quarta-feira, março 18, 2026

«REPÚBLICA POPULAR DE NARVA» - POSSÍVEL PRINCÍPIO DE GUERRA ABERTA ENTRE OTAN E RÚSSIA

A RBC-Ucrânia explica porque se tornou a cidade de Narva num alvo e se a Estónia e a OTAN estão preparadas para uma agressão russa.

Pontos principais:

  • Ameaça de anexação: a Rússia está a promover a ideia de estabelecer a República Popular de Narva, replicando o cenário da tomada de poder no Donbas em 2014.

  • Influência dos "falantes de Russo": Na cidade fronteiriça de Narva, 95% da população é de etnia russa, o que torna a cidade vulnerável à propaganda russa.

  • Pressão híbrida: O Kremlin intensificou a sua campanha durante a guerra no Irão, tentando demonstrar a incapacidade da OTAN de responder rapidamente às provocações.

Enquanto os EUA estão atolados numa guerra contra o Irão e a China, juntamente com a Coreia do Norte, intensifica as tensões em torno da Formosa (Taiwan), outro ponto crítico perigoso pode surgir no mapa mundial. Desta vez, trata-se de uma potencial agressão russa contra a Estónia e, por extensão, contra a OTAN.
Embora as principais forças russas estejam ocupadas pelas Forças Armadas da Ucrânia, desde o início de Março o Kremlin tem intensificado a ideia de proclamar uma República Popular de Narva nas redes sociais e no Telegram. Segundo o jornal Bild, a inteligência estoniana considera esta campanha uma possível preparação narrativa para uma invasão do país. O modelo é o mesmo de 2014, quando Moscovo alegou proteger a população de língua russa nas chamadas Repúblicas Populares de Luhansk e Donetsk.
A escolha da Rússia por Narva como centro da sua influência não é coincidência. Actualmente, esta cidade fronteiriça situa-se em frente a Ivangorod, na Rússia, e abriga uma comunidade unida de língua russa — cerca de 95% da população de Narva. No condado de Ida-Viru, onde Narva está localizada, os russos étnicos e os residentes de língua russa compõem cerca de 70% da população. Esta composição demográfica é resultado das políticas soviéticas. Durante a ocupação da Estónia, de 1940 a 1991, Narva tornou-se num polo da indústria de petróleo de xisto.
Assim como no Donbas, milhares de trabalhadores foram trazidos de outros territórios soviéticos para trabalhar em empresas locais. Os estonianos étnicos foram deslocados, e os migrantes soviéticos e seus descendentes formaram uma comunidade fechada, nostálgica da URSS. Após a Estónia reconquistar a independência em 1991, líderes locais organizaram um referendo sobre a autonomia em Narva, onde 97% votaram "sim", mas a participação foi baixa, de 55%, e as autoridades estonianas declararam a votação inconstitucional. Nas décadas seguintes, Narva entrou em declínio gradual. O alto índice de desemprego e as dificuldades na integração da população de língua russa agravaram ainda mais as condições de vida dos moradores da cidade. O Kremlin tem vindo a "incitar" a situação em torno de Narva há muito tempo e de forma metódica. Em 2007, após a remoção do monumento do Soldado de Bronze em Tallinn, a cidade tornou-se palco de protestos da população de língua russa. A inteligência estoniana já registava, na altura, como os média russa propagavam narrativas sobre a "opressão dos russos" no país. Após a anexação da Crimeia e a invasão de Donbas, a Rússia começou a promover a ideia de criar também uma República Popular de Narva na Estónia. Por uma série de razões, esse cenário nunca se concretizou, mas as tensões em Narva aumentam de tempos em tempos. Por exemplo, em 2022, o desmantelamento do monumento ao tanque soviético T-34 provocou protestos locais. Esta situação persiste. Uma fonte da inteligência estoniana disse ao jornal Bild que a campanha russa está a ser iniciada deliberadamente agora, "enquanto a atenção mundial está voltada para o Irão", mas ainda não está claro qual é o objectivo final da narrativa russa. Actualmente, o foco está mais em demonstrar as capacidades da Rússia, afirma Yevhen Magda, director do Instituto de Política Mundial: "É claro que os Russos estão a tentar mostrar que, ao contrário dos Estados Unidos, eles conseguem jogar em vários tabuleiros de xadrez ao mesmo tempo. A questão é quão eficazmente conseguem fazer isso. Mas demonstrar que esse potencial existe é politicamente importante", disse Magda à RBC-Ucrânia. Nas circunstâncias actuais, é necessária uma resposta clara e decisiva às acções da Rússia em relação a Narva. "Não acho que isso deva ser exagerado. No entanto, ignorar a situação também é imprudente, porque essa ameaça é real. Para a Rússia de hoje, uma pequena guerra híbrida bem-sucedida no teatro europeu é muito significativa", enfatizou Magda. Segundo ele, a Rússia não pode deixar de compreender que a inteligência estoniana tem vindo a preparar contra-medidas há muito tempo. Portanto, é improvável que o Kremlin tenha ilusões sobre o seu próprio sucesso.
As autoridades estonianas já intensificaram a vigilância nas fronteiras e estão a preparar contra-medidas contra agentes de influência russos. Além disso, há muito tempo o governo se tem concentrado na rápida integração da população de língua russa e no fortalecimento das linhas defensivas ao longo da fronteira com Ivangorod. No entanto, isto não exclui outros objectivos que a Rússia possa ter. Politicamente, trata-se de minar o sistema de segurança colectiva da OTAN. A Rússia tem perseguido esse objectivo sistematicamente desde a invasão em larga escala da Ucrânia. Moscovo tem estado particularmente activa desde o Outono passado, quando duas dezenas de drones russos entraram no espaço aéreo polaco. "Isto é mais um elemento da pressão sistémica da Rússia sobre os países da OTAN, que se deve em parte ao facto de a OTAN não estar na sua melhor forma político-militar no momento. Vemos declarações dos EUA e de todos os outros", observou Magda. Isto é especialmente perigoso no contexto das acções do presidente dos EUA, que, por um lado, pressiona os membros europeus da OTAN a gastarem mais em defesa, enquanto, por outro, os ameaça. A situação da Gronelândia, que ocasionalmente volta à pauta, é apenas um exemplo — mas está longe de ser o único — dessa abordagem. 
Como demonstraram os últimos meses, não se deve esperar que a Aliança tome medidas rápidas ou decisivas. Os motivos não se resumem apenas à burocracia de Bruxelas, mas também aos interesses muito diferentes dos Estados-membros. "Quer queiramos ou não, o principal país da OTAN são os EUA. Portanto, não creio que a OTAN vá mudar rapidamente o seu modo de operar e começar a, sabe, demonstrar força na fronteira da Rússia", concluiu Magda.
Ao mesmo tempo, em caso de escalada por parte da Rússia, a Estónia certamente poderá contar com o apoio daqueles que compreendem a real ameaça representada pela Rússia — os outros países bálticos, o norte da Europa e também a Ucrânia.

Perguntas e respostas rápidas:

– Porque escolheu a Rússia a cidade de Narva para um ataque híbrido contra a Estónia?
– Narva é o ponto mais vulnerável devido à sua geografia e demografia: a cidade está localizada na fronteira com a Rússia e 95% dos seus residentes são falantes de Russo. O Kremlin explora o isolamento social da região e a nostalgia pela URSS para disseminar sentimentos separatistas.

– O que é a República Popular de Narva?, e ainda existe?
– Trata-se de um projecto de propaganda do Kremlin que visa criar um auto-proclamado quase-Estado modelado segundo a LPR/DPR (Repúblicas Populares de Luhansk e Donetsk). Actualmente, existe apenas como campanha de informação, que a Rússia intensificou em Março de 2026 para exercer pressão política sobre Tallinn e a OTAN.

– Protegeria a
 OTAN a Estónia se ocorresse uma tentativa de proclamar a República Popular de Narva ?
– De acordo com o Artigo 5 da Carta da OTAN, um ataque à Estónia é considerado um ataque a toda a Aliança. No entanto, a natureza híbrida da ameaça (protestos, desinformação, "homenzinhos verdes") pode retardar o processo de tomada de decisão política para uma resposta militar.

– Estão os eventos em torno da Estónia relacionados com a guerra dos EUA contra o Irão?
– Sim, a Rússia está a aproveitar o foco dos EUA no Médio Oriente como oportunidade. O Kremlin busca demonstrar que o Ocidente não consegue gerir a segurança simultaneamente em múltiplos pontos estratégicos ao redor do mundo.

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Fonte: https://newsukraine.rbc.ua/news/tanker-passes-through-hormuz-as-some-countries-1773681477.html

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Preparem-se os que podem ir dar o coiro ao manifesto numa frente leste da OTAN, e mandem para lá, com prioridade, os putineiros e anti-Ucrânia que por aí guincham, pode ser que consigam convencer as tropas do Kremlin a ficarem sossegadas...