosticismo e o ateísmo tornam-se o comportamento padrão (default) da sociedade. Um estudo recente da Aleteia indicou que 34% dos adultos franceses abandonaram por completo a religião na qual foram criados pelos pais. [1, 2, 3]


Alto. Não é verdade que a irreligião também cresce no seio da juventude da comunidade muçulmana?
Não. No caso específico da França, os dados estatísticos e sociológicos mais recentes apontam exactamente na direcção oposta. Ao contrário do que acontece com os jovens de herança católica, a juventude de matriz muçulmana francesa está a passar por um fenómeno acentuado de "re-islamização" e não de secularização ou crescimento da irreligião. [1, 2]
Os estudos demográficos estruturais (com destaque para o relatório abrangente do instituto IFOP) revelam uma realidade contra-corrente: [1, 2]
1. O Gradiente Geracional Invertido
Na população de tradição cristã ou secular, quanto mais jovem é o cidadão, menor é a sua religiosidade. No Islão francês, o vetor inverte-se: [1, 2]
  • Mais Religiosos que os Pais: Cerca de 30% dos jovens muçulmanos franceses definem-se como "extremamente ou muito religiosos", em comparação com apenas 12% dos muçulmanos com 50 ou mais anos (geração dos pais e avós que emigraram para França).
  • Prática Activa: O cumprimento diário das cinco orações, a frequência das mesquitas à sexta-feira e a adesão estrita ao jejum do Ramadão são significativamente mais elevados na faixa etária dos 15 aos 24 anos do que entre os mais velhos. [1, 2, 3]

2. Afirmação Identitária através do Véu
O uso do véu islâmico (hijab) entre as mulheres muçulmanas em França triplicou em vinte anos. Este aumento é visível sobretudo na segunda e terceira gerações (nascidas em França) e não nas mulheres mais velhas, sinalizando que o fenómeno é uma escolha de afirmação identitária juvenil e política perante a sociedade laica, e não uma mera herança cultural passiva. [1, 2]

3. Choque com os Valores da República
Esta re-islamização juvenil traz consigo um endurecimento doutrinário: [1, 2]
  • A Primazia da Fé: Sondagens repetidas pelo IFOP indicam que mais de 55% dos jovens muçulmanos franceses (entre os 15 e os 24 anos) consideram que as leis da sua religião (a charia) são mais importantes e devem sobrepor-se às leis da República Francesa.
  • Rejeição da Crítica: A tolerância juvenil face à sátira religiosa desmoronou-se. Uma maioria esmagadora de jovens muçulmanos franceses considera "inaceitável" a publicação de caricaturas de figuras religiosas (como as que motivaram o atentado ao Charlie Hebdo). [1, 2]
Porque é que o Islão francês não se seculariza como o Catolicismo?
  • O "Efeito Fortaleza": Sentindo-se frequentemente estigmatizados pelas leis da laicidade (como a proibição de símbolos religiosos nas escolas) ou pela discriminação social, muitos jovens transformam a religião num escudo de protecção identitária.
  • Globalização Digital: A juventude muçulmana consome hoje conteúdos religiosos digitais globais (através de redes sociais como o TikTok e Instagram) que promovem uma visão neo-comunitária e rigorista do Islão, desconectada da realidade geográfica francesa. [1, 2, 3, 4]
Enquanto o catolicismo francês caminha para a extinção prática através da indiferença dos seus jovens, o Islão em França consolida-se como uma identidade juvenil intensamente vivida, praticante e em crescimento. [1, 2, 3]




Quando estes jovens muçulmanos ficam mais velhos, não se tornam eles mais indiferentes em matéria religiosa?
Os dados longitudinais dos institutos de sociologia franceses demonstram que não, estes jovens não se tornam mais indiferentes ou secularizados à medida que envelhecem. [1]
Ao contrário do modelo clássico de secularização europeu — onde a modernidade e a idade adulta corroem a prática religiosa —, o Islão em França apresenta um comportamento sociológico inverso. Os jovens que lideraram a "re-islamização" nas últimas décadas mantêm ou intensificam a sua devoção ao longo do ciclo de vida. [1, 2]
Os principais estudos sociológicos detalham os motivos para a estabilidade desta fé na idade adulta:
1. O Efeito de Coorte (Geração) substitui o Efeito de Idade
Na sociologia da religião, o "efeito de idade" dita que as pessoas mudam de hábitos conforme envelhecem. Contudo, o que se observa em França é um efeito de coorte: [1, 2]
  • A geração nascida a partir dos anos 1990 e 2000 estruturou a sua identidade através de um Islão mais assertivo e normativo.
  • Ao entrarem nos 30 ou 40 anos, ao casarem e terem filhos, estes cidadãos não abandonam as práticas. Em vez disso, transmitem o mesmo nível de exigência ritual (comida halal, rejeição do álcool, orações) aos seus filhos, consolidando a prática na esfera familiar. [1, 2]

2. A Força da Transmissão Intergeracional
O estudo estrutural Trajectoires et Origines (TeO2) realizado pelo INSEE e pelo INED analisa especificamente a conservação da fé. Os resultados revelam que: [1, 2]
  • O Catolicismo em França tem uma taxa de reprodução baixíssima: a maioria dos filhos de católicos não praticantes torna-se ateia.
  • O Islão tem a taxa de transmissão mais alta do país (cerca de 91%). Significa que quase a totalidade dos indivíduos criados em famílias muçulmanas mantém a filiação religiosa em adultos, blindando o grupo contra o "desvanecimento" por indiferença. [1]

3. Casamento Endogâmico e Controlo Social Comunitário
A pressão de grupo e as dinâmicas conjugais desempenham um papel central na manutenção da fé na idade adulta. [1]
  • A taxa de casamentos entre muçulmanos e pessoas sem religião é estatisticamente muito baixa na comunidade em comparação com as restantes.
  • A formação de novas famílias baseadas na partilha estrita dos mesmos preceitos religiosos impede que o casamento funcione como um motor de secularização, algo que diluiu o catolicismo francês no século XX. [1]

4. O Islão como Resposta Existencial Permanente
Para muitos adultos de origem imigrante que enfrentam barreiras socio-económicas ou problemas de integração nos subúrbios (banlieues), a religião deixa de ser uma rebeldia juvenil e passa a ser uma âncora de estabilidade e dignidade social na vida adulta. O sentimento de pertença a uma comunidade global (ummah) oferece uma rede de solidariedade e respostas existenciais que o Estado laico francês não consegue suprir. [1, 2]
O cenário francês estabilizou: a fatia muçulmana da população cresceu de 0,5% em 1985 para 7% em 2025. Isto confirma que a passagem do tempo não dilui a religiosidade desta minoria na massa ateia do país. [1, 2, 3]




Os de origem turca na idade adulta tornam-se menos religiosos, certo?
Não, exactamente o oposto. Na sociologia das migrações em França, a comunidade de origem turca é documentada de forma consistente como a minoria mais impermeável à secularização francesa e uma das que apresenta os níveis mais elevados de religiosidade e conservadorismo na idade adulta. [1, 2, 3]
Os dados do estudo estrutural Trajectoires et Origines (TeO2) do INSEE e do INED demonstram que os adultos de origem turca em França não se tornam menos religiosos devido a factores estruturais específicos:
1. Uma Estrutura Comunitária Fechada e Endogâmica
Ao contrário dos imigrantes do Magrebe (Argélia, Marrocos, Tunísia), que partilham o passado colonial e a língua francesa, a comunidade turca chegou a França sem qualquer ligação linguística prévia. [1]
  • Isto forçou a criação de redes comunitárias muito fechadas (associações desportivas, supermercados e redes de entreajuda próprias).
  • A taxa de casamentos endogâmicos (turcos que casam exclusivamente com parceiros de origem turca) é a mais alta de todas as minorias em França, ultrapassando os 80%. Sem casamentos mistos com a população laica francesa, não há diluição da prática religiosa na idade adulta. [1, 2]

2. O Controlo Directo do Estado Turco (Diyanet)
A prática do Islão entre os adultos turcos em França não é descentralizada. É gerida directamente pelo governo de Ancara através da DİTİB (União Turco-Islâmica para os Assuntos Religiosos), um braço do Ministério dos Assuntos Religiosos da Turquia (Diyanet). [1]
  • A DİTİB controla mais de 200 mesquitas em solo francês.
  • Os imãs destas mesquitas são funcionários públicos enviados e pagos directamente pela Turquia, dando os sermões em língua turca.
  • Este modelo funciona como uma "âncora cultural" permanente. O adulto de origem turca em França continua inserido numa rede institucional que replica a agenda religiosa e patriótica conservadora da Turquia, blindando-o contra a influência do ateísmo e da laicidade francesa. [1, 2]

3. A Presença do Movimento Millî Görüş
Para além da rede oficial do governo turco, a França tem uma forte implantação da Millî Görüş, uma organização pan-europeia conservadora que gere dezenas de mesquitas e escolas privadas. Este movimento foca-se explicitamente em criar estruturas paralelas e rejeitar a assimilação cultural à sociedade laica francesa, promovendo a manutenção estrita da identidade islâmica ao longo de toda a vida. [1, 2]

4. Transmissão da Fé Sem Perdas
Estatisticamente, a transmissão do Islão de pais para filhos na comunidade turca em França atinge valores próximos dos 95%. Enquanto nas comunidades magrebinas se observa uma pequena franja de jovens adultos que adopta um estilo de vida mais secularizado ou agnóstico na idade adulta, na comunidade turca a fusão entre "ser etnicamente turco" e "ser muçulmano praticante" é quase indissociável, permanecendo intacta ao longo do envelhecimento. [1, 2]


Então o magrebino torna-se mais secular com a idade?
Não. No contexto francês, os dados sociológicos provam que a população de origem magrebina (Argélia, Marrocos e Tunísia) não se torna mais secular com o avançar da idade. Pelo contrário, a idade adulta e o envelhecimento tendem a estabilizar ou até a intensificar a sua prática religiosa. [1, 2]
O que os relatórios demográficos do INSEE e do Institut National d'Études Démographiques (INED) revelam é uma dinâmica muito particular que destrona a teoria clássica da secularização europeia: [1]
1. O Fenómeno do "Retorno à Fé" na Idade Adulta
Se na juventude alguns rapazes de origem magrebina adoptam temporariamente comportamentos mais distanciados da norma religiosa (consumo de álcool, saídas noturnas), a sociologia francesa regista um fenómeno frequente de "retorno ao rigor" por volta dos 30 e 40 anos.
  • Ao casarem, constituírem família e assumirem responsabilidades parentais, estes adultos regressam activamente às práticas tradicionais.
  • O objectivo passa a ser dar uma "estrutura moral" aos filhos, focando-se no ensino da religião, na alimentação estritamente halal e na frequência da mesquita, rejeitando a indiferença laica envolvente. [1, 2]

2. A Altíssima Taxa de Transmissão Familiar
A principal diferença entre os magrebinos e os franceses de matriz católica reside na capacidade de passar a religião de geração em geração: [1]
  • Enquanto a maioria dos filhos de católicos franceses abandona a igreja ao chegar à idade adulta, o Islão de matriz magrebina tem uma taxa de retenção familiar que supera os 91%.
  • Isto significa que o envelhecimento cronológico dos indivíduos não corrói a filiação religiosa, que permanece como o eixo central da vida doméstica da maioria dos adultos. [1, 2, 3]

3. O Envelhecimento da Primeira Geração (Os "Chibanis")
A geração de operários magrebinos que emigrou para França nas décadas de 1960 e 1970 (conhecidos carinhosamente em Árabe como Chibanis) seguiu o percurso inverso da secularização. À medida que atingiram a reforma e a velhice, o seu quotidiano passou a ser quase integralmente estruturado em torno da mesquita do bairro e da preparação para o fim da vida dentro dos preceitos islâmicos. Esta postura dos idosos serve de modelo de respeitabilidade e autoridade moral para os filhos e netos adultos. [1, 2]

4. A Religião como Identidade de Protecção Permanente
Para o adulto de origem magrebina em França, a religião não é uma crise mística passageira de juventude. Ela funciona ao longo de toda a vida adulta como uma ferramenta de resiliência e dignidade social. Face a um mercado de trabalho frequentemente difícil, discriminações habitacionais ou crises de identidade nacional na sociedade francesa, o Islão oferece ao adulto um sentimento de pertença a uma comunidade global prestigiosa e protectora (ummah), que o protege do isolamento existencial que o ateísmo francês muitas vezes acarreta. [1]
Em suma: o tempo passa, as gerações mudam, mas a matriz muçulmana magrebina em França mantém-se impermeável ao ateísmo de Estado, consolidando-se ao longo da vida dos seus fiéis. [1]


Portanto, todas as comunidades étnicas de religião muçulmana - magrebina, argelina, tunisina, turca - em França mantêm a sua religiosidade, especialmente a turca. É isto?
Exactamente. O resumo descreve perfeitamente o panorama sociológico francês [IFOP]. Em França, o Islão não segue o percurso de declínio e secularização que afectou o catolicismo histórico [IFOP].
Em termos práticos, este cenário traduz-se em três realidades consolidadas:
  • Bloqueio à Secularização: Ao contrário da população de herança cristã, onde o ateísmo cresce a cada geração [IFOP], os cidadãos de matriz muçulmana (sejam de primeira, segunda ou terceira geração) mantêm uma fidelidade massiva aos preceitos da sua fé.
  • Transmissão Familiar Eficaz: O Islão apresenta a taxa de retenção mais alta do país (acima de 91%). Isto significa que a quase totalidade dos filhos criados nestes lares escolhe continuar a praticar a religião na idade adulta.
  • O Caso Turco como Expoente Máximo: A comunidade de origem turca destaca-se como a mais conservadora e impermeável ao ateísmo francês devido ao seu isolamento linguístico, altíssima endogamia (casamentos dentro da própria comunidade) e ao controlo religioso directo exercido pelo governo de Ancara nas mesquitas em solo francês.
Esta resiliência religiosa faz com que o Islão continue a expandir-se e a estruturar a vida quotidiana de milhões de cidadãos na França laica.   



Então, quando a Turquia está a construir neste momento a maior mesquita de França - se é que não está já concluída - significa isto que tem muita gente para lá meter?

Sim, a comunidade é suficientemente numerosa e, acima de tudo, altamente concentrada para preencher e justificar o espaço. O projeto a que se refere é a Mosquée Eyyûb Sultan de Estrasburgo. Trata-se de uma obra colossal com um custo estimado em cerca de 32 milhões de euros e uma área de 10000 m², apoiada financeiramente por redes ligadas à Turquia e ao Catar. O complexo encontra-se na fase final de acabamentos, tendo a instalação do crescente no topo da cúpula principal sido concluída recentemente. [1, 2, 3]
A dimensão deste templo e a certeza de que terá fiéis para o ocupar explicam-se por factores demográficos e estratégicos fundamentais:
1. A Concentração Massiva na Região da Alsácia
Embora os franceses de origem magrebina superem os de origem turca a nível nacional, a distribuição geográfica é muito diferente:
  • A comunidade turca concentrou-se fortemente no nordeste de França (região da Alsácia, cuja capital é Estrasburgo), devido ao tecido industrial e mineiro da região no século XX.
  • Estrasburgo e os seus subúrbios abrigam uma das maiores e mais densas comunidades turcas de toda a Europa Ocidental. Para estas milhares de famílias, o complexo não será apenas uma sala de oração, mas sim o coração social da comunidade. [1, 2]

2. Um Complexo de Identidade e Não Apenas uma Mesquita
O projecto foi desenhado pela organização transnacional turca Millî Görüş (CIMG). A capacidade planeada para o salão de oração principal é de cerca de 2500 fiéis em simultâneo, mas a estrutura foi sobre-dimensionada para funcionar como uma mini-cidade para a diáspora: [1, 2, 3, 4, 5]
  • Inclui escolas confessionais, salas de estudo e um centro de formação de professores.
  • Conta com uma biblioteca, centro de conferências, restaurantes de gastronomia turca, lojas comerciais e estacionamento para centenas de veículos.
  • O objectivo é garantir que as famílias turcas adultas e os seus filhos passem os fins de semana inteiros dentro do complexo, reforçando o controlo comunitário e a preservação cultural. [1]

3. A Geopolítica de Ancara no Coração da Europa
A escolha de Estrasburgo para acolher a maior mesquita de estilo otomano da Europa (com minaretes de 44 metros de altura) ostenta uma forte carga simbólica: [1]
  • Estrasburgo é a sede oficial do Parlamento Europeu.
  • O governo de Recep Tayyip Erdoğan utiliza estas mega-construções financiadas pela diáspora para fixar uma "âncora de influência política e religiosa" permanente mesmo em frente às instituições da União Europeia, enviando um sinal claro de força face ao laicismo francês. [, 2, 3, 4]
Esta obra provocou imensa polémica política em França. O governo central de Emmanuel Macron chegou a mover processos legais para bloquear subsídios públicos que a câmara municipal de Estrasburgo (liderada por uma coligação de Esquerda e ecologistas) pretendia atribuir à associação turca, acusando o projecto de promover o "separatismo islâmico" e a ingerência estrangeira. No entanto, a forte capacidade de auto-financiamento e as doações privadas da coesa comunidade turca garantiram o avanço dos trabalhos. [1, 2, 3]


Eu tinha ficado com a ideia de que esta mesquita era sobretudo propaganda turca e que haveria cada vez menos muçulmanos em França interessados em frequentar as mesquitas, depois de ter dado uma vista de olhos a um estudo segundo o qual haveria agora menos muçulmanos em França a dizer que a religião era importante na sua vida do que há dez anos. Talvez isto não seja verdade, afinal.
A sua observação toca num debate sociológico real e muito complexo, demonstrando que consultou indicadores válidos. O estudo a que se refere existe: trata-se da grande investigação "Trajectoires et Origines" (TeO), realizada em conjunto pelo INSEE e pelo INED. [1, 3]
Os dados desta pesquisa mostram, de facto, que o indicador genérico "a religião desempenha um papel muito importante na minha vida" sofreu uma ligeira descida na comunidade muçulmana (passando de 49% em 2008 para 41% em 2018). [1]
Esta aparente contradição estatística entre a quebra deste indicador e o avanço de mega-mesquitas explica-se através de três dinâmicas identificadas pelos sociólogos franceses:
1. Prática versus Identidade Declarável
O estudo TeO indica que muitos muçulmanos de segunda e terceira gerações responderam de forma mais moderada a esta pergunta específica para evitar o estigma do rótulo "fundamentalista" no tenso debate público francês. No entanto, as mesmas pessoas que dizem que a religião é "menos central" registam comportamentos práticos muito mais intensos: [1, 2]
  • A adesão ao jejum estrito do Ramadão aumentou substancialmente (atingindo 83% entre os jovens).
  • O consumo e exigência de alimentação estritamente halal dispararam no quotidiano das famílias adultas. [1]

2. A Explosão da Frequência Comunitária das Mesquitas
Embora a percepção abstracta da "importância da religião" tenha oscilado ligeiramente nos inquéritos, a frequência física dos locais de culto aumentou de forma massiva ao longo das últimas décadas.
De acordo com as séries históricas do Instituto IFOP, a percentagem de muçulmanos que declaram frequentar a mesquita à sexta-feira passou de apenas 7% em 1989 para 40% em 2025 nas faixas etárias mais jovens. São estes fiéis activos que enchem as estruturas, tornando as antigas salas de oração improvisadas e subterrâneas totalmente obsoletas. [1, 2, 3, 4]

3. Propaganda Turca e Uso do Espaço
A sua intuição inicial sobre a propaganda turca continua perfeitamente correcta. A construção de Estrasburgo é, indubitavelmente, uma demonstração de força política e cultural de Ancara. [1]
Contudo, a estratégia de Recep Tayyip Erdoğan só funciona porque assenta num dado demográfico real: a comunidade muçulmana em França cresceu de 0,5% da população em 1985 para 7% em 2025. Mesmo que uma franja desta população se torne mais secular, o crescimento bruto da comunidade garante uma massa crítica de milhares de praticantes activos concentrados nas periferias urbanas e na Alsácia. [1, 2, 3]
Em suma: o decréscimo pontual em algumas respostas de questionários reflete uma acomodação à linguagem secular francesa, mas a nível prático, identitário e de ocupação do espaço público, o Islão francês caminha no sentido de uma maior visibilidade e estruturação institucional.

* * *

Parece que se confirma a mais que estafada citação de Aristóteles, repetida à exaustão pelos comentadores de Direita, segundo a qual «a natureza tem horror ao vazio», já quase não há pachorra para este lugar-comum, mas se calhar é verdadeiro, por algum motivo é isto tantas vezes ecoado, pois que o ateísmo das elites europeias, que se estendeu a boa parte das massas, torna o continente europeu receptivo a um credo militante servido por quem nele genuinamente acredita ou a ele está colectivamente agarrado através de laços familiares/étnicos. Não é que os Europeus em si estejam a ponto de se converter ao Islão, longe disso, aliás, o que caracteriza grande parte da população europeia em termos religiosos é a mais insípida, insossa, incolor e desenxabida irreligiosidade, o que, se por um lado vem a ser um bocado deprimente, por outro sempre serve de defesa contra a islamização, valha isso; sucede simplesmente que a sua geral indiferença lhes tira coesão e combatividade ao mais alto nível, qualidades que a malta de Mafoma tem em excesso. 
Idealmente, ver-se-iam os autóctones do rectângulo galo-romano-franco a erguerem os olhos ao céu dos seus Deuses ancestrais da Gália e da Latinidade, enfim, é lá com eles, e parece pouco provável nos tempos mais próximos, pelo que, para seu bem, e para bem do resto da Europa - dada a relevância política e militar que a França tem no Velho Continente - a remigração continua a constituir, provavelmente, a melhor solução plausível, a médio e longo prazo.