quarta-feira, dezembro 27, 2006

O OCIDENTE PODE PERDER A GUERRA (?)...

Um recente artigo de Daniel Pipes merece que se lhe deite uma vista de olhos com alguma atenção.

Pipes, na esteira do seu discurso de alerta contra o inimigo islamista, faz notar que o Ocidente, depois de ter batido o Comunismo, corre o risco de ser por sua vez sobrepujado pelo Islão.

Não obstante ser incontestável que o Ocidente supera em muito o mundo islâmico no que ao aspecto militar e tecnológico diz respeito, é por outro lado digno de atenção que neste bloco civilizacional de raiz europeia estão hoje instaladas três maleitas de índole cultural e ideológica que podem bem constituir a fraqueza fatal que transformará em barro os pés do colosso ocidental.

São elas o pacifismo, a complacência e o ódio a si mesmo.

Pacifismo: entre as elites, grassa a convicção de que «não há solução militar» para os problemas islâmicos actuais, convicção esta que é repetida como um mantra a propósito de quase todos os casos deste conflito: o Líbano, o Iraque, o Irão, o Afeganistão, os Curdos, o terrorismo, o conflito israelo-árabe. Todavia, este pacifismo pretensamente pragmático olvida que, na História moderna, há de facto diversos casos de soluções militares, tais como a segunda guerra mundial, a guerra do Vietname, a guerra soviética do Afeganistão.

Complacência: a ausência de uma poderosa máquina militar islamista dá a muitos ocidentais, especialmente os de Esquerda, um sentimento de desdém. Muita gente não acredita que os cintos com explosivos usados pelos suicidas possam representar um oponente de força considerável. Gente como o senador norte-americano Kerry (que queria e quer ser presidente da maior potência do planeta...) tenta «desdramatizar» o terrorismo como simples «incómodo».
Não obstante, os islamistas têm vários trunfos na guerra que estão a travar contra tudo o que não se submete ao Alcorão:
- acesso potencial a armas de destruição maciça que podem aniquilar a vida ocidental;
- apelo religioso que alcança uma ressonância profunda e longa permanência nas mentes das massas, ao contrário das ideologias artificiais e laicas como o Fascismo e o Comunismo;
- máquina institucional bem oleada que consegue edificar credibilidade política e, evidentemente, eleitoral;
- ideologia capaz de apelar aos muçulmanos de todos os tamanhos e formas, do proletariado às elites com licenciaturas universitárias, dos bem integrados aos psicopatas, dos Iemenitas aos Canadianos, num movimento que desafia a definição sociológica;
- aproximação não violenta - a que Pipe chama «islamismo legal» - que procura islamificar através de meios educacionais, políticos e religiosos, sem recurso à ilegalidade ou ao terrorismo; esta abordagem está a ser bem sucedida em países de maioria muçulmana, tais como a Argélia, e no seio de minorias muçulmanas numerosas, tais como a da Grã-Bretanha;
- grande número de quadros devotos - se os islamistas constituem dez a quinze por cento da população muçulmana do planeta, isto significa que eles atingem já os 125 ou mesmo 200 milhões de pessoas, um total bem mais volumoso do que todos os comunistas e fascistas juntos.

Ódio a si mesmo: demasiada gente em vários países europeus - especialmente nos EUA, no Reino Unido e em Israel, diz Pipes, embora eu ache que o problema é aliás bem mais grave na Europa continental - acredita que os seus governantes são sequazes do mal e vêem o terrorismo como punição pelos pecados do passado. Esta atitude de quem tem um prazer masoquista e quiçá «místico-espiritual» (em versão de espiritualidade da treta) em encontrar o inimigo em nós próprios bloqueia uma resposta efectiva e até predispõe para abandonar as suas próprias tradições e desprezar os seus próprios feitos. Claro que Bin Laden agradece e até louva os exemplos de esquerdistas deste tipo, tais como Robert Fisk e William Blum. Esta espécie de intelectuais têm uma importância de peso na formatação das opiniões nas universidades, na imprensa, nas instituições religiosas, nas artes. E serve por conseguinte como apoio da acção dos «mujahedeen».
O que Pipes não diz é que este padrão de mentalidade tem as suas raizes na própria religião que se impôs pela intimidação em todo o Ocidente - este ódio a si mesmo, esta ideia de que o terrorismo é a justa punição pelos crimes do passado europeu, é pura e simplesmente a reedição laicizada e humanista do complexo de culpa cristão.
A ideia de Deus em si foi virulentamente atacada pelo ateísmo militante, mas, tirando a parte teológica, a parte moral do Cristianismo permaneceu bem arraigada nas mentalidades das elites intelectuais e, assim, operou-se nesses meandros uma substituição: Deus foi substituído pelo «outro», aquele «outro» a quem o próprio Cristo mandava oferecer a outra face quando agredido, aquele «outro» que a maralha politicamente correcta adora endeusar, dando a entender, ou declarando abertamente por vezes, que o «amor ao outro» é o primeiro e único mandamento de toda a boa formação moral. O «outro», o estrangeiro, o alienígena, passa a ser o novo «Cristo» martirizado pela nossa suposta crueldade e que agora tem o direito de nos castigar, porque nos portámos mal...

Num quadro destes, a defesa do Ocidente afigura-se no mínimo difícil.

10 Comments:

Blogger João said...

Se o Ocidente perder a guerra perdê-la-à exclusivamente por sua culpa, por culpa desta mentalidade miserável, pelo espírito do Rinoceronte, tão bem retratado por Ionesco na peça homónima.

28 de dezembro de 2006 às 01:00:00 WET  
Blogger Caturo said...

Referes-te à mentalidade de avestruz ou algo ligeiramente diferente?

28 de dezembro de 2006 às 12:19:00 WET  
Blogger João said...

Refiro-me à adesão miserável aos valores do "outro". À erosão das identidades por troca com o interesse pelo suposto "exotismo" e "sabedoria". Repara no exemplo do paganismo e das tradições místicas. Mais depressa se conhece a "sabedoria" chinesa e o misticismo árabe do que as tradições do Ocidente.

28 de dezembro de 2006 às 13:52:00 WET  
Blogger Caturo said...

Sim, isso é verdade.

E, para tal fenómeno, só encontro uma explicação, uma origem, uma genealogia ideológica... foi realmente um veneno vindo do Oriente semita que abriu as portas do Ocidente para que agora outros venenos orientais acabem com o que ainda existe na civilização criada por Gregos, edificada por Romanos, enriquecida por Celtas e dinamizada por Germanos...

28 de dezembro de 2006 às 15:16:00 WET  
Blogger João said...

Por alguma razão acabaram praticamente com o grego e o latim no ensino...

30 de dezembro de 2006 às 02:40:00 WET  
Blogger Caturo said...

Não sei se foi propositado, mas que pode ter tido influência, isso pode. À súcia internacionalista interessa cortar os laços com as raízes culturais e étnicas da Europa.

2 de janeiro de 2007 às 12:34:00 WET  
Anonymous Anónimo said...

Caturo, acerca do teu 2º comment: estás a dizer que o monoteísmo é uma espécie de conspiração criada pelos judeus de modo aos também monoteístas islâmicos conquistarem a Europa roubada ao puro paganismo pelo cristianismo? (espero bem que não, isso é simplesmente estúpido. Tu não és daqueles que acredita que uns documentos forjados como sendo actas de um conselho de idosos sionistas são provas de uma conspiração judaica para dominar o mundo? Vocês neste blog não são muito coerentes: é preciso salvar o cristianismo cruzado do Islão, mas o monoteísmo é perverso, devendo-se regressar ao paganismo, os judeus são perversos mas pelo menos lutam contra o Islão [o novo papão. Comam a sopa toda..senão o Bin Laden vem-vos comer!...]...primeiro corrigam as ideias [para isso tinham de as ter] e depois façam o blog! Já agora, podem ler esse texto aqui: http://www.radioislam.org/protocols/)

27 de fevereiro de 2007 às 20:52:00 WET  
Blogger Caturo said...

Caturo, acerca do teu 2º comment: estás a dizer que o monoteísmo é uma espécie de conspiração criada pelos judeus de modo aos também monoteístas islâmicos conquistarem a Europa roubada ao puro paganismo pelo cristianismo?

Não (embora haja quem o afirme).
A questão não está sequer no monoteísmo, mas na moral cristã e na sua mensagem universalista totalitária.




Vocês neste blog não são muito coerentes: é preciso salvar o cristianismo cruzado do Islão,


Errado. Eu nunca disse isso.


mas o monoteísmo é perverso,

Não é o monoteísmo, é o universalismo religioso e totalitário semita.



devendo-se regressar ao paganismo, os judeus são perversos mas pelo menos lutam contra o Islão

Mais ou menos.


[o novo papão. Comam a sopa toda..senão o Bin Laden vem-vos comer!...]

Então não comas a sopa. E quando o bin Laden vier, diz-lhe na cara que não acreditas nele. Talvez resulte...



primeiro corrigam as ideias [para isso tinham de as ter]

E tu, para saberes se as tínhamos, terias de primeiro saber o que são ideias.

27 de fevereiro de 2007 às 21:03:00 WET  
Anonymous Anónimo said...

Universalismo religioso e totalitário semita? Isso soa-me a algo com tanto sentido como a "mentalidadezinha nativa" do Vasco Pulido Valente... Qual é exactamente o sentido disso?

3 de março de 2007 às 13:46:00 WET  
Blogger Caturo said...

O sentido é este: os primeiros e principais totalitarismos doutrinais que afectaram o Ocidente foram religiões de origem semita, a saber, o Cristianismo e o Islão.

E já no Judaísmo há uma semente de intolerância religiosa, quando afirma que os Deuses dos outros povos são falsos ou demoníacos. Mas os Judeus, sendo especialmente nacionalistas, fechavam-se em si mesmos, nunca conquistaram outras gentes com o intuito de lhes impor o credo religioso judaico. Não eram pois universalistas - mas tinham já em si a matriz do ódio às doutrinas/religiões alheias.

5 de março de 2007 às 00:06:00 WET  

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