segunda-feira, outubro 13, 2003

A respeito das praxes, há a salientar um aspecto que não vi ainda ser comentado com algum desenvolvimento.
Falo da mentalidade geral que permite as praxes em larga escala: o ovino modo de ser, alimentado por uma grande parte da sociedade, até mesmo pelo veio dominante do sistema.

É o desejo de querer ser aceite por um colectivo, mas um colectivo já completamente desprovido dos conceitos transpessoais de Raça, de Estirpe, de Credo até.

É simplesmente um colectivo «socialista», num sentido literal do termo, na medida em que significa o predomínio do colectivo sobre o individual.
É um colectivo realmente socialista, agora sem aspas, uma vez que, devido à ausência dos valores realmente tradicionais acima citados - de Estirpe, ou também de Fé - acaba por constituir o colectivo de esquerda por excelência, ou seja, a amálgama de indivíduos, todos iguais, cujas diferenças (de sexo, raça, idade, etc.) estão já esbatidas ou mesmo suprimidas, isto é, mutiladas.

Todavia, uma vez que a Diferença é inerente à condição humana, acaba sempre por surgir, de um modo ou de outro, e foi por isso que, por exemplo, se viu, nos anos oitenta, a divulgação das chamadas «tribos juvenis» (modas de gosto, de vestuário, de atitude), e é também por isso que, nas escolas, se observa cada vez mais, da parte das crianças, a valorização absoluta das marcas, de calçado, vestuário, e não só, como critério de aprovação... colectiva.

Ora, se a sociedade alimenta este estado psicológico, não é de estranhar que tantos e tantos (a maioria, provavelmente) jovens caloiros aceitem tão passivamente tantos e tantos abusos perpetrados pelos praxistas. É que os meninos, coitadinhos, têm medo de não ser aceites «pelo colectivo». É esse o seu maior medo. E depois os tais «veteranos», por vezes auto-proclamados «defensores da tradição» (o que é quase sempre falso, simples pretexto para exercer, impunemente, uma ridícula violência psicológica, pois que esta raça de adolescentes retardados o que aprecia é andar à zorro, a cantar estopadas acompanhadas à viola, e possuir servos), abusam, como já se sabe.

Recordo-me, entretanto, que, certa vez, ouvi dizer, na televisão, algo que me pareceu muito sintomático. Perante o caso, frequente e típico, de um grupo de jovens fumando marijuana, um certo sociólogo afirmava ficar mais preocupado com o jovem que, do meio do grupo, emergia na recusa em participar do vício, do que com os outros jovens, que aceitavam a participação em tão socializante actividade.
Dir-se-á talvez que isto é só um ouvir dizer, já em segunda mão, ainda por cima de um único caso, mas, quanto a mim, não há fumo sem fogo, e a mentalidade que atribuo ao referido sociólogo parece-me estar muito profundamente entranhada na actual sociedade urbana, nomeadamente nas universidades, e restantes ambientes juvenis, fortemente infiltrados por elementos de esquerda. Aliás, a Sociologia parece dominada pela esquerda, e o conjunto formado por sociólogos, jornalistas e universitários em geral é o viveiro e a força eleitoral de formações muito na moda como o Bloco de Esquerda. Repare-se por exemplo na divergência de posições entre esta coligação e o PCTP/MRPP, partido radical de outra geração, cujo líder Garcia Pereira lançou umas farpas ao grupo de Louçã, dizendo algo como «Não somos daqueles que vão para o Bairro Alto fumar ganzas e acham muito bem o consumo da droga».

Isto não é para dizer, evidentemente, que a esquerda radical moderna é que quer a droga e as praxes - o que afirmo é que a dominação cultural de esquerda, ao destituir (ou tentar fazê-lo) os autênticos valores tradicionais - os quais, pela sua própria natureza, transcendem a autoridade de qualquer líder - criou as condições para que se estabelecessem as drogas, bem como as actuais praxes e outras demonstrações de tibieza psicológica (Big Brother, por exemplo), de efeito maciçamente invertebrante, passe o neologismo; e, não obstante, são ainda certos jovens da esquerda radical quem lidera, no seio da juventude, o movimento de contestação contra a praxe (e «contra a tradição!», claro, que a esquerda aproveita sempre todas as oportunidades para fazer passar os seus slogans), fazendo lembrar uma cobra que morde a sua própria cauda.

Quando os valores transpessoais são deitados abaixo, fica só o «ser humano». O ser humano na sua forma «pura», diriam os defensores da teoria do bom selvagem. Isto é, fica só a vontade de poder anárquica, sem limites nem vergonha.

É pois inútil criticar os praxistas abusadores: ninguém abdica de uma posição de poder só por causa de umas quantas repreensões morais.

O que é preciso é dizer aos caloiros que, para travar certas vergonhas, basta dizer «não», inequívoca e inflexivelmente, por uma questão de princípios.
É preciso fazê-los compreender que não precisam da «ajuda» posterior dos estudantes mais velhos que exercem as praxes, já que estes não podem ajudar assim tanto, carregados que estão de vícios e de imbecilidades várias.
Até porque vale mais uma coluna vertebral direita do que uma licenciatura.