quarta-feira, junho 17, 2026

HISPÂNICOS RECEBERAM AFINAL POUCA INFLUÊNCIA GENÉTICA DE FENÍCIOS E CARTAGINESES

Tinha tudo para contar uma história de encontros e fusões. Portos movimentados, ânforas gregas, joias fenícias, a sombra crescente de Cartago. Os Povos ibéricos viveram durante séculos no cruzamento de civilizações. E, no entanto, o seu ADN ficou quase intacto.
É essa a conclusão surpreendente de um estudo publicado na revista iScience, liderado por investigadores da Universitat Autònoma de Barcelona. A equipa analisou os restos de 54 recém-nascidos enterrados há entre 2700 e 2100 anos em três sítios arqueológicos da actual Catalunha, e o que encontrou contraria décadas de especulação sobre as origens dos Povos que habitavam a península que hoje partilhamos entre Portugal e Espanha.
Há uma razão para a investigação se centrar em recém-nascidos: os Povos ibéricos cremavam os seus mortos adultos. Este ritual, profundamente enraizado na cultura da época, deixou muito poucos restos humanos aptos para análise genética. Os bebés, enterrados sob habitações e espaços de trabalho, tornaram-se assim uma janela única para o passado dos antepassados dos portugueses.
De 54 bebés analisados, 22 forneceram dados genómicos suficientes para estudos detalhados. O retrato que emergiu foi inesperado: geração após geração, a composição genética das populações manteve-se estável. Os antepassados destes Povos eram os mesmos de sempre, caçadores-recolectores ocidentais, agricultores vindos da Anatólia durante o Neolítico e grupos da estepe ligados às migrações da Idade do Bronze.
A cultura ibérica, com toda a sua sofisticação, não nasceu de uma invasão nem de uma substituição de Povos. Nasceu de dentro.
Isto não significa que estes Povos vivessem isolados. Os arqueólogos sabem que não. O estudo também o confirma: alguns indivíduos apresentam marcadores genéticos do Mediterrâneo oriental ou do norte de África. Mas são casos pontuais, não uma transformação de fundo.
Um dos exemplos mais curiosos surge em Sant Miquel d'Olèrdola, no Penedès. Um recém-nascido ali encontrado tinha um perfil mitocondrial raro na Península Ibérica, provavelmente ligado ao mundo púnico ou cartaginês. A localização do sítio, com acesso relativamente directo à costa mediterrânica, ajuda a explicar esse contacto.
Dois bebés enterrados juntos nesse mesmo local tinham sido considerados durante anos possíveis gémeos, pela forma como os esqueletos estavam dispostos. O ADN desfez a teoria: não eram gémeos, nem sequer familiares próximos.
A grande transformação genética só aconteceu com a chegada de Roma. Os dados de El Camp de les Lloses, em Tona, mostram uma população notavelmente mais diversa do que a dos séculos anteriores. É precisamente quando o poder romano se consolida na região que começam a aparecer com mais frequência marcadores do Mediterrâneo e do norte de África.
Mesmo assim, o legado ibérico não desapareceu. A romanização sobrepôs-se a uma base genética local que persistia há séculos, a mesma que está na raiz do que hoje reconhecemos como o Povo Português.
O que este estudo mostra, no fundo, é que a história raramente se faz por grandes rupturas. Durante 600 anos, os Povos ibéricos absorveram ideias, técnicas e produtos vindos de fora. A sua cultura transformou-se. O seu ADN, quase não.
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Agradecimentos a quem aqui trouxe esta notícia: https://sol.iol.pt/geral/noticias/adn-de-bebes-enterrados-ha-2-700-anos-revelou-um-segredo-sobre-os-antepassados-dos-portugueses/20260615/6a3022d30cf27f6588a6cbd3

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É portanto possível evoluir, adquirir conhecimentos vindos de fora, sem todavia perder ou sequer diluir a identidade étnica - olha que surpresa do camandro que qualquer «racista» ou pessoa com senso comum já sabe há que tempos...
Entretanto, parece aqui demonstrado que, afinal, houve relativamente pouca salganhada étnica na Hispânia, ao contrário do que a generalidade do meio académico andou décadas a dizer, e, afinal, o elemento semita do Mediterrâneo Oriental acabou por ter pouca influência no sangue dos Hispânicos, pelo menos durante a vinda e presença de Fenícios e de Cartagineses. Outra surpresa...

5 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Como explicar então porque é que os ibéricos dão tão parecidos com os gregos e outros povos mediterrâneos?

18 de junho de 2026 às 20:08:00 WEST  
Blogger Lol said...

mas a acusacao mor e dna mouro medievo

19 de junho de 2026 às 08:07:00 WEST  
Blogger Caturo said...

Todos estes Povos da Europa do sul têm muita influência genética dos agricultores do Neolítico vindos da Anatólia a partir de 8000 a.e.c..

22 de junho de 2026 às 03:43:00 WEST  
Blogger Lol said...

uma hora dizem que branco surgiu ontem ou nunca existiu nunca havera mas esses do neolitico claros ja tinham milhares de anos..

22 de junho de 2026 às 05:41:00 WEST  
Anonymous Zédias said...

E os sardos atuais são de longe o parente mais próximo geneticamente desses Agricultores Neolíticos da Anatólia (ANF)

https://www.exploreyourdna.com/article/125/the-genetic-map-of-europe-when-dna-mirrors-geography

Curiosamente nessas regiões onde a % ANF é alta, está comprovada a existência de línguas pré-indoeuropeias: Basco/Ibero na Ibéria, Etrusco na Itália, Pelasgo na Grécia, Nurágico na Sardenha, Minóico em Creta e Eteocipriota em Chipre.

Aliás, no caso dos bascos é interessante notar que os bascos de Navarra possuem mais % ANF do que os bascos de Araba, Gipuzkoa e Bizkaya, um forte argumento para a Teoria da Vasconização Tardia que, voltando a relembrar, sugere que os iberos/bascos nunca teriam habitado aquela zona, ou teriam, mas perderam mais tarde o controle do território, e muitos séculos depois tê-lo-ão (re)conquistado aos celtas que o habitavam e assimilado a sua população.

22 de junho de 2026 às 19:33:00 WEST  

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