quarta-feira, março 18, 2026

ROMA - PREGOS CRAVADOS NO PEITO ERAM PARTE DE RITO FUNERÁRIO ANTIGO

Imagine acordar na Roma Antiga. O Sol ainda não aqueceu as lajes de pedra e já está a atravessar as ruas a caminho do fórum. Lá, vai discutir sobre política, ouvir rumores de guerra ou de comércio e partilhar o pão com aqueles que fazem parte da sua comunidade. Está vestido com uma túnica simples, eleva uma prece aos seus Deuses domésticos e roga por prosperidade antes de começar o dia.
A vida é dura e marcada por hierarquias. Se tiver sorte, come duas vezes por dia. Caso contrário, trabalha sem descanso ao serviço de um patrão, de uma família ou do próprio império. Tudo responde a uma ordem superior: primeiro os Deuses, depois o Destino e só no final os homens.
Por isso, cada gesto quotidiano tem um significado espiritual. Levantar o olhar para o céu não é apenas contemplar as nuvens: é esperar um sinal divino, um relâmpago ou o voo de um pássaro que confirme que os Deuses aprovam as suas decisões.
Manter esse equilíbrio com as forças que governam o universo era essencial para os Romanos. E nem mesmo a morte escapava a esse sistema de crenças. Porque, para eles, o descanso eterno nem sempre estava garantido.
Numa zona recentemente escavada da necrópole situada junto à antiga Via Ostienseos arqueólogos encontraram algo inesperadovários esqueletos enterrados com pregos colocados na zona do peito. A descoberta, feita num dos cemitérios mais importantes situados nos arredores da antiga Roma, despertou grande curiosidade entre os investigadores. Embora possa parecer uma cena tirada de uma história de vampiros, não se tratava de um acto de violência nem de uma execução. Era um ritual.
necrópole, que durante séculos acompanhou a estrada que ligava a capital ao seu grande porto mediterrânico, reflecte a diversidade social do Império. Ali coexistem mausoléus monumentais com inscrições e frescos, ao lado de sepulturas muito mais modestas escavadas directamente na terra.
Os túmulos onde os pregos foram encontrados pertencem à Antiguidade tardia, uma época em que as crenças religiosas romanas se misturavam com superstições populares e antigas tradições etruscas. Nelas, o detalhe repete-se: o ferro aparece colocado sobre o peito do falecido, como se alguém tivesse querido fixar algo invisível.
Para os Romanos, o prego não era apenas uma ferramenta. No seu imaginário espiritual, possuía propriedades mágicas e protectoras. A sua função física – prender, fixar ou garantir – transferia-se também para o terreno simbólico. Cravar um pino de ferro numa tumba podia significar "garantir" a alma do falecido, assegurar que a sua passagem para o além era definitiva e impedir que regressasse para perturbar o mundo dos vivos.
A morte não era necessariamente o fim de uma história. Na mentalidade antiga, os espíritos inquietos podiam tornar-se uma ameaça para os familiares ou para a comunidade. Além disso, o gesto podia ter outros significados protectores. Alguns investigadores acreditam que servia para proteger o corpo da profanação ou impedir que forças malignas se apoderassem do espírito.
Em certos contextos, o seu significado era inclusive positivo. Um dos rituais mais conhecidos era o clavum figendi, a cerimónia em que se cravava um grande prego num templo durante momentos-chave do calendário religioso ou político. O acto simbolizava o encerramento de um ciclo e a purificação da comunidade, como se o próprio tempo ficasse fixado na parede sagrada.
As fontes antigas também falam da sua utilização em remédios populares. Alguns textos mencionam que cravar um prego no local onde uma pessoa epiléptica tinha sofrido o seu primeiro ataque podia curar a doença. Noutros casos, acreditava-se que os pregos ajudavam a proteger a cidade contra epidemias ou mesmo contra catástrofes naturais.
No entanto, se o destino assim o determinasse, o ferro poderia ser usado contra si. Nas deflexões – finas lâminas de chumbo – gravavam-se invocações contra inimigos, rivais ou amantes infiéis. Depois, eram dobradas e perfuradas com um prego para selar a maldição.
A descoberta na necrópole de Óstia lembra até que ponto os Romanos tentavam controlar o desconhecido por meio de rituais. A religião, a magia e a vida quotidiana não estavam separadas: faziam parte de uma mesma forma de entender o mundo.
Hoje, séculos depois, esses pequenos pregos de ferro falam-nos de algo profundamente humano: o medo da morte… e, talvez ainda mais, o medo de que os mortos não permaneçam onde deveriam.
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https://www.msn.com/pt-pt/noticias/other/descoberta-arqueol%C3%B3gica-na-necr%C3%B3pole-de-%C3%B3stia-revela-uma-pr%C3%A1tica-funer%C3%A1ria-romana-inquietante/ar-AA1YUGK2?ocid=winp2fp&cvid=69bac7b51d2048dfb760c47944036773&ei=34
https://www.nationalgeographic.pt/historia/descoberta-arqueologica-na-necropole-ostia-revela-pratica-funeraria-romana-inquietante-pregos-peito_6957